A situação humanitária na Faixa de Gaza se deteriora rapidamente, com o número de mortes relacionadas à fome atingindo 127, incluindo 85 crianças. Pelo menos cinco pessoas, entre elas crianças, morreram de desnutrição apenas nas últimas 24 horas. Zeinab Abu Halib, uma bebê palestina de seis meses, foi uma das vítimas mais recentes da crise, falecendo nos braços da mãe nesta sexta-feira (25) devido à desnutrição severa. O diretor-geral do Ministério da Saúde Palestino, Dr. Munir al-Boursh, lamentou a perda de “vidas reais em silêncio”, criticando a inação da comunidade internacional.
A escalada da fome gerou indignação internacional e intensificou a pressão sobre Israel para que permita a entrada e distribuição de ajuda. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU alertou que aproximadamente um terço dos habitantes de Gaza passa dias sem comer, e 90 mil mulheres e crianças necessitam de tratamento urgente para desnutrição. A organização estima que 470 mil pessoas podem enfrentar uma “fome catastrófica” entre maio e setembro no território.
Apelos Urgentes por Ajuda e Cessar-Fogo
Em resposta à grave situação, o Reino Unido anunciou que está se preparando para retomar o envio de ajuda humanitária a Gaza por via aérea e para evacuar crianças que necessitam de assistência médica. Essa decisão segue o anúncio de Israel de que permitirá que países estrangeiros enviem ajuda humanitária à Faixa de Gaza por via aérea. Paris, Berlim e Londres, conhecidos como o E3, emitiram um apelo conjunto para que o governo israelense “suspenda imediatamente as restrições ao envio de ajuda”.
Em uma conversa telefônica no sábado (26), o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, o presidente francês Emmanuel Macron e o chanceler alemão Friedrich Merz reiteraram a necessidade urgente de um cessar-fogo imediato e de Israel levantar todas as restrições à ajuda, fornecendo urgentemente alimentos aos que sofrem em Gaza. Os líderes do E3 discutiram planos para trabalhar em conjunto em uma solução de longo prazo para a segurança na região.
Desafios e Controvérsias na Distribuição da Ajuda
Apesar dos apelos e das promessas de retomada, a distribuição de ajuda por via aérea é considerada uma solução cara, limitada e arriscada. Profissionais humanitários argumentam que a ajuda deveria ser entregue por via terrestre, caso o exército israelense permitisse. Em diversas ocasiões, lançamentos aéreos resultaram em acidentes, com pacotes atingindo pessoas ou caindo no mar, levando a mortes por impacto ou afogamento.
O bloqueio total imposto por Israel à Faixa de Gaza no início de março, parcialmente suspenso no final de maio, provocou a escassez crítica de alimentos, medicamentos e combustível. Autoridades israelenses afirmam que agências da ONU não estão garantindo a distribuição adequada, o que levou à decisão de autorizar os envios aéreos, que devem ser coordenados com os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia.
No entanto, a ONU e organizações humanitárias têm sido excluídas da distribuição por dois meses, e a Fundação Humanitária de Gaza (GHF), apoiada por Israel e pelos Estados Unidos, assumiu a responsabilidade pela distribuição. A GHF é criticada por ser opaca e por supostamente transformar a ajuda humanitária em instrumento político. A diretora de enfermagem da Médicos Sem Fronteiras, Jack Latour, denunciou que as distribuições da GHF são “extremamente perigosas” e não respeitam os princípios da ajuda alimentar.
“Crise Moral” e Inação Internacional
O secretário-geral da ONU, António Guterres, criticou veementemente a falta de “humanidade” e “compaixão” em relação aos palestinos em Gaza. Ele condenou os ataques do Hamas, mas enfatizou que “nada pode justificar a explosão de morte e destruição que presenciamos desde então”. Guterres expressou sua perplexidade com o “nível de indiferença e inação que vemos em muitos na comunidade internacional”, descrevendo a situação não apenas como uma crise humanitária, mas como uma “crise moral que desafia a consciência global”. Ele relatou que crianças palestinas expressam o desejo de ir para o céu “porque lá, pelo menos, há comida”. O secretário-geral também denunciou a morte de mais de 1.000 palestinos enquanto tentavam obter alimentos desde o final de maio.
A tragédia em Gaza continua a se aprofundar, exigindo ações urgentes e coordenadas da comunidade internacional para garantir a segurança e o acesso à ajuda humanitária para a população civil.





