A história da cidade de Jaú contada atrás do balcão de cada estabelecimento aberto ao longo do século passado. (Acervo Fotográfico)


Nas mesas de fórmica, nos balcões de madeira gasta e entre o tilintar de copos de cerveja, escreveu-se a história invisível de Jaú. O que para muitos era apenas o roteiro do cotidiano, para o olhar atento dos jornalistas Léa Prado e José Renato Prado tornou-se um inventário de afetos. No próximo dia 19 de janeiro, a cidade ganha um registro definitivo de sua sociabilidade com o lançamento de “Bares e Restaurantes de Jaú – Lugares, histórias e sabores que nunca se apagam”.

A obra, que será lançada entre as 20h e 22h no emblemático Bar da Adelaide, não é um guia gastronômico, mas um mergulho na identidade urbana. Idealizado pelo empresário Luiz Antonio Grossi, o projeto nasceu do desejo de cristalizar memórias que o tempo, com sua pressa de modernização, costuma dissipar. Ao longo de 288 páginas, o livro percorre sete décadas — de 1950 a 2020 — revelando como esses estabelecimentos foram, na verdade, extensões da sala de visitas de gerações de jauenses.

“Foi um trabalho longo e, em muitos momentos, desafiador, especialmente para localizar familiares de antigos proprietários e reunir depoimentos de pessoas que ajudaram a construir essa trajetória”, explica José Renato Prado. Para ele, o esforço de dois anos de pesquisa documental e oral foi recompensado pelo prazer de registrar a cultura “etílica e gastronômica” que deu ritmo à cidade. “Ao mesmo tempo, foi extremamente prazeroso registrar parte da caminhada de empresários do ramo, botequineiros, garçons e de toda essa cultura que fez parte do cotidiano de Jaú.”

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Da ‘Égua’ ao Vinício: os bastidores da boemia

A narrativa do livro não segue o rigor frio da cronologia, preferindo a fluidez da memória. O leitor é convidado a visitar o memorável Bar do Vinício e a sentir a acolhida do Restaurante do Zezinho. Há capítulos dedicados a verdadeiras instituições locais, como o Bar do Boca e o Bar Continental — este último, o berço do sanduíche “égua”, um ícone que atravessou décadas no paladar da juventude e dos trabalhadores locais.

Os bastidores da produção revelam um esforço de “arqueologia afetiva”. Os autores buscaram humanizar as figuras por trás dos balcões, como Maria Lucia Martins, a Maú, e João Guerino, do Canalha’s. “São lugares onde música, irreverência e sociabilidade caminharam juntas”, definem os autores, destacando que os bares foram palcos de grandes negociações comerciais do setor calçadista, mas também de confissões sussurradas ao pé do balcão.

A 11 Letras e o legado da Editora 11

A publicação marca também a consolidação da 11 Letras, o novo braço editorial dos responsáveis pelo projeto. A linhagem do selo remete à trajetória da 11 Editora, fundada em 2014 pelos próprios José Renato e Léa Prado. Durante uma década, a casa foi um bastião da resistência literária no interior paulista, publicando de poesia a registros históricos.

Hoje, os editores dividem seu tempo entre o rigor das letras e a inovação sustentável da Germinal Green, uma fazenda urbana vertical em Jaú. Essa conexão com a terra e com o local reflete-se na obra: um livro feito por quem vive e entende as nuances da cidade. Léa Prado, historiadora de formação e coautora de obras fundamentais sobre a região, traz o rigor documental que ancora os relatos apaixonados reunidos no volume.

Serviço: Como participar e adquirir

Para os jauenses de nascimento ou de coração, e para os entusiastas da história das cidades paulistas, o lançamento será uma oportunidade de reencontro com personagens citados na obra.

Evento: Lançamento do livro “Bares e Restaurantes de Jaú”
Data: 19 de janeiro de 2026
Horário: Das 20h às 22h
Local: Bar da Adelaide (Centro – Jaú/SP)
Preço de capa: R$ 90,00

Como comprar o livro pela internet: https://www.casavamosler.com.br/

Editoras como a 11 Letras transformam mercado e aproximam público

A 11 Letras, criada por José Renato Prado e Léa Prado, faz parte de um seleto grupo de editores que fundaram editoras independentes para publicar novos autores, num movimento que se expande pelo Brasil.

Os pesquisadores Léa e José Renato, autores do livro que será lançado resgatando a história por trás dos balcões. (Foto: Divulgação)

Estratégias e impacto

Editoras independentes e livrarias de rua seguiram caminhos distintos dos grandes conglomerados, desenvolvendo estratégias para garantir qualidade e superar desafios econômicos. Segundo a Câmara Brasileira do Livro (CBL), o setor gera ao menos 70 mil empregos diretos. Profissionais destacam a promoção da cultura e a geração de renda como impactos positivos, mas apontam a necessidade de políticas públicas e incentivos fiscais.

Apesar da menor capacidade de investimento, essas editoras ampliaram o catálogo de autores, incluindo traduções de obras contemporâneas reconhecidas mundialmente. A aproximação com o público se deu por meio de financiamentos coletivos, clubes de livros e redes sociais.

Marginalidade e resistência

“O independente sempre foi muito marginal e, aí, veio com força após 2015”, afirma Cauê Seignemartin Ameni, da Autonomia Literária. Ele lembra que crises como a recuperação judicial das livrarias Cultura e Saraiva, em 2018, impactaram todo o setor. Ainda assim, o mercado editorial cresceu 13% entre 2023 e 2025, com destaque para editoras e comércio varejista.

Debates contemporâneos

As independentes têm trazido ao Brasil debates globais sobre China, inteligência artificial, crise climática, ascensão do fascismo e conflitos no Oriente Médio. “Nosso papel é ajudar o brasileiro a compreender o mundo”, resume Cauê. A editora Autonomia Literária, por exemplo, publicou o primeiro livro sobre a ascensão do Estado Islâmico, traduzido do jornalista Patrick Cockburn, que se tornou best-seller.

Desafios financeiros

O ciclo de vendas é um dos maiores obstáculos. A Ubu Editora criou um clube do livro com 2 mil assinantes, garantindo sustentabilidade sem abrir mão da qualidade. “Os assinantes nos dão um cheque em branco para nossa curadoria”, explica Florencia Ferrari. O modelo permite manter um catálogo consistente e de alta qualidade.

Estratégias de sobrevivência

Paulo Werneck, da Associação Quatro Cinco Um, ressalta que editoras independentes precisam criar “estratégias de guerrilha”, como feiras de livros, vendas diretas e impressão sob demanda. “São empresários resilientes e criativos, que reinventam o negócio todo ano”, afirma.

Imigrantes europeus desenvolveram a cidade

Jaú, a 296 km da capital paulista, é marcada pela herança do trabalho imigrante, pela riqueza do ciclo do café e pela consolidação como polo calçadista feminino de destaque continental.

A cidade foi moldada com forte influência dos imigrantes, principalmente os italianos. (Foto: Acervo)

A história da cidade começa oficialmente em 15 de agosto de 1853, com a fundação do povoado às margens do rio Jaú — nome derivado do peixe homônimo capturado por bandeirantes na região. A formação urbana se consolidou com a doação de terras por Francisco Gomes Botão e Manoel Joaquim Lopes. No fim do século XIX, Jaú recebeu grande contingente de imigrantes europeus, principalmente italianos e espanhóis, que vieram trabalhar nas lavouras de café. O ciclo transformou o município em um dos maiores produtores mundiais do grão, alavancando sua economia e infraestrutura.

A riqueza gerada pelo café impulsionou o surgimento de uma agroindústria local e fomentou outros setores econômicos. Um dos marcos dessa transição foi a instalação da indústria sucro-alcooleira, que teve papel relevante na diversificação produtiva. Com o tempo, Jaú consolidou-se como um dos principais polos da indústria calçadista do Brasil, especialmente na produção de calçados femininos.

Reconhecida como “Capital do Calçado Feminino”, a cidade abriga centenas de fábricas que produzem milhões de pares por ano, muitos deles destinados à exportação para América Latina, Europa e Oriente Médio. O setor conta com incentivos fiscais estaduais, como redução de 50% no ICMS para fabricantes e crédito de 12% para lojistas, fortalecendo ainda mais a atividade.

O segmento emprega milhares de trabalhadores e é um dos pilares da economia local. Em 2014, em parceria com o governo italiano, a prefeitura realizou diagnóstico detalhado por meio do programa Brasil Próximo, com o objetivo de modernizar a produção e ampliar a competitividade internacional.

Com população estimada em 137.409 habitantes (2025) e IDHM de 0,778 (2010), considerado alto, Jaú apresenta indicadores sólidos de desenvolvimento humano, com 98,92% de escolarização entre crianças de 6 a 14 anos. O município preserva patrimônio arquitetônico expressivo, herança do período áureo do café, e segue como referência regional em qualidade de vida, cultura e desenvolvimento econômico.