
Com cerca de 45% das emissões globais de gases de efeito estufa concentradas em Estados Unidos e China, a ausência oficial dessas duas potências na COP30, iniciada nesta segunda-feira (10) em Belém (PA), representa um entrave significativo para os esforços multilaterais de combate às mudanças climáticas.
A conferência, que reúne representantes de 191 países, tem como objetivo acelerar a implementação de medidas para conter o aquecimento global. A meta é limitar o aumento da temperatura média do planeta a 1,5 °C até o fim do século.
Para isso, será necessário reduzir drasticamente o uso de combustíveis fósseis e ampliar a transição energética para fontes renováveis.
Segundo dados da Agência Internacional de Energia (AIE), em 2024, energias solar e eólica responderam por 32% da geração global de eletricidade. A China lidera esse movimento, ao investir em larga escala na produção de equipamentos e tecnologias que viabilizam a transição energética. Apesar de não participar oficialmente das negociações da COP30, a diplomacia chinesa deve atuar em acordos paralelos entre países e blocos.
Já os Estados Unidos, segundo maior emissor mundial, não enviaram representantes do governo federal. A participação americana se dará por meio de setores privados, acadêmicos e lideranças do Partido Democrata. O presidente Donald Trump, que nega a gravidade da crise climática, optou por não integrar a conferência.
A ausência das duas maiores economias do mundo compromete a representatividade das decisões tomadas em Belém. Para especialistas, sem o engajamento formal de China e EUA, as metas globais correm o risco de se tornarem promessas sem respaldo prático.
Diplomacia brasileira em teste
A presidência brasileira da COP30 busca protagonismo ao propor a criação de um “mapa do caminho” para superar a dependência dos combustíveis fósseis. A proposta foi apresentada na Cúpula do Clima, realizada nos dias 6 e 7 de novembro, com chefes de Estado e de Governo.
Apesar da iniciativa, o Brasil enfrenta críticas por abrir novas frentes de exploração de petróleo na foz do Amazonas. O governo defende que os recursos gerados pelo setor podem financiar a transição energética.
Financiamento climático e transição justa
Outro ponto central da COP30 é o financiamento climático. Está em discussão um pacote que prevê US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 para países menos desenvolvidos. O valor foi acordado na COP anterior, no Azerbaijão, mas ainda não há definição sobre sua viabilidade.
A diplomacia brasileira também propõe a criação do “Mecanismo de Belém”, instrumento voltado à implementação de uma transição energética justa. A proposta é apoiada por organizações da sociedade civil, como o Observatório do Clima.
“A sociedade civil tem pedido por um mecanismo que fale da implementação dessa transição justa”, afirma Stella Hershmann, especialista em negociações climáticas. “Isso pode ser um legado importante para o Brasil.”
Vozes da sociedade civil
Paralelamente à conferência oficial, movimentos sociais e representantes de mais de 60 países realizam a Cúpula dos Povos, também chamada de “antiCOP”. Os grupos criticam o modelo atual de transição energética, que consideram excludente e exploratório.
“É uma transição feita de cima para baixo, que exclui os povos e aponta para uma expansão energética que consome ainda mais minerais críticos e terras raras”, diz Isabelly Miranda, dirigente do Movimento pela Soberania Popular na Mineração.
Conexão com a vida real
Na véspera da abertura da COP30, o secretário-executivo da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), Simon Stiell, destacou que a ação climática precisa gerar benefícios concretos para a população. Segundo ele, a transição energética pode reduzir custos, ampliar o acesso à energia, gerar empregos, melhorar a saúde e diminuir a poluição.

