Por Germano Oliveira (SP) e Adriana Blak (RJ)
O desenvolvimento de tecnologias ligadas à genômica e à inteligência artificial na medicina pode criar novas formas de dependência entre países e alterar a dinâmica geopolítica no século XXI. A avaliação é do advogado e pesquisador Carlos Augusto Duque-Estrada.
“Estamos vivendo uma grande corrida de biotecnologia. Com o avanço da tecnologia, especialmente inteligência artificial e sistemas cibernéticos, isso evoluiu para um nível de controle muito mais sofisticado”, disse ele em entrevista ao programa BC TV, nesta segunda-feira (13).
Em conversa com os jornalistas Germano Oliveira (SP) e Adriana Blak (RJ), Duque-Estrada apresentou pontos de sua pesquisa de mestrado e doutorado sobre a chamada “arma genômica”, conceito que relaciona o uso estratégico de informações genéticas e o desenvolvimento de tecnologias médicas como instrumentos de poder geopolítico.
Os títulos foram obtidos na Universidade Bircham International University, em Madri, na Espanha.
Segundo o pesquisador, o domínio científico pode se tornar decisivo no acesso a medicamentos e vacinas, estabelecendo relações de dependência entre nações. Ele relacionou o tema à disputa entre Estados Unidos e China e citou a pandemia de Covid-19 como exemplo de como o controle de vacinas e tratamentos pode influenciar relações econômicas e internacionais.
Duque-Estrada destacou ainda que o avanço do sequenciamento genético, da inteligência artificial aplicada à biomedicina e da formação de bancos de dados populacionais abre caminho para uma nova etapa da competição global.
“O desenvolvimento dessas tecnologias pode, no futuro, criar relações de dependência entre países no campo da saúde”, afirmou.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Germano Oliveira – Mestre Duque Estrada, além de sua atuação como advogado especializado em falências no Brasil, o senhor também se destacou na Espanha com um mestrado que aborda o conceito de ‘arma genômica’ voltada ao controle de populações humanas, especialmente em países mais pobres. Poderia explicar do que se trata essa tese desenvolvida pelo senhor?
Carlos Augusto Duque Estrada – A tese que eu concluí, estudando nos últimos anos tudo o que tem acontecido no mundo, é que nós estamos vivendo uma grande corrida de biotecnologia. Se a gente for um pouco mais para trás na história, isso não é novidade. Desde a época dos mongóis, quando havia guerras, eles utilizavam pessoas que haviam morrido com peste bubônica para jogar os corpos dentro das cidades, contaminando-as e controlando-as por meio de uma guerra biológica. Era algo primário, porque naquela época não havia tecnologia, e isso, ao longo dos séculos, vem se desenvolvendo.
Com a corrida tecnológica que temos hoje, caminhamos para um sistema de biovigilância e cibertecnologia, o que gera um controle cada vez maior, inclusive corporacional. Seja por regimes totalitários ou mesmo por regimes mais democráticos, há um incentivo para que as pessoas façam seus controles de DNA.
Na realidade, o que me levou a estudar isso foram algumas experiências e estudos que venho acompanhando. Desde que morei nos Estados Unidos, contraí a doença de Lyme e a doença do carrapato. Quando procurei um médico, ele me disse que havia teses nos Estados Unidos de que a doença de Lyme começou a ocorrer em grande escala a partir de 1974, sendo que antes não havia registros significativos. Outra doença citada foi a Rockmont Fever, semelhante à febre maculosa.
Segundo esse médico, existia um laboratório do exército americano na Virgínia, e cobaias teriam escapado, contaminando veados nas florestas, o que acabou espalhando a doença pelo país. Trata-se de uma doença que não atua sozinha, podendo envolver cerca de 100 coinfecções diferentes, com múltiplos parasitas atuando simultaneamente. Isso afeta o sistema nervoso, a parte neurológica, reumática, entre outras, gerando diversas consequências.
Esse desenvolvimento biológico, relacionado à guerra biológica, foi oficialmente afastado pela ONU após a Segunda Guerra Mundial, mas vem sendo desenvolvido há séculos. Com a tecnologia atual, especialmente com a inteligência artificial e sistemas cibernéticos, isso avançou muito.
O que ocorre é que as nações que controlarem esses sistemas também controlarão os medicamentos. Se houver o mapeamento das possíveis doenças que podem atingir um país e o desenvolvimento dos respectivos tratamentos, cria-se uma relação de dependência. Assim, esse país passa a depender daquele que detém essa tecnologia.
Portanto, trata-se de um novo tipo de guerra: mais silenciosa, porém potencialmente mais eficaz, baseada em dominação e influência global.
Germano Oliveira – O que significa exatamente essa ‘arma genômica’, entre aspas, e o que ela muda nas relações internacionais? Ou seja, quem domina hoje esse campo são os Estados Unidos e a China?
Carlos Augusto Duque Estrada – Não. Hoje você tem um controle, todos os países de primeiro mundo têm laboratórios de teste e de verificação. Os dois maiores em protagonismo são os Estados Unidos e a China. Um segue um conceito mais capitalista, e o outro, estatal de controle.
Um exemplo bem simples disso, de forma bem simplificada, foi o problema da Covid. Quem tinha as vacinas? O mundo inteiro correu atrás da China e dos Estados Unidos. Por quê? Porque era um controle biológico, um problema médico. Ou seja, quem tinha a vacina tinha o controle econômico — pagava-se qualquer valor para tê-la.
E bilhões de pessoas morreram no mundo, e cerca de 700 mil só no Brasil. Mas o Brasil foi pioneiro nisso, foi um dos primeiros países a comprar vacinas. Por que morreram 700 mil? Porque os médicos brasileiros não estavam preparados. A maioria dos que morreram foi por erro médico, por falta de conhecimento naquele momento.
Não foi necessariamente negligência governamental; o problema foi outro: falta de preparo geral. Os médicos, como em todo o mundo, não sabiam lidar inicialmente com a doença. Muitas vezes, entubavam e utilizavam excesso de oxigênio, o que agravava o quadro, pois não havia estudo suficiente ainda.
Somente depois disso é que houve evolução no tratamento. Enquanto isso, o mundo inteiro correu atrás de vacinas. Quem tinha vacina? Quem tinha os testes antes? Quem tinha, controlava. Uma vacina que custava, por exemplo, um dólar, como no caso de algumas chinesas, era vendida por 10 ou 20. Havia controle econômico da operação. Filas de aviões se formavam para buscar vacinas e máscaras.
Ou seja, é uma corrida tecnológica de controle genômico? É. Porque, por exemplo, na China utilizou-se o RNA inativado. Então, sim, trata-se de uma forma de guerra biológica. Temos um problema sério pela frente, e a Covid foi apenas um exemplo do que pode estar sendo preparado no mundo.
Quando se fala em guerra de drones, tudo bem, mas existe algo muito pior: uma guerra silenciosa, que pode matar muito mais gente. E quem tiver os remédios, quem tiver o controle genômico, terá poder.
Vou dar um exemplo: imagine uma região com alta incidência de determinado câncer. Se alguém souber de um gatilho capaz de aumentar rapidamente essa incidência e já possuir o tratamento, esse agente passa a ter enorme poder. Quanto um país pagaria, ou do que abriria mão em termos de soberania, para salvar sua população?
A dependência deixa de ser apenas econômica — passa a ser uma dependência de saúde pública. E isso, no meu entendimento, é muito pior.
Adriana Blak – Como a competição entre Estados Unidos e China, nesse eixo mais visível da nova geopolítica da biotecnologia, tem se manifestado? De acordo com a sua tese, esses dois gigantes econômicos investem fortemente em sequenciamento genético, inteligência artificial aplicada à biomedicina, bancos de dados populacionais e terapias avançadas. No caso dos Estados Unidos, essa tecnologia é amplamente desenvolvida nas universidades. E, na China, onde essa tecnologia é desenvolvida?
Carlos Augusto Duque Estrada – São desenvolvidos em laboratórios que eles dizem ser privados, mas que, na prática, são estatais, dentro da estrutura governamental. E não são apenas eles. O governo de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, por exemplo, tinha uma empresa chamada G42, que atuava na área genômica. Ela fazia o mapeamento genômico do país, com o objetivo de analisar o DNA de toda a população.
Portanto, não se trata apenas dos Estados Unidos e da China. Essa corrida não envolve somente esses dois países. Eles estão errados? Não estão. A tecnologia é essa. O que acontece é que, quando se coloca muito foco apenas neles, outros países também estão avançando nessa área. A Índia é um exemplo. Todos estão correndo nessa direção, porque quem tiver o maior controle terá também o controle geoeconômico.
Adriana Blak – O senhor pode nos explicar como a chamada ‘arma genômica’ pode ser utilizada para controlar grandes populações? Isso se aplica especialmente a países pobres e com populações numerosas, como é o caso da Índia? Por exemplo, a senhora acabou de citar que o país tem cerca de um bilhão e meio de habitantes.
Carlos Augusto Duque Estrada – Sim. Um exemplo típico: A Índia, teoricamente, pelo tamanho da população, quando houve o Covid, foi proporcionalmente, pelo tamanho da população, um dos países que menos teve mortes, proporcional ao tamanho do país, da população. Por quê?
Porque o indiano tem uma defesa natural pela falta de higiene, pela falta e eles comem muita pimenta, por exemplo. A pimenta, a gente sabe que é um fator natural que mata bactérias, mata protozoários, conforme o tipo dela avançado. Então, o indiano come muito isso, você vê que a comida deles é toda dessa base.
Quando você vai conversar com os indianos, raríssima vez, mesmo na classe mais alta, eles vão ao hospital; não é do perfil deles, porque eles têm uma medicina própria, que eles entendem que há produtos naturais.
Agora, se você faz um estudo genômico do país, verifica que dentro do DNA dele, ele tem um gatilho para determinado problema biológico que não tem nenhum remédio natural que possa salvá-lo, o que você vai fazer?
Você vai desenvolver uma arma genética que acione esse gatilho e a população morre mais rápido (isso não tem comprovação científica). Ao mesmo tempo, você vai ter de contrapartida um remédio, que vai ser uma vacina ou o que seja, que faça a garantia da população. É assim que eles vão controlar.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Conheça o advogado Carlos Augusto Duque-Estrada

Carlos Augusto Jatahy Duque-Estrada Júnior construiu sua trajetória profissional em diferentes áreas do Direito e da Economia.
Formado pela Academia da Força Aérea em 1981, concluiu graduação em Direito no Centro de Ensino Unificado de Brasília (Uniceub) em 1988, com pesquisa voltada ao sistema de Common Law e suas diferenças em relação ao modelo de Civil Law.
No mesmo período, também obteve graduação em Economia pela mesma instituição. Recentemente, cursou doutorado em Geoeconomia e Geopolítica pela Bircham International University.
É sócio do escritório Duque-Estrada Advogados Associados desde 2006. Sua atuação se concentra em Direito Empresarial, Administrativo, Aeronáutico, Trabalhista, Financeiro e Mineral.
Na área acadêmica, lecionou Direito Aeronáutico na Universidade Anhembi-Morumbi, tanto na graduação em Aviação Civil quanto em cursos de pós-graduação lato sensu voltados à prevenção de acidentes aeronáuticos. Também ministrou cursos in company para companhias aéreas como TAM e GOL.
Duque-Estrada Júnior participou de comitês e conselhos ligados à aviação e à administração pública.
Foi consultor jurídico especializado em Direito Aeronáutico Trabalhista no Grupo LATAM entre 2013 e 2017. Desde 2023, integra o Conselho de Administração da Desenvolve São Paulo, agência de fomento do governo estadual, e da Prodesp, empresa de processamento de dados do Estado.
Além da prática profissional, produziu material didático sobre Direito Aeronáutico e participou da organização de obras coletivas sobre Direito do Trabalho e Previdenciário. Também esteve presente em seminários e congressos, com palestras sobre legislação aeronáutica, mercado da aviação e direito trabalhista aplicado ao setor aéreo.
Entre os reconhecimentos recebidos estão a Medalha Amigo da Marinha (1991), a Ordem do Mérito Aeronáutico – Grau Cavaleiro (2016) e a Medalha da Ordem do Mérito Santos Dumont (2024).




