Australiana passa protetor solar em criança: fraude foi descoberta por autoridade sanitária. (Foto: Redes Sociais)


Um grave escândalo de saúde pública abalou a Austrália após a descoberta de que quase duas dezenas de protetores solares ofereciam proteção muito inferior à anunciada. Esses produtos são muito usados no Brasil, principalmente no verão, por causa da fama da qualidade.

Os produtos, amplamente comercializados e exportados, foram suspensos após testes revelarem que o fator de proteção solar (FPS) real era drasticamente menor do que o indicado nas embalagens.

A Administração de Produtos Terapêuticos (TGA), órgão regulador australiano, confirmou que pelo menos 21 produtos não cumpriam os padrões mínimos de proteção. Alguns protetores que alegavam FPS 50+ apresentaram, na prática, FPS inferior a 21, e um deles chegou a registrar apenas FPS 4.

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A descoberta levou à suspensão de vendas de 18 marcas, sendo que oito iniciaram recolhimento voluntário, dez foram suspensas oficialmente e duas seguem sob investigação. Um dos produtos não é comercializado no país.

“Confiei nesses produtos com a minha vida”

Para muitos australianos, a revelação gerou indignação e medo. Rach, uma mãe de 32 anos de Queensland, foi diagnosticada com melanoma neste ano, apesar de usar protetor solar diariamente.

“Confiei nesses produtos com a minha vida”, disse ela ao The Guardian. “Agora me pergunto se eles realmente me protegeram.”

Os produtos com falhas foram rastreados até uma fórmula comum desenvolvida pela farmacêutica Wild Child Laboratories, sediada em Nova Gales do Sul. Os testes de FPS foram realizados pela empresa americana Princeton Consumer Research (PCR Corp). A TGA apontou inconsistências nos métodos clínicos da PCR, embora não tenha acusado a empresa de má conduta.

“Não encontramos evidências de contaminação ou falhas na fabricação”, afirmou um porta-voz da TGA. “No entanto, os resultados dos testes clínicos não condizem com o desempenho real dos produtos. Essa discrepância é extremamente preocupante.”

A Wild Child encerrou seu contrato com a PCR Corp, e outras fabricantes seguiram o mesmo caminho.

Uma crise de confiança

O escândalo abalou a confiança pública nos protetores solares, especialmente em um país onde dois em cada três australianos são diagnosticados com câncer de pele antes dos 70 anos, segundo o Conselho de Câncer da Austrália.

“Isso não é apenas uma falha regulatória — é uma emergência de saúde pública”, afirmou a dermatologista Emily Tran, de Melbourne.

“Recomendamos o uso diário de protetor solar, e agora descobrimos que alguns desses produtos podem não ter oferecido proteção alguma.”

O grupo de defesa do consumidor CHOICE, que conduziu testes independentes em 20 marcas populares, revelou que apenas quatro estavam em conformidade com o FPS anunciado. “Ficamos chocados com os resultados”, disse o porta-voz Dean Price. “É inaceitável que produtos vendidos como itens de segurança estejam falhando tão gravemente.”

Repercussões internacionais

A Austrália é uma grande exportadora de protetores solares, e várias das marcas envolvidas são vendidas internacionalmente — inclusive no Brasil, onde há alta demanda por produtos com FPS elevado devido ao clima tropical.

A agência reguladora brasileira Anvisa ainda não se pronunciou oficialmente, mas especialistas alertam que o escândalo pode levar à revisão de contratos de importação e à intensificação da fiscalização no país.