O ministro do Turismo, Celso Sabino, tornou-se o centro de uma disputa política que expõe as fissuras internas do União Brasil e a tensão entre o partido e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo após o ultimato da legenda para que seus filiados deixassem os cargos na Esplanada, Sabino decidiu permanecer no ministério, desafiando a direção nacional e provocando a abertura de um processo disciplinar que pode culminar em sua expulsão.
A decisão do partido, tomada em setembro, foi clara: todos os filiados deveriam entregar seus cargos até o dia 19 daquele mês. Sabino, no entanto, ignorou o prazo, alegando compromissos institucionais com a COP30, evento climático que será realizado em Belém (PA), sua base eleitoral. Ele chegou a redigir uma carta de renúncia, mas atendeu a um pedido direto de Lula para permanecer até o fim da agenda oficial.
Um gesto de lealdade
Em evento público ao lado do presidente, Sabino reforçou sua posição com um discurso que soou como desafio à cúpula partidária. “Nada, nem partido político, nem um cargo, nem ambição pessoal, vai me afastar desse povo que eu amo e do estado do Pará, presidente. Conte comigo onde quer que eu esteja, para lhe apoiar, para segurar na sua mão”, declarou.
A fala foi interpretada por dirigentes do União Brasil como um gesto de alinhamento explícito ao Planalto, em contraste com a resolução partidária que determinou o desembarque imediato do governo. A permanência de Sabino é vista como um teste à autoridade da Executiva nacional e pode abrir precedentes para outros filiados desrespeitarem decisões internas.
Processo disciplinar e prazo final
O partido instaurou no dia 30 de setembro um processo disciplinar sob relatoria do deputado Fábio Schiochet (SC), presidente do Conselho de Ética da Câmara. Sabino tem até segunda-feira (6) para apresentar sua defesa. A tendência, segundo fontes próximas ao relator, é que o parecer recomende a expulsão do ministro.
Paralelamente, outro processo foi aberto para destituir a Executiva estadual do União Brasil no Pará, comandada pelo próprio Sabino. A relatoria está com a senadora Professora Dorinha (TO), e o cronograma segue o mesmo do processo de expulsão.
Cálculo político
Nos bastidores, aliados de Sabino avaliam que sua permanência no ministério é estratégica. Pré-candidato ao Senado em 2026, ele aposta na visibilidade proporcionada pela COP30 e pelo Círio de Nazaré, maior evento religioso do estado, para consolidar sua imagem. O governador Helder Barbalho (MDB) é apontado como favorito a uma das vagas, enquanto a segunda deve ser disputada entre Sabino e o presidente da Assembleia Legislativa, Chicão (MDB).
A resistência de Sabino também revela a fragilidade da posição do União Brasil, que tenta se reposicionar como força independente após ter integrado a base de sustentação do governo Lula no início do mandato. Com 59 deputados federais e sete senadores, o partido enfrenta pressões internas e externas, especialmente do Centrão, que busca ampliar sua influência sobre a Esplanada.
Análise
A crise envolvendo Celso Sabino é mais do que uma disputa partidária: é um reflexo das complexas relações entre partidos e governo em um sistema político fragmentado. Ao desafiar sua legenda e manter-se ao lado de Lula, o ministro do Turismo coloca em xeque a disciplina partidária e sinaliza que, em tempos de coalizões instáveis, a lealdade pessoal pode pesar mais do que a fidelidade institucional.





