Na entrevista que deu ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial , nesta sexta-feira (14), a jornalista, escritora e diretora Melina Guterres não economizou palavras ao falar sobre o papel da arte em tempos de crise.
“A gente às vezes se sente impotente, mas a arte é um jeito de provocar, de abrir espaço. Quero continuar incomodando”, disse ela, com a firmeza de quem transforma inquietações em obra.
Autora do livro de poemas “Engasgos” e diretora do curta-metragem “Despertos”, Melina mergulha nas tensões políticas, sociais e ambientais do Brasil contemporâneo com uma linguagem que transita entre o jornalismo, a literatura e o audiovisual. “O Brasil ainda não conseguiu dizer em voz alta muita coisa. Eu tento escrever isso”, afirmou.
Engasgos: poesia como desabafo coletivo
Publicado em 2023, “Engasgos” é, segundo a autora, “um grito”. Os poemas abordam temas como racismo, violência contra a mulher, questões indígenas e os embates políticos que marcaram os últimos anos. “Quando as hashtags sobre assédio e abuso explodiram, muita coisa veio à tona. As mulheres encontraram voz, encontraram umas às outras. A terceira parte do livro é filha direta disso”, contou.
A obra reúne vozes que dialogam com sua escrita, como Taisinho Onimate, que assina o prefácio, e Rose Brasil, responsável pela contracapa. Há também textos de Maria Rita e João do Corujão. “São mulheres e homens que já tratam dos mesmos temas que eu, que vivem e lutam por isso. Me sinto honrada de tê-los ali.”
O impacto do livro vai além das páginas. “Uma leitora me escreveu contando a história inteira da vida depois que leu. Acho que quem se inquieta com essas questões se identifica.”
Despertos: utopia verde e crítica social
No curta “Despertos”, Melina leva o público a um planeta morto, onde crianças sobreviventes buscam uma utopia verde. O filme, protagonizado por atores mirins, trata de sustentabilidade, imaginação e questões sociais. “Tem um personagem que sofre bullying por brincar com uma boneca. Por que meninos não podem brincar com boneca? Por que essa divisão tão rígida?”, questiona.
A produção exigiu estrutura e cuidado: autorizações judiciais, preparadora infantil no set e muita paciência. “Foi intenso, mas muito bonito. Elas se entregaram.” A diretora planeja transformar o curta em série e levá-lo para escolas e debates sobre sustentabilidade. “É um projeto que queremos desenvolver ao longo de 2026.”
O Brasil que atravessa a obra
Melina não se esquiva das questões políticas. Alguns poemas de “Engasgos” dialogam com momentos-chave das últimas eleições, a prisão e posse do presidente Lula. Ao ser perguntada sobre ter enviado o livro à primeira-dama Janja da Silva, respondeu: “Ela representa uma força política importante, muitas vezes injustiçada. Mulheres em cargos de poder precisam provar mil vezes mais. Sofrem preconceito constantemente.”
Boate Kiss: memória e justiça
A entrevista também revisitou a tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria, cidade onde Melina vive e iniciou sua carreira jornalística. Ao lado de Germano Oliveira, ela cobriu o caso que matou 242 pessoas. “A lista de indiciados começou com mais de 30 nomes. Foi diminuindo, diminuindo… e hoje vemos essa alternância entre prisões e solturas. É um caso muito mais complexo do que o que está na justiça agora.”
Arte como política pública
Melina defende que a arte seja reconhecida como profissão e direito. Citou o exemplo da Irlanda, que passou a remunerar artistas mensalmente. “No Brasil, ainda há preconceito. Como se arte fosse hobby. Não é. É trabalho, é profissão. Precisamos de políticas públicas que deem dignidade.”
O que vem pela frente
Com novos livros de poemas e crônicas em preparação, além da expansão de “Despertos”, Melina segue movida pelo desejo de provocar reflexão. “A arte é uma forma de reconstrução. Quero continuar incomodando.”
“Engasgos” está disponível no site da Editora Bestiário, e informações sobre seus projetos podem ser encontradas na Rede Cinema. Ao final da entrevista, os apresentadores Germano Oliveira e Camila Srougi resumiram o impacto da obra: “Melina abre portas para tudo o que o Brasil ainda não conseguiu dizer.”
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Conheça Melina Guterres

Melina Guterres é jornalista, escritora e produtora cultural gaúcha, nascida em Santa Maria (RS), conhecida por sua atuação em produção cultural, literatura, cinema, poesia e projetos de comunicação voltados para causas sociais.
- Formação: Graduada em Jornalismo pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA) em 2007.
- Carreira: Trabalhou em jornal, revista, rádio, TV e assessoria de imprensa, além de manter blogs e publicações independentes.
Produção Literária e Cultural
- Participou de antologias e coletâneas de poesia e artigos.
- Teve a poesia “A sorte de um final tranquilo” publicada no livro Juventudes: Outros Olhares sobre a diversidade da UNESCO.
Rede Sina
- Criadora da Rede Sina, uma plataforma digital lançada em 2015 que promove conteúdo autoral e debates sobre cultura, economia criativa e causas sociais Rede Sina.
- A Rede Sina se consolidou como espaço de entrevistas, artigos e programas ao vivo, especialmente durante a pandemia, ampliando vozes diversas e defendendo a comunicação como ferramenta de transformação social Rede Sina.
- Melina também é conhecida pelo pseudônimo “Mel Inquieta”, usado em seus projetos culturais e digitais Rede Sina.
Reconhecimento
- Publicações em revistas como IstoÉ e em portais culturais.
- É considerada uma voz importante da literatura e jornalismo gaúcho contemporâneo, com forte engajamento em temas sociais e culturais.

