Adam Jordan*

A herança da exclusão
Desde o início da colonização portuguesa, o território que hoje forma o Brasil foi palco de uma engenharia social que hierarquizou corpos, silenciou vozes e perpetuou desigualdades. A narrativa oficial, marcada por eurocentrismo e eufemismos, colocou o homem branco no topo da pirâmide social, relegando negros e indígenas à periferia da cidadania.
A escravidão africana, institucionalizada por mais de três séculos, não apenas subjugou corpos, mas estruturou um sistema de exclusão que persiste. Mesmo após a abolição formal em 1888, os descendentes de africanos enfrentam obstáculos estruturais que dificultam o acesso pleno aos direitos fundamentais. A equidade racial, portanto, permanece como uma meta ainda distante.
Povos originários e racismo ambiental
A invisibilidade dos povos originários é ainda mais acentuada. Primeiros habitantes do território, os indígenas foram excluídos da narrativa nacional, ora vistos como entraves ao progresso, ora como figuras folclóricas de um passado remoto.
A violência contra suas culturas, territórios e modos de vida configura um racismo multifacetado — ambiental, histórico, social e simbólico. Segundo o Censo Demográfico de 2022, mais de 1,69 milhão de brasileiros se autodeclaram indígenas, distribuídos em 4.832 municípios. Representam 0,83% da população, mas sua presença institucional é mínima.
A taxa de mortalidade infantil entre indígenas é superior à média nacional. O acesso ao saneamento básico é precário, e a violência territorial, endêmica.
Indicadores de desigualdade
Educação: Apenas 31,5% dos estudantes indígenas e negros do 9º ano atingiram o nível adequado em Língua Portuguesa, contra 45,6% dos brancos.
Trabalho e renda: Indígenas raramente aparecem nas estatísticas de mercado de trabalho. A informalidade e o subemprego predominam fora de territórios demarcados.
Saúde: O acesso à saúde pública é limitado, com barreiras linguísticas e culturais que dificultam o atendimento.
Habitação: Muitas comunidades vivem em áreas sem infraestrutura básica, expostas à contaminação de rios, desmatamento e mineração ilegal.

ESG e o “S” que clama por justiça
O racismo ambiental se insere na letra “S” de Social da sigla ESG (Environmental, Social and Governance). Refere-se à forma como comunidades marginalizadas são desproporcionalmente afetadas por degradação ambiental, ausência de saneamento, poluição e negligência institucional.
Empresas que adotam práticas ESG responsáveis devem considerar o impacto de suas operações sobre comunidades vulneráveis. Ignorar esse aspecto perpetua injustiças e compromete a sustentabilidade e reputação das organizações.
Propostas para um pacto com a justiça
Propõe-se a reconfiguração do Pacto de Promoção da Equidade Racial, com a inclusão explícita dos povos originários como sujeitos centrais da equidade. Entre as medidas sugeridas:
Criação de um Índice de Equidade Indígena, nos moldes do Índice ESG Racial;
Reconhecimento jurídico e político dos povos indígenas como sujeitos de direitos raciais;
Ações afirmativas específicas em empresas, universidades e políticas públicas;
Valorização das línguas, saberes e cosmologias indígenas como patrimônio nacional;
Proteção dos territórios como forma de garantir dignidade, identidade e soberania.
Iniciativas em curso
O Brasil tem registrado um movimento crescente de empresas que adotam ações voltadas para Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), com foco racial.
O Pacto de Promoção da Equidade Racial, articulado por organizações da sociedade civil e empresas, propõe metas vinculantes, diagnósticos étnico-raciais e investimentos em educação e capacitação.
Na COP30, o Círculo dos Povos reunirá os Ministérios dos Povos Indígenas, da Igualdade Racial e do Meio Ambiente para escutar demandas e propor políticas públicas com protagonismo comunitário.
O Príncipe da Floresta
A visita do príncipe William ao Brasil, às vésperas da COP30, foi mais do que um gesto diplomático: foi um sinal.
Representando uma Inglaterra que lidera ações práticas e financiamentos ambientais, o herdeiro da coroa britânica trouxe consigo o Earthshot Prize e uma convocação silenciosa aos países participantes da conferência: é tempo de refundar os alicerces da economia global.
É tempo de reconhecer o meio ambiente como o bem de uso comum mais precioso da humanidade.
*Adam Jordan é ensaísta e gestor de negócios ambientais sustentáveis (ESG), mestre em Direito Constitucional Ambiental Tributário pela UNIMAR (2008), com avaliação CAPES 4. É autor de diversas obras voltadas à sustentabilidade corporativa, entre elas: Pequeno Manual Prático de Economia Verde: Um Guia para Executivos e Empresas em Busca de Sustentabilidade Total (Amazon Books, 2023), A Revolução Silenciosa (Amazon Books, 2024), Manual da Virtude – Ética nos Negócios ESG (Amazon Books, 2025) e O Funeral das Árvores (Amazon Kindle, 2025). Para contato com o autor: mattaresgbrasilcarbono@aol.co




