Equipe de fiscal faz apreensão de bebidas falsas em Curitiba. (Foto: Ag. Gov)


No Brasil, uma garrafa de uísque pode conter mais do que apenas álcool. Pode esconder riscos à saúde, esquemas criminosos e uma rede de falsificação que se expande silenciosamente. Em um país onde o consumo de destilados cresce, a adulteração de bebidas se tornou um negócio lucrativo — e perigoso.

Segundo estudo da Euromonitor International, uma em cada cinco garrafas de uísque ou vodca vendidas no país é falsificada. A Associação Brasileira de Combate à Falsificação revela que o número de fábricas clandestinas fechadas saltou de 12, em 2020, para 80 no último ano. O que antes parecia pontual, agora revela uma estrutura organizada, com ramificações que vão do interior paulista às grandes capitais.

As fábricas variam de garagens improvisadas a galpões com máquinas de envase. Em comum, a ausência de qualquer padrão sanitário. Tonéis plásticos reaproveitados — e possivelmente contaminados — são usados para misturar líquidos de origem desconhecida. Em Americana (SP), a polícia encontrou uma máquina de seis bicos instalada sobre a pia de uma cozinha. “Era uma fábrica bem estruturada, que abastecia o comércio local e também a capital”, afirma o delegado Wagner Carrasco, do Deic.

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Em São Paulo, mais de 4.500 garrafas adulteradas foram apreendidas em menos de uma semana. A adulteração ocorre de três formas: falsificação (imitação com insumos de baixa qualidade), diluição (mistura de produtos legítimos com substâncias para aumentar o volume) e produção irregular (sem registro ou inspeção sanitária). O uso de metanol — substância tóxica e sem limite seguro de ingestão — é raro, mas não descartado. “Dez mililitros já seriam suficientes para causar danos graves”, alerta Harley Martins, presidente do Conselho Regional de Química do Rio de Janeiro.

O elo frágil: a garrafa

A reutilização de garrafas originais é peça-chave no esquema. Estabelecimentos vendem cascos vazios, e há até anúncios em redes sociais. Na última sexta-feira, a Polícia Civil prendeu Ilson do Amor Divino, de 50 anos, suspeito de fornecer insumos para falsificação em larga escala: garrafas, tampas, rótulos, caixas e até selos falsos de IPI. Estima-se que ele manipulava mais de 10 mil garrafas por mês, repassadas a fábricas clandestinas no interior paulista.

Essas bebidas, uma vez envasadas, retornam ao mercado formal por meio de atravessadores que negociam sem nota fiscal e por preços abaixo do mercado. “A identificação desses intermediários é essencial para rastrear a origem do metanol”, afirma a delegada Fabíola Alves, da Polícia de Proteção à Cidadania.

Em Campo Limpo, zona sul da capital, dois irmãos são investigados por substituir o conteúdo de garrafas por líquidos artesanais ou de baixo custo, usando tampas e lacres falsificados. O foco eram marcas importadas, vendidas como originais. A polícia apreendeu 1.800 lacres e tampas, além de garrafas vazias.

O papel dos bares e restaurantes

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) recomenda que os estabelecimentos inutilizem as garrafas após o consumo, quebrando lacres ou descartando sem tampas. “Falsificar a garrafa é caro; por isso os criminosos preferem usar originais já consumidas”, explica Gabriel Pinheiro, presidente da entidade.

Um empresário da zona leste, que pediu anonimato, relatou ter sido abordado diversas vezes por compradores de garrafas vazias. Os valores variam entre R$ 10 e R$ 20 por unidade, pagos a catadores de lixo.

O Bar Torres, na Mooca, foi interditado por não apresentar documentos de origem de parte das bebidas. Em nota, o estabelecimento alegou comprar de distribuidores oficiais e colaborar com as autoridades. Para o empresário André Silveira, do Grupo Hungry, diferenças superiores a 10% nos preços entre fornecedores devem acender o alerta. “Uma garrafa de uísque de R$ 80 não pode ser vendida por R$ 57. Algo está errado.”

Uma crise invisível

A proliferação de bebidas falsificadas no Brasil não é apenas uma questão de mercado informal. É uma ameaça concreta à saúde pública, à segurança do consumidor e à integridade das cadeias produtivas. A resposta exige articulação entre autoridades sanitárias, forças policiais, setor privado e sociedade civil. Enquanto isso, cada garrafa consumida sem origem comprovada pode esconder um risco invisível — e potencialmente fatal.