Para milhões de famílias das classes C, D e E, ainda à margem do crédito tradicional, a inovação tecnológica abre espaço para novas formas de acesso e planejamento. Esse é o propósito defendido por Amerson Magalhães, economista e executivo da Crefaz, instituição financeira com sede em Maringá (PR), especializada em oferecer crédito popular com soluções adaptadas à realidade de baixa renda.
Em entrevista ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, nesta quinta-feira (27), ele falou aos jornalistas Germano Oliveira e Camila Srougi, destacando como a combinação de inovação, educação financeira e democratização do acesso às linhas de crédito pode transformar a vida de famílias que vivem com orçamentos extremamente ajustados.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida por Amerson Magalhães:
Camila Srougi – Nesse momento em que o Brasil vê as famílias endividadas, mas também com mais acesso à tecnologia e a serviços digitais, de que maneira o país pode avançar numa inclusão financeira que realmente chegue até a ponta?
Amerson Magalhães – Esse é o grande desafio. Cada vez mais, seja com inteligência artificial ou com acesso a dados, vamos conseguir prestar um atendimento customizado. Assim, atendemos perfeitamente aquele cliente que está na ponta, de maneira particular e direcionada.
Na Crefaz, oferecemos crédito para quem está às margens do sistema financeiro, de forma inovadora: cobramos as parcelas diretamente na conta de energia. O cliente recebe o crédito e paga suas prestações junto da fatura mensal, o que facilita muito a adimplência.
Camila Srougi – Falando desse brasileiro com orçamento apertado, mas que move um mercado gigantesco: que tipo de solução realmente faz diferença para quem não consegue acessar o crédito tradicional?
Amerson Magalhães – Muitas vezes, o cliente precisa do crédito, mas não tem cartão; ou, quando tem, o limite já está tomado. Em muitos casos, ele está negativado e não consegue crédito em outra instituição. Na Crefaz, identificamos a capacidade real de pagamento, mesmo quando a renda é informal — o que é extremamente comum nessa faixa social. Se considerássemos apenas a renda formal, seríamos muito restritivos. Esse crédito muitas vezes reorganiza o fluxo financeiro da família: compra de matéria-prima, uma emergência, uma conta inesperada.
Para você ter uma ideia: 30% dos nossos clientes não têm cartão de crédito e, entre os que têm, metade não possui limite disponível.
Germano Oliveira – Qual foi a ideia da Crefaz em oferecer crédito de forma mais acessível a pessoas historicamente desassistidas? Quais são os principais desafios desse mercado?
Amerson Magalhães – Entrei na Crefaz há cerca de dois anos, e a empresa já tem 12 anos. No início, oferecia créditos de R$ 200. Com o tempo, aumentamos — hoje podemos liberar até R$ 4 mil. E conseguimos isso aprendendo a analisar a própria conta de energia do cliente para inferir sua capacidade de pagamento.
Quais são as dificuldades como empresa? Primeiro, para atender esse público com crédito muito baixo, há um problema de escala. O custo para atender esse público é alto. Para resolver isso, temos lojas próprias e também parcerias com correspondentes bancários. Hoje, nossa força de vendas conta com mais de 15 mil pessoas oferecendo nosso produto em todo o Brasil. Assim, conseguimos superar o problema de escala.
Outro grande desafio é a questão da renda, que também conseguimos resolver dessa forma. Hoje temos a capacidade de conceder crédito a esse público.
É claro que se trata de um crédito com taxa de inadimplência maior do que em outras classes. Mesmo dentro das classes C, D e E, conseguimos estabelecer perfis de clientes, e os níveis de perdas variam conforme esses perfis.
Camila Srougi – O que mais pesa no comportamento financeiro das classes C, D e E? E onde as empresas ainda erram ao tentar entender esse consumidor?
Amerson Magalhães – O maior problema é que essa classe não tem folga no orçamento. Qualquer imprevisto — médico, reforma, perda de emprego — desequilibra o fluxo de caixa. Mas são pessoas que querem pagar. Quando recebem crédito, regularizam o fluxo e restabelecem suas finanças. Costumo dizer: às vezes, estamos ajudando o cliente a comprar o milho para vender a pipoca mais tarde.
Camila Srougi – Como as instituições podem criar relações mais sustentáveis com esse público, evitando que o crédito seja apenas um produto de curto prazo?
Amerson Magalhães – O grande ponto é a educação financeira. Mesmo na classe média isso é escasso. As pessoas olham apenas o valor da parcela, sem entender o impacto no orçamento futuro. Na Crefaz, metade dos clientes que nos procuram não recebe o crédito, porque avaliamos que não têm capacidade de pagamento. O objetivo é conceder crédito que realmente ajude a reorganizar a vida financeira.
Germano Oliveira – O presidente Lula anunciou nesta semana a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais. Isso pode melhorar o orçamento das famílias e permitir que vocês aumentem o valor dos empréstimos?
Amerson Magalhães – Sim. Essa medida libera recursos justamente para quem tem orçamento menor. Com maior capacidade de pagamento, podemos aumentar o ticket médio — talvez para até R$ 5 mil — sem comprometer o cliente.
Germano Oliveira – E quanto ao desafio tecnológico? Esse público tem menos familiaridade com aplicativos e processos digitais.
Amerson Magalhães – Sem dúvida, é um público com menor familiaridade digital. Isso melhorou após a pandemia, e a Crefaz já estava preparada com sistemas que permitiram operar mesmo com lojas fechadas. Nosso modelo é de venda assistida: nossa equipe ajuda o cliente com assinatura, biometria e processos necessários. Ao desenvolver nossos aplicativos, priorizamos leveza para funcionar em celulares simples e intuitividade — para que o cliente faça reconhecimento facial e passos básicos sem dificuldade. Hoje, um terço dos créditos é liberado em até uma hora após o cliente entrar na loja.
Camila Srougi – E o uso de inteligência artificial para monitorar risco, sem excluir quem já começa em desvantagem?
Amerson Magalhães – A IA já nos ajuda muito. São 12 anos de dados que hoje permitem classificar clientes em várias categorias. Antes, não daríamos crédito a certos perfis; hoje podemos conceder valores menores, com mais segurança. No futuro haverá atendimento com IA, autocontratação digital, contratação via WhatsApp. A IA permitirá oferecer crédito extremamente customizado. Talvez não R$ 4 mil, mas R$ 1 mil para quem tem menor capacidade — com mais precisão.
Camila Srougi – Em um país onde o crédito pode ser empurrão ou abismo, como ter um mercado menos predatório e mais adequado à realidade brasileira?
Amerson Magalhães – O desafio é calibrar produtos que atendam o cliente sem comprometer sua renda. Combinar isso com educação financeira é o que fará a grande transformação.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
79 mi de brasileiros estão com R$ 496 bi de contas em atraso

O número de brasileiros inadimplentes alcançou 79 milhões em novembro, segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa. Esse número é equivalente a 94% da população da Alemanha.
O levantamento da Serasa mostra que o Brasil soma 313 milhões de dívidas em aberto, que totalizam aproximadamente R$ 496 bilhões, que seriam equivalentes ao PIB (Produto Interno Bruto) da Ucrânia ou da Grécia. O valor médio por pessoa inadimplente no país é de R$ 6,2 mil.
Em outubro, o Banco Central já havia registrado que a taxa de inadimplência no sistema financeiro nacional atingiu 4% da carteira de crédito, o maior nível em três anos. O índice considera atrasos superiores a 90 dias e reflete o impacto da elevação dos juros sobre a capacidade de pagamento das famílias e empresas. A taxa Selic está em 15% ao ano, enquanto os juros médios bancários chegaram a 46,3% ao ano, o maior patamar desde 2017.
A Serasa aponta que o grupo mais afetado pela inadimplência está na faixa etária entre 41 e 60 anos, que concentra 35,4% dos devedores. Em seguida aparecem os consumidores de 26 a 40 anos, com 33,8%. A fintech também destaca que o cartão de crédito continua sendo a principal origem das dívidas, seguido por contas básicas e empréstimos pessoais.
O cenário reforça a preocupação com o comprometimento da renda das famílias e com os efeitos sobre o consumo. Para mitigar o problema, a Serasa promoveu em novembro o 34º Feirão Limpa Nome, reunindo mais de 1,6 mil empresas e oferecendo descontos de até 99% para renegociação de débitos.


