Cena do filme “Ainda Estou Aqui”, que disputa o Oscar nesta noite nos Estados Unidos. (Reprodução)


Por ironia do destino, o Carnaval – “o maior espetáculo da Terra”, como os brasileiros definem a festa que é a marca da cultura e da identidade de um povo do terceiro maior país das Américas – vai disputar pela TV a audiência, o público e a torcida com o Oscar, o prêmio da indústria do cinema de Hollywood, que premia diversas categorias, incluindo filmes internacionais.

Depois de meses de grandes expectativas, a sorte será lançada às 21 horas deste domingo, quando a premiação começar em Los Angeles, Califórnia, com transmissão ao vivo para todo o mundo. No Brasil, os direitos pertencem à TV Globo, que, surpreendentemente, deixará de exibir o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro para apostar que o filme “Ainda Estou Aqui”, do cineasta Walter Salles, pode conquistar pelo menos um Oscar – o que seria o primeiro a ser concedido para o cinema brasileiro. O desfile das escolas será transmitido pela Globo apenas para o Rio de Janeiro.

“Ainda Estou Aqui”, com a atriz Fernanda Torres no papel principal, interpreta Eunice Paiva, viúva do ex-deputado Rubens Paiva, sequestrado e assassinado por militares durante a ditadura, que o consideravam um opositor esquerdista perigoso.

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O filme narra toda a história da família Paiva, de um crime nunca esclarecido e do corpo nunca encontrado do ex-deputado, além da impunidade judicial dos responsáveis pelo crime.

No Brasil, o filme de Walter Salles tem sido tema de reportagens, rodas de conversa e torcidas, além de uma trajetória de sucesso de público nos cinemas do país e exibições privilegiadas nas salas de cinema da Europa.

“Ainda Estou Aqui” chegou aos cinemas britânicos na sexta-feira, 21/02, acompanhado por uma série de resenhas positivas nos jornais locais, que elogiaram o filme – indicado ao Oscar de Melhor Filme e de Melhor Filme Estrangeiro – e a atuação de Fernanda Torres, indicada a Melhor Atriz.

O “The Independent”afirma que a atuação de Torres é “magistral” e que o filme “merece plenamente suas três indicações ao Oscar”. O jornal destacou a linguagem corporal de Torres: “Ombros altos, testa tensa e mandíbula ligeiramente projetada para a frente. Ela parece tão orgulhosa e elegante quanto um busto de mármore.”

Robbie Collin, crítico do “The Telegraph, também elogiou o desempenho “hipnotizante” de Fernanda Torres e diz que ela “pode muito bem acabar levando o prêmio de Melhor Atriz” neste domingo à noite.

O crítico Peter Bradshaw, do “The Guardian”, deu três estrelas (de cinco) ao filme, dizendo que “a sutileza e a dignidade do desempenho indicado ao Oscar de Fernanda Torres no novo filme de Walter Salles têm sido elogiadas com razão”. Bradshaw coloca Torres como o “centro sereno de uma história comovente”, mas afirma que o filme é “um tanto entorpecido e às vezes até estranhamente plácido”.

“Para mim, o filme – na sua lealdade ao autocontrole da própria Eunice – ignora o horror e a raiva que certamente também devem estar presentes em algum lugar desta história. Os créditos finais, nos contando brevemente a data em que Rubens foi assassinado, e também a data em que quatro agentes de segurança foram finalmente acusados, mas não condenados, são, retroativamente, desconcertantes. Há um mundo de drama e indignação nessas breves informações, mas isso nunca chega realmente ao filme”, conclui Bradshaw.

A resenha do “Irish Times”, da Irlanda, onde o filme também chegou aos cinemas, fez uma comparação curiosa de “Ainda Estou Aqui” com “Barbie”, dizendo que o filme pode se tornar um sucesso de bilheteria, “graças em grande parte ao interesse dos fãs de cinema brasileiros”, que lotaram as pré-estreias.

Outro jornal irlandês, “The Irish Independent”, descreve o longa como um “drama soberbo” que marca um avanço importante para o Brasil ao confrontar uma difícil página da história.

Caryn James, crítica de cinema da BBC, declarou que “Ainda Estou Aqui” é muito mais que um azarão na corrida do Oscar. “Agora parece ser o favorito na categoria Melhor Filme Estrangeiro, e Torres tem uma chance realista de vencer a favorita a Melhor Atriz, Demi Moore.”

“Por trás dessas três indicações ao Oscar está uma mistura alquímica do pessoal, do político e do artístico. Poucos filmes retrataram os efeitos devastadores da política sobre os indivíduos de uma forma tão íntima, visceral ou oportuna, chegando em um momento em que a ascensão do autoritarismo se tornou uma preocupação global”, analisa James.

O britânico “The Times” descreveu “Ainda Estou Aqui” como “um dos maiores filmes sobre maternidade”, comparando-o a clássicos como “Mildred Pierce” e “Room” (Quarto, em português). A crítica destaca a autenticidade do filme e a transformação de Eunice, interpretada por Torres, cuja busca incansável por justiça e fechamento ao longo de quatro décadas impulsiona a narrativa.

No também britânico “Financial Times”, o filme é destacado por sua “relevância contemporânea” ao tratar da ditadura militar. A crítica ressalta a resiliência de Eunice Paiva ao buscar respostas sobre o destino de seu marido, Rubens, e como o filme captura de forma pungente o sofrimento familiar e o poder opressor da ditadura.

Na França, o filme recebeu adjetivos como “cativante”, “fascinante”, “impressionante e político”. Os principais jornais franceses abordaram amplamente o longa de Walter Salles.
“Um ‘no pasarán’ brasileiro, diz o título da matéria do jornal “Le Figaro” sobre o filme, descrito como “um afresco histórico cativante que revisita as horas mais obscuras da ditadura militar do Brasil”. A crítica do diário relata o longa em dois tempos: um primeiro como “um mergulho no verão de uma família burguesa do Rio nos anos 1970” e o segundo, quando a vida dos Paiva é sacudida pela prisão e pelo desaparecimento do pai, Rubens, ex-deputado da esquerda, levando Eunice a se transformar “no rosto da resistência à ditadura brasileira.”

“Le Figaro” destaca que o retrato desta mulher, “luminosa e ardente”, tornou o filme um fenômeno, levando três milhões de espectadores aos cinemas no Brasil. A matéria ainda salienta que a interpretação de Fernanda Torres foi recompensada no Golden Globes, desbancando as favoritas Angelina Jolie e Nicole Kidman. “Quem sabe os Oscars se renderão ao charme desta ode brasileira à resistência?”, questiona.

O jornal “Libération” dedicou duas páginas à estreia de “Ainda Estou Aqui” nos cinemas franceses. Para a crítica do diário, a interpretação de Fernanda Torres é “fascinante”, e a atriz se supera utilizando “contenção e sutileza” contra “as armadilhas do melodrama”. A matéria afirma que a performance da atriz torna perceptível a angústia da situação e a necessidade de não colapsar em nome dos filhos e da esperança de reencontrar o marido.

O “Libération” também contextualiza o longa, explicando aos leitores franceses o que foi a ditadura militar brasileira após o golpe de 1964. Para o diário, “Ainda Estou Aqui” refresca a memória sobre os chamados “Anos de Chumbo”, o que irritou a extrema direita brasileira.

A correspondente do jornal em São Paulo, Chantal Rayes, escreve que a vitória de Fernanda Torres no Golden Globes suscitou a ira de ex-membros do governo de Jair Bolsonaro, como Mario Frias, ex-secretário da Cultura, que publicou na rede social X que a obra de Walter Salles “não é uma vitória do Brasil”, mas uma “autobajulação de militantes radicais da esquerda mundial”.

Para o jornal “La Croix”, o longa “elegante e romanesco” reconstitui uma época “obscura” por meio da reconstrução das memórias da família Paiva. O diretor de “Central do Brasil” e “Diários de Motocicleta” aborda, por meio de um relato íntimo, “o vazio da ausência” e “as esperanças despedaçadas de um país inteiro pela falta de reconhecimento da responsabilidade da ditadura militar”.

“Um grande filme impressionante e político”, avalia o jornal “Les Echos”. Para o diário, o fato de Walter Salles ter frequentado a casa dos Paiva durante sua adolescência e conhecido a intimidade dessa família explica a precisão do longa, “uma viagem pelas memórias feridas de um Brasil que ainda não acertou as contas com o passado”.

A crítica publicada pelo jornal “Le Monde”, cuja falta de entusiasmo em relação a “Ainda Estou Aqui” viralizou nas redes sociais brasileiras, retraça brevemente a carreira de Walter Salles e descreve o filme em dois atos principais, com o segundo focado no sofrimento “indescritível” e na resiliência de Eunice Paiva. Entretanto, para o jornalista francês Jacques Mandelbaum, o “foco melodramático” na figura desta mãe de família relega os outros personagens ao segundo plano, abordando “de forma leve (…) o mecanismo totalitário”.

Mesmo destacando o prêmio de melhor interpretação feminina no Globo de Ouro para Fernanda Torres, Mandelbaum afirma que sua atuação é “um tanto monótona”. Ele compara o trabalho da atriz ao de Clara, vivida por Sônia Braga em “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, e critica o que considera uma “representação muito hierática do sofrimento e do sacrifício de si mesma”.

Na Espanha, o jornal “El País” afirmou que “Ainda Estou Aqui” é “um fenômeno cinematográfico brasileiro que revive nos cinemas o trauma da ditadura”.

Nos Estados Unidos, Wesley Morris, crítico de um dos jornais mais prestigiados do país, o “The New York Times, não foi favorável ao filme. Para ele, que aparenta não ter conhecimento sobre a ditadura militar no Brasil, o longa de Walter Salles é um “melodrama sem açúcar”.

Sobre o livro

Esta é a resenha que a Editora Alfaguara faz do livro “Ainda Estou Aqui”:
Verão de 1971. Eunice Paiva, recentemente liberada de um período de prisão e interrogatório de doze dias no DOI-Codi, no Rio de Janeiro, passa uma curta temporada com amigos em Búzios. Segundo Antonio Callado, ela respirava aliviada; o próprio ministro da Justiça havia lhe garantido que seu marido, Rubens Beyrodt Paiva, “já tinha sido interrogado, passava bem e dentro de uns dois dias estaria de volta a sua casa”. Rubens Paiva, no entanto, capturado por homens da Aeronáutica em 20 janeiro de 1971, foi t0rturado, morto e seu corpo nunca mais foi encontrado. “A cara de Eunice”, escreve Callado, “continuou molhada e salgada durante muito tempo, tal como naquela manhã de Búzios. A água é que não era mais do mar.”

Neste livro, Marcelo Rubens Paiva faz um retrato emocionante de Eunice, sua mãe, e pela primeira vez traça uma história dramática do que ocorreu — e do que pode ter ocorrido — com Rubens Paiva. “Meu pai, um dos homens mais simpáticos e risonhos que Callado conheceu, morria por decreto, graças à Lei dos Desaparecidos, vinte e cinco anos depois de ter morrido por t0rtura”, narra ele, neste livro magistral. Eunice “ergueu o atestado de óbito para a imprensa, como um troféu. Foi naquele momento que descobri: ali estava a verdadeira heroína da família; sobre ela que nós, escritores, deveríamos escrever”.

Capa do livro “Ainda Estou Aqui”, escrito por Marcelo Rubens Paiva. (Foto divulgação)

Quem foi Eunice Paiva

No site “Memórias da Ditadura”, verbete “Biografias de Resistência”, assim esta descrita a vida de Eunice Paiva:

“Símbolo da luta contra a ditadura militar, Eunice Paiva teve papel central na busca por informações sobre o paradeiro de seu marido, o deputado Rubens Paiva, desaparecido político depois de ter sido preso, torturado e assassinado nos porões do DOI-CODI no Rio de Janeiro em janeiro de 1971.

Na mesma ocasião, Eunice foi presa junto com a filha Eliana, então com 15 anos, e levada também às dependências do DOI-CODI carioca. Eliana permaneceu presa por 24 horas no local, Eunice por 12 dias, sendo interrogada. Após a libertação, passou a exigir a verdade sobre o marido, e com a informação de que ele havia sido assassinado, reivindicou o reconhecimento de sua morte e a revelação de onde o corpo estaria enterrado (o que jamais descobriu), para que lhe pudesse prestar as honrarias fúnebres.

Eunice cresceu no bairro do Brás, em São Paulo, em uma família de origem italiana. Desde cedo, cultivou o gosto pela leitura. Culta, brigou com o pai pelo direito de estudar e passou em primeiro lugar no vestibular para Letras na tradicional universidade Mackenzie, aos 18 anos. Foi amiga de grandes escritores, como Lygia Fagundes Telles, Antonio Callado e Haroldo de Campos.

Depois da viuvez, em 1973, ingressou na faculdade de Direito. Conciliava a vida de mãe e de pai de cinco filhos com a rotina estudantil. Tornou-se advogada respeitada e se engajou em lutas sociais e políticas. Eunice combateu a política indigenista do regime até o final da ditadura, e tornou-se uma das poucas especialistas em direito indígena do país.

Em 1987, ao lado de outros parceiros, fundou o Instituto de Antropologia e Meio Ambiente (IAMA), ONG que atuou até 2001 na defesa e autonomia dos povos indígenas. Em 1988, foi consultora da Assembleia Nacional Constituinte, que promulgou a Constituição Federal Brasileira.

Foi uma das principais forças de pressão que culminou com a promulgação da Lei 9.140/95, que reconhece como mortas as pessoas desaparecidas em razão de participação em atividades políticas durante a ditadura militar. Em 1996, após 25 anos de luta por memória, verdade e justiça, Eunice conseguiu que o Estado brasileiro emitisse oficialmente o atestado de óbito de Rubens Paiva.

Faleceu aos 86 anos, no dia 13 de dezembro de 2018, em São Paulo. Ela convivia há 14 anos com Alzheimer.”

Eunice Paiva nos últimos anos de sua vida. (Álbum de Família)

Quem foi Rubens Paiva

Rubens Beyrodt Paiva nasceu em 26 de setembro de 1929, no município de Santos, no estado de São Paulo. Formou-se em engenharia civil pela Universidade Mackenzie, na capital paulista.


Foi empresário e político brasileiro, eleito em outubro de 1962 deputado federal por São Paulo, pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), mesma legenda do então presidente da República João Goulart. Como vice-líder do PTB na Câmara dos Deputados, atuou como vice-presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), instalada para apurar as denúncias contra as atividades do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), que em 1963 foram acusados de receber recursos internacionais com a finalidade de desestabilizar o governo Goulart.

O deputado federal foi cassado logo após o golpe militar, através do primeiro Ato Institucional, de 9 de abril de 1964. Exilou-se na Embaixada da Iugoslávia, no Rio de Janeiro e, em junho de 1964, deixou o Brasil partindo para a França e depois para a Inglaterra. Retornou ao Brasil no início de 1965, instalando-se com a família inicialmente em São Paulo, e, em seguida, no Rio de Janeiro. Na madrugada de 20 de janeiro de 1971, após a detenção de Cecília de Barros Correia Viveiros de Castro e Marilene de Lima Corona por agentes do Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), no aeroporto do Galeão, foram encontradas cartas de militantes políticos exilados no Chile.


Tendo em vista que Rubens Paiva era um dos destinatários das cartas, no mesmo dia seis agentes armados com metralhadoras invadiram a casa do deputado cassado. Rubens Paiva foi levado em seu carro para prestar depoimento no Quartel da 3ª Zona Aérea, à época comandada pelo tenente-brigadeiro João Paulo Moreira Burnier. Desde seu sequestro, já foram iniciadas as torturas. No mesmo dia 20 de janeiro, Rubens Paiva, Cecília de Barros Correia Viveiros de Castro e Marilene de Lima Corona foram conduzidos para o DOI-CODI do I Exército (RJ).

Os familiares do deputado permaneceram incomunicáveis, detidos em sua casa durante todo o dia. No dia seguinte, Eunice Paiva e sua filha Eliane, então com 15 anos, foram também levadas ao DOI. Apesar da confirmação dos agentes do DOI de que Rubens Paiva estava detido lá, Eunice e a filha não estiveram com ele. Após diversas sessões de interrogatório, Eliane foi libertada no dia 23, enquanto Eunice permaneceu detida até o dia 2 de fevereiro, ocasião em que viu o carro do marido, um Opel Kadett, no pátio interno do quartel. Apesar da família ter levado roupas para Rubens Paiva no Ministério do Exército, no Rio de Janeiro, os agentes recusaram o recebimento sob o pretexto de Rubens Paiva não se encontrar em nenhuma organização militar do I Exército.

Em documentos oficiais fica atestada a entrada de Rubens Paiva no DOI, em 20 de janeiro de 1971, encaminhado pelo Quartel da 3ª Zona Aérea, pela equipe do CISA, além da descrição de documentos pessoais. Diversos testemunhos e documentação analisada pela Comissão Nacional da Verdade comprovam a permanência de Rubens Paiva no DOI-CODI do I Exército, onde foi torturado e executado.(texto compilado do Memorial da Resistência).

Foto de Rubens Paiva ainda jovem, que foi engenheiro e político.

Caso Rubens Paiva volta a ser discutido no STF

Na segunda-feira 24 de fevereiro, o caso de Rubens Paiva voltou a ganhar destaque, quando militantes do coletivo Levante da Juventude protestaram em frente à casa do general reformado José Antônio Nogueira Belham, na zona sul do Rio de Janeiro.
Ele é um dos acusados, que ainda está vivo, de envolvimento na morte de Paiva, denunciado por homicídio e ocultação de cadáver, mas nunca foi julgado.

Paiva foi preso por agentes do regime em janeiro de 1971 e levado ao Destacamento de Operações de Informações do Exército, no bairro da Tijuca. Segundo a denúncia do Ministério Público Federal, ele morreu sob custódia militar. O reconhecimento oficial da morte só ocorreu décadas depois, com os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, criada em 2012, para apurar crimes da ditadura.
Mesmo com as investigações, os acusados seguem sem condenação. Além de José Antônio Nogueira Belham, os militares Rubens Paim Sampaio, Raymundo Ronaldo Campos, Jurandyr Ochsendorf e Jacy Ochsendorf são acusados de envolvimento na morte de Paiva nas dependências do DOI-Codi na capital fluminense.
Porém, devido à demora no julgamento do processo, três deles já morreram.
A maior parte das informações sobre os militares denunciados se restringe a documentos até 2014, sem registros oficiais sobre o falecimento de três deles.
O Supremo Tribunal Federal (STF) vai analisar se a Lei da Anistia se aplica aos crimes de sequestro e cárcere privado cometidos durante a ditadura militar. A repercussão geral da matéria foi reconhecida pelo Plenário Virtual da Corte em processos que apuram as circunstâncias da morte do ex-deputado Rubens Paiva e de outros dois opositores ao regime em vigor entre 1964 e 1985.

São três os processos que motivam o debate no Tribunal: o Recurso Extraordinário com Agravo (ARE) 1316562 e o Recurso Extraordinário (RE) 881748, que tratam do desaparecimento forçado de Paiva e do jornalista Mário Alves, cujos corpos nunca foram encontrados; e o ARE 1058822, que diz respeito ao assassinato do militante Helber Goulart, da Ação Libertadora Nacional (ANL). Nos três casos, o Ministério Público Federal (MPF) questiona decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), que entenderam que os crimes estavam abrangidos pela Lei da Anistia e encerraram as ações penais contra os acusados.

Em fevereiro, o STF decidiu discutir se a Lei da Anistia abrange crimes permanentes que até hoje estejam sem solução, como os de ocultação de cadáver (ARE) 1501674. Agora, ao reconhecer a repercussão geral desses três novos casos, sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, a Corte amplia o debate para crimes com “grave violação de direitos humanos”, conforme proposta do MPF. Para o órgão, sequestro e cárcere privado também têm natureza permanente e não devem ser atingidos pela Lei da Anistia. A tese a ser fixada pelo STF no julgamento do mérito deverá ser seguida pelas demais instâncias do Judiciário.

A Lei da Anistia (Lei 6.683/1979) perdoou os crimes políticos e conexos cometidos apenas entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979. Em 2010, o STF validou a norma com base na Constituição de 1988, no julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 153.

Em sua manifestação, seguida por unanimidade, o ministro Alexandre explicou que o julgamento da ADPF 153 não esclareceu sua aplicação a crimes permanentes. Ele também destacou que a responsabilização do Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) por omissão nos crimes de Estado durante a ditadura demonstra a necessidade de uma nova discussão sobre o assunto no país, tendo como base uma “ordem constitucional que preza de modo intransigente pelo respeito aos direitos humanos”.

De acordo com o ministro, os processos em tramitação sobre Paiva e os outros dois opositores da ditadura são uma oportunidade de o STF tratar do assunto com base em novos elementos. “Os presentes casos tangenciam matéria de grande relevância para a pauta dos direitos humanos, permitindo que agora o STF avalie a questão a partir da perspectiva de casos concretos, com diferentes nuances”, afirmou.