Laira Vieira*
O vento sussurra promessas e a água cintila, mas a ilusão já tem cheiro de coisa morta. O filme Éden (2024), de Ron Howard (Uma Mente Brilhante, O Código da Vinci), baseado em fatos, revela que nem os lugares mais remotos escapam da podridão elegante da natureza humana: o paraíso vira palco para o ego, cada sombra esconde vaidade, cada onda reflete ambição. É uma ilha onde o silêncio pesa, mas não mais que o zumbido do próprio orgulho. Ali, até a liberdade parece uma piada interna contada por alguém que esqueceu o final.
Floreana, uma das ilhas de Galápagos, 1929. O mar parece suspenso entre o divino e o tédio. O alemão Friedrich Ritter, interpretado por Jude Law (O Talentoso Ripley, Sherlock Holmes), abandona a civilização com a convicção de quem acredita ser mais lúcido que o resto da espécie. Ex-dentista, leitor voraz de Nietzsche e vegetariano militante, parte em busca não de simplicidade, mas de uma pureza estética, o tipo de pureza que apodrece no instante em que se tenta provar que existe. Ao seu lado, Dore Strauch, vivida por Vanessa Kirby (A Noite Sempre Chega, Napoleão), acompanha com o olhar de quem sabe que toda utopia começa como fuga e termina como cárcere. A solidão, antes promessa de isolamento e transcendência, revela-se o palco perfeito para o narcisismo brincar de divindade, um reality show em que o prêmio é continuar vivo; e pequenos conflitos cotidianos assumem ares de tragédia filosófica — ou comédia para quem observa de fora.
Quando o casal composto por Heinz Wittmer, interpretado por Richard Roxburgh (Bastardos Inglórios, Nada de Novo no Front), e Margret Wittmer, vivida por Sydney Sweeney (Euphoria, Imaculada), desembarca na ilha com ares de esperança doméstica, percebe-se que equilíbrio e vulnerabilidade, amor e pragmatismo medem forças de Friedrich e Dore. O casal recém chegado mostra que sobreviver não é apenas físico, mas também psicológico. Ferimentos que machucam — mesmo sendo superficiais surgem na relação com a ilha e com os outros, revelando que o desenvolvimento limitado de cada personagem não diminui a intensidade da película.

Da penumbra social surge a baronesa Eloise Bosquet von Wagner Wehrhorn, interpretada por Ana de Armas (Blade Runner 2049, Blonde). Envolta em perfume e convicção, pretende transformar o refúgio em trono, planejando a construção de um hotel para turistas. Dois homens orbitam ao seu redor com devoção submissa; cada gesto e olhar da baronesa provoca tensão e fascínio. Ela é uma força disruptiva que mistura desejo, controle e vaidade, lembrando que até mesmo o isolamento de um novo Éden não escapa à complexidade humana. Sua presença interage com a rigidez de Friedrich e Dore, oscilando entre charme e conflito.
O calor cortante, os mares instáveis e as sombras densas acompanham cada passo dos personagens, fazendo da ilha um personagem à parte. A fusão de thriller de sobrevivência, drama psicológico e metáfora social sobre utopia e ego é fascinante, embora a balança nunca alcance equilíbrio absoluto — refletindo a própria tensão de Floreana, onde cada ação mede os limites entre o humano e o ilusório. O paraíso prometido é apenas uma ideia vendida em frascos de vidro reciclado. Toda tentativa de recomeço parte da crença em um “antes” limpo, intocado, onde o erro ainda não tinha nome. Mas o erro somos nós. É cômico e trágico ver como insistimos em buscar pureza num planeta que gira sobre podridão reciclada. O drama que se desenrola nas areias não se limita ao que os olhos veem; ele se prolonga naquilo que cada um deseja mostrar de si ao mundo.
Diariamente agimos como apóstolos da autenticidade que se fotografam à luz do pôr do sol, para postar nas redes sociais. Mas quando chega a introspecção, a promessa de redenção, transforma-se em reflexo ampliado de cada escolha e de cada falha – revelando fissuras, limites e fraturas que nos marcam. E isso é que observamos em Floreana.
Nietzsche tinha razão ao dizer que “quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar um deles”. O alerta atravessa épocas. Continuamos buscando atalhos para a perfeição, colecionando imagens editadas de vidas alheias, medindo virtude em curtidas, como se isso pudesse transformar o caos em ordem. Restam ecos, reflexos e a pergunta silenciosa que persiste: será que alguma vez escaparemos da nossa própria natureza?
*Laira Vieira é Critica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.




