Laira Vieira*
Há famílias que não passam apenas sobrenomes, passam feridas. O filme Frankenstein (2025), dirigido por Guillermo del Toro (A Forma da Água, Pinóquio), é um tratado gótico sobre o verdadeiro ponto zero de todos os nossos problemas: a criação e o ciclo vicioso do trauma geracional. O diretor observa a questão como quem folheia o álbum de família da humanidade — um retrato coletivo em que todos tentam posar bem, mesmo cobertos por rachaduras antigas. O horror aqui não vem do sobrenatural, mas do que se repete: os gestos copiados, as culpas recicladas, o amor aprendido de forma invertida.
O palco inicial é o mais frio dos refúgios. Nos confins do Ártico, Victor Frankenstein, interpretado por Oscar Isaac (Cavaleiro da Lua, Duna), se refugia em um navio preso no gelo, assombrado pela própria história que ele se recusa a encarar. Filho de um pai que media carinho em resultados e de uma mãe que morreu cedo demais, o jovem cientista cresceu imbuído da crença tóxica de que o aval paterno é um prêmio de desempenho. Suas vestimentas refletem esse desequilíbrio fatal: austeridade de cientista costurada com a vaidade de um rockstar vitoriano, como se o ego tivesse alfaiate próprio, sempre disposto a vestir a falha de glória. Seu irmão, William, vivido por Felix Kammerer (Nada de Novo no Front, Éden), não é apenas o favorito do pai, mas a régua invisível de aceitação que o persegue desde o berço: a sombra da insuficiência.
E é do orgulho ferido que nasce a criação — o ser composto de sobras, com o intelecto em estágio de ensaio, encarnado por Jacob Elordi (Saltburn, Priscilla). A criatura é o fruto de um erro genético emocional disfarçado de idealismo científico. O cineasta é perspicaz ao reduzir a maquiagem ao mínimo, fazendo o ator a usar seu corpo como instrumento de linguagem e brilhantismo puro. Cada gesto do ser é uma súplica por reconhecimento, cada respiração, um ensaio de civilidade.
A trilha sonora permeia a obra com um toque de cinismo de mestre, ironizando o abismo: toca leve e animada enquanto o cientista corta corpos no laboratório, como se a própria música achasse graça da insanidade. É o humor macabro de del Toro, em sua forma mais refinada — a psicopatia filmada com a elegância seca e fria da estética gótica. Essa busca por criar o homem perfeito é refletida perversamente na nossa própria era, onde a performance digital e a “produtividade tóxica” se tornaram a nova alquimia para tentar forjar reconhecimento. Assim como o protagonista, a sociedade moderna confunde o ser com o ter resultados.
A trama ganha camadas de podridão capitalista com Christoph Waltz (Bastardos Inglórios, Django Livre), que aparece como o investidor Henrich Harlander. Ele oferece a Victor tudo o que um filho negligenciado confunde com amor legítimo: reconhecimento, glória, patrocínio ilimitado. Um catalisador, o arquiteto do mundo corporativo que sabe como explorar a ferida narcisista. E o mestre mexicano, fiel ao desconforto, ilumina essa aliança à luz intensa do sol e do fogo; transformando cada cena em um quadro febril que cheira a éter e delírios.

No meio desse caos de vaidades, ganância e ambições mal resolvidas, surge Elizabeth Lavenza, vivida por Mia Goth (Pearl, X), noiva de William e sobrinha de Harlander. Sua presença é o que resta de candura possível. Vestida em trajes que remetem a insetos, ela é a criatura que optou por tolerar a dor em vez de combatê-la. Seu fascínio pela fragilidade surge como o contraponto que revela o erro categórico do médico: enquanto ele, com a arrogância de um deus menor, busca a vida do zero, ela, com a humildade de uma mera humana, tenta compreendê-la. O cientista a via como a substituta redentora da afeição materna perdida.
Ironicamente, o amor que ele tanto almejava, manifesta-se no humor mais ácido e fatal. Ao se deparar com a criação, Elizabeth desvia a candura para o abusado; e em um momento de clareza brutal, ela rotula Victor como o verdadeiro monstro. Quando a criatura não consegue aprender no ritmo esperado, seu criador explode em uma fúria familiar — não é apenas a frustração com o “filho”, mas o colapso final do último laço maternal e redentor que ele possuía, destruído pela gentileza que ele não recebeu.
O surto psicótico que se segue é a confissão que o protagonista não consegue verbalizar: ele deseja um espelho polido de sua própria ilusão doentia. A própria criação se ergue, então, como uma heresia silenciosa contra o médico. O ser rejeitado e tratado como uma falha de laboratório aprende a gramática da crueldade. Ele descobre o que é ser humano não por ensinamento direto, mas pelo contraste ácido da dor. Seu intelecto, germinando no solo da rejeição, só se articula de verdade quando é tratado com empatia. Essa virada é capturada com uma delicadeza que chega a ser cruel, mostrando que a inteligência e a compaixão brotam do mesmo lugar: o reconhecimento mútuo. A criatura, assim, se torna o reflexo mais honesto de seu mentor: um ser feito de sobras emocionais, educado pela violência.
A própria criação se ergue como testemunha contra o médico, provando que a ferida herdada não é uma sentença de repetição, mas o convite irônico à uma escolha moral. Cada gesto de cuidado que ele recebe é uma pequena e silenciosa revolução, rasgando o manual de ciclo de traumas que lhe foi entregue. O mundo permanece cruel, mas a empatia, forjada nas cinzas da rejeição, surge como a arma mais silenciosa e redentora.
O poeta Lord Byron, mestre na arte de sobreviver à própria reputação, escreveu: “E assim o coração se partirá, e ainda assim, partido, continuará a viver.” Não há redenção grandiosa para o cientista, nem perdão espetacular para a sociedade. Restam apenas as cicatrizes, troféu amargo do marginalizado que ousou escolher a empatia ao invés da repetição mecânica do erro. O preço da consciência é a dor de saber o que não se pode mais repetir; é a sentença de transcender o ciclo.
*Laira Vieira é Critica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.




