O ministro Édson Fachin, que assumirá a presidência do STF nesta segunda-feira. (Foto: STF)


Em meio a uma conjuntura marcada por polarização política, ataques às instituições democráticas e desgaste da confiança pública no Judiciário, o ministro Luiz Edson Fachin será empossado nesta segunda-feira (29) como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). A cerimônia, marcada para o início da tarde, contará com a presença de autoridades dos três Poderes, mas será deliberadamente sóbria: sem festa, sem coquetel, apenas café e água — um gesto que traduz o estilo discreto e técnico que Fachin pretende imprimir à sua gestão.

A posse ocorre em um momento delicado. O STF está no centro de julgamentos de alta sensibilidade política e social, como os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, a tentativa de golpe atribuída ao ex-presidente Jair Bolsonaro, e a discussão sobre uma eventual lei de anistia para condenados por crimes contra a democracia.
Fachin também assume o comando do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão responsável pela fiscalização administrativa do Judiciário, ampliando seu papel institucional.

Um estilo que recusa o protagonismo

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Desde junho, quando completou dez anos no STF, Fachin tem reiterado um mantra que resume sua visão institucional: “Ao direito o que é do direito, à política o que é da política.” A frase, repetida em conferências e discursos, expressa sua defesa da autocontenção judicial — uma postura que busca limitar o ativismo do Supremo e evitar que a Corte substitua o debate político legítimo.

Em agosto, durante conferência na Fundação Fernando Henrique Cardoso, Fachin afirmou que “cabe à política lidar com valores e ideologias em disputa” e que “o direito deve resistir à tentação de preferir uma delas.”

Para ele, o STF deve se manter fiel à legalidade, proteger os direitos fundamentais e abrir caminhos para a inclusão de grupos minoritários, ainda sub-representados na esfera pública.

Herança institucional e desafios

Fachin sucede Luís Roberto Barroso e terá como vice-presidente o ministro Alexandre de Moraes, com quem já dividiu a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante as eleições de 2022.

A dupla terá de conduzir o STF por um período em que se acumulam temas de grande impacto:

  • Julgamentos da trama golpista de 2022: Fachin assume enquanto a Primeira Turma do STF julga os réus da chamada “trama golpista”, que já condenou o ex-presidente Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão. Mais 23 réus serão julgados nos próximos meses.
  • Debate sobre anistia: Caso avance no Congresso, a proposta de anistia ou redução de penas poderá ser questionada no STF. Fachin terá de conduzir o tribunal diante de um tema que divide juristas e políticos.
  • “Uberização” do trabalho: A regulamentação das relações laborais por aplicativos será pauta relevante, com impacto direto sobre milhões de trabalhadores informais.
  • Emendas parlamentares de relator: A transparência e constitucionalidade desse mecanismo, que tem sido criticado por sua opacidade, também estarão sob análise da Corte.⁠

Um Supremo em rede

Fachin tem defendido uma visão ampliada da institucionalidade. Em conferência recente, afirmou que há um “quarto ramo informal” na divisão de Poderes, composto por instituições como o Ministério Público, Tribunais de Contas, Controladoria-Geral da União, CNJ e agências reguladoras. Segundo ele, “a complexidade da sociedade brasileira — marcada por desigualdade, diversidade regional e pluralismo social — exige uma democracia em rede, na qual o STF não decide sozinho, mas se ancora em uma malha de instituições fiscalizadoras e deliberativas.”

Essa concepção reforça a ideia de que o Supremo deve atuar como garantidor da legalidade, mas sem monopolizar o debate público. Fachin parece querer devolver à política o protagonismo que lhe é devido, sem abrir mão da defesa da Constituição e dos direitos fundamentais.

Entre a contenção e a firmeza

Embora discreto, Fachin não é indiferente aos ataques que o STF tem sofrido. Ele já foi alvo de bolsonaristas e teve seu visto suspenso por decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ainda assim, insiste que o tribunal deve resistir à tentação de se tornar um “satélite da polarização que hoje assola o mundo.”

A expectativa é que sua gestão consiga equilibrar firmeza institucional com moderação política.

Fachin com seu vice no STF, Alexandre de Moraes. (Foto: STF)

Quem é Luiz Edson Fachin

Conhecido por seu perfil técnico e por ter sido o relator de casos cruciais da Operação Lava Jato, o ministro Luiz Edson Fachin ascende à presidência do Supremo Tribunal Federal (STF). Sua trajetória, marcada pela academia e pela advocacia, reflete a discrição e a firmeza que caracterizam sua atuação no mais alto tribunal do país.

Nascido em 8 de fevereiro de 1958, em Rondinha (RS), Fachin construiu uma sólida carreira no Direito. Formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1980, ele se aprofundou na área com mestrado e doutorado pela PUC-SP, consolidando-se como um dos mais respeitados juristas do Brasil. Sua experiência acadêmica, com anos de docência na UFPR, moldou sua visão rigorosa sobre a aplicação da lei, que ele sempre defendeu ser uma ciência, não uma ideologia.

Antes de chegar ao STF, Fachin trilhou um longo caminho na advocacia e na Procuradoria do Estado do Paraná. Sua atuação em casos de direito de família e agrário lhe conferiu um conhecimento profundo sobre as complexas relações sociais do país.

Em 2015, sua indicação pela ex-presidente Dilma Rousseff para o STF foi recebida com a expectativa de que ele trouxesse um olhar acadêmico e técnico para a Corte. Sua sabatina no Senado Federal durou quase 11 horas, revelando sua capacidade de defender seus pontos de vista de forma detalhada e precisa.

Como ministro, Fachin se tornou figura central em julgamentos de grande impacto. Sua relatoria na Operação Lava Jato o colocou no centro do debate nacional, sendo responsável por decisões que levaram à condenação e à absolvição de políticos e empresários de destaque.

Além de sua atuação no Supremo, ele teve um papel decisivo à frente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2022. Sua presidência, embora breve, foi marcada pela defesa incisiva das urnas eletrônicas e da integridade do processo eleitoral, em um período de intensa polarização.

Agora, à frente do STF, Fachin assume com o desafio de pacificar a relação entre os Três Poderes. Sua visão, resumida no lema “Ao direito o que é do direito, à política o que é da política,” indica um caminho de autocontenção judicial e de retorno da Corte ao seu papel de guardiã da Constituição, sem ocupar o centro do palco político. Ao lado de seu vice, o ministro Alexandre de Moraes, Fachin terá a missão de conduzir a Corte em um período de temas delicados, como a discussão sobre anistia e os julgamentos dos atos golpistas.

Foto da época que Édson Fachin era professor e participava de eventos jurídicos. (Acervo pessoal)

A visão do mundo, segundo o novo presidente do STF

Eis aqui algumas frases famosas e ideias centrais do ministro Edson Fachin:

“Ao direito o que é do direito, à política o que é da política.”

Essa é, sem dúvida, a frase mais conhecida de Fachin. Ela resume sua visão de que o Poder Judiciário deve atuar com autocontenção, sem invadir a esfera de competência do Poder Legislativo e do Executivo. É uma defesa contra o que ele considera um “ativismo judicial excessivo”.

“É preciso que a democracia em rede seja uma democracia pluralista, inclusiva e que dê voz a quem não a tem.”

Essa frase reflete sua preocupação com a inclusão social e com o papel do Judiciário como protetor de grupos minoritários ou historicamente marginalizados. Ele acredita que a democracia deve ser mais do que apenas a representação da maioria, mas sim um sistema que garanta os direitos de todos.

“O Judiciário não pode ser um satélite da polarização que hoje assola o mundo.”

Dita em um contexto de forte polarização política no Brasil e no exterior, essa afirmação mostra seu compromisso em manter a independência e a imparcialidade do STF. Para Fachin, o tribunal deve ser um farol de legalidade, e não um instrumento de disputa ideológica.

“Os direitos fundamentais são o oxigênio da Constituição.”

Uma metáfora que ele usa para enfatizar a importância dos direitos humanos e civis. Segundo Fachin, a Constituição não sobrevive sem a proteção desses direitos, que são a sua essência. Ele costuma recorrer a essa ideia para justificar decisões que ampliam a proteção a liberdades individuais e sociais.

“É preciso reconhecer que, no Brasil, a luta por terra é uma luta pela dignidade.”

Essa frase demonstra seu histórico e sua sensibilidade para a questão agrária no país, um tema sobre o qual ele escreveu extensivamente e que foi central em sua trajetória acadêmica. Ela evidencia seu olhar para a dimensão social de questões jurídicas.