O controle do dinheiro mundial reflete na desigualdade social mundial. (Foto: Reprodução)


Um estudo do World Inequality Lab revela um cenário alarmante da desigualdade global. Segundo o Relatório sobre a Desigualdade Mundial, menos de 60 mil indivíduos — número suficiente para lotar um estádio de futebol — possuem mais riqueza do que 50% da população mundial.

O World Inequality Lab é um centro internacional de pesquisa sobre desigualdade econômica e social. Ele está sediado em Paris, na Paris School of Economics, e é organizado por uma rede de pesquisadores ligados a essa instituição e a universidades parceiras, como a Universidade da Califórnia em Berkeley.

O documento destaca que essa elite representa apenas 0,001% da humanidade, mas concentra três vezes mais recursos do que os mais pobres.

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“Contribui desproporcionadamente pouco para as finanças públicas. As taxas de imposto efetivas sobem para a maior parte da população, mas descem acentuadamente para os milionários e multimilionários”, afirma o relatório.

Para contextualizar, profissionais de classe média, como médicos e professores, pagam proporcionalmente mais impostos do que multimilionários que utilizam estruturas offshore ou lucram com mais-valias. “Esta situação não só prejudica a justiça fiscal, como priva as sociedades dos recursos necessários para a educação, cuidados de saúde e ação climática”, acrescenta o documento.

Desigualdade de gênero

O relatório também chama atenção para a disparidade entre homens e mulheres. Embora a carga de trabalho formal tenha diminuído globalmente, foram os homens que mais se beneficiaram. “Esta distribuição desigual do tempo é uma das demonstrações mais claras de que o progresso nas condições de trabalho não se traduziu automaticamente em paridade de género”, aponta o texto.

Os dados mostram que, em média, as mulheres recebem apenas um terço da renda total do trabalho. “Nenhuma região do mundo atingiu um equilíbrio de 50-50 entre homens e mulheres”, conclui o relatório. As disparidades são mais acentuadas no Sul da Ásia, no Oriente

Médio e em partes da África, onde as mulheres ficam com menos de um quarto dos rendimentos do trabalho.

Impacto climático

Outro aspecto abordado é a desigualdade ambiental. A pegada de carbono dos 10% mais ricos nos Estados Unidos é mais de 40 vezes superior à dos 10% mais ricos na Nigéria. Em média, uma pessoa do 1% mais rico emite 75 vezes mais carbono por ano do que alguém entre os 50% mais pobres.

O relatório defende que a responsabilidade não deve ser atribuída apenas ao consumo, mas também à propriedade do capital. “A um indivíduo que detenha 50% do capital de uma empresa são-lhe atribuídas 50% das emissões dessa empresa”, explica o documento.

Globalmente, o 1% mais rico responde por 41% das emissões de gases de efeito estufa quando se considera a propriedade, contra 15% na abordagem baseada no consumo.

Estrutura financeira internacional

O estudo também denuncia que o sistema monetário e financeiro favorece países ricos e penaliza os mais pobres. “Um pequeno número de países privilegiados tem a vantagem de contrair empréstimos baratos e investir em ativos relativamente mais rentáveis”, afirma o relatório.

Essa vantagem, descrita nos anos 1960 como “privilégio exorbitante” dos Estados Unidos, hoje se estende à Europa e ao Japão. Já os países emergentes e de baixo rendimento enfrentam juros elevados e transferem parte significativa de seus recursos para nações ricas.

Em algumas regiões, o valor destinado ao pagamento de dívidas externas supera os gastos públicos em saúde.

O documento conclui que o sistema global atual perpetua desigualdades de forma semelhante a antigos padrões coloniais, funcionando como um “imposto silencioso e contínuo” sobre o desenvolvimento dos países mais pobres.