O esquema bilionário de descontos indevidos nos benefícios de aposentados explorava falhas na fiscalização e recorria a fraudes grosseiras, como o uso de cópias de fotos de RGs para simular a biometria dos segurados.
O objetivo era registrar a adesão forçada a associações e sindicatos, garantindo a cobrança de mensalidades nos contracheques dos idosos.
Investigações apontam que as entidades envolvidas agiam para burlar a exigência de prova de vida e a anuência do beneficiário. Elas se aproveitavam da chamada “biometria paralela”, um sistema de autenticação simplificado, autorizado em caráter temporário pelo próprio INSS, que permitiu o registro da adesão fora dos padrões oficiais de segurança.
A Falsificação com “Xerox de Rosto”
Em vez da selfie segura, feita pelo próprio aposentado no aplicativo Meu INSS para comprovar o consentimento, os golpistas anexavam imagens de qualidade duvidosa, incluindo:
- Cópia da foto do RG: A imagem estática e antiga do documento de identidade era usada para simular o reconhecimento facial do segurado.
- Fotos tiradas sem consentimento: Agentes das associações abordavam os idosos em suas casas e capturavam rapidamente fotos, muitas vezes sem que a vítima percebesse ou soubesse o propósito real. Um caso emblemático é o de um aposentado no Rio de Janeiro que relatou ter sido fotografado por uma agente enquanto lavava o carro, sem camisa, e descobriu um desconto indevido meses depois.
Essa tática permitiu a falsificação em massa da biometria e de assinaturas, levando à inclusão de milhões de descontos não autorizados nas folhas de pagamento. Estima-se que mais de 4,1 milhões de aposentados contestaram a validade das cobranças.
PF Aponta Software e Falha na Fiscalização
A Advocacia-Geral da União (AGU) e a PF descobriram que o golpe não se limitava ao uso de fotos simples. Pelo menos 18 associações foram identificadas utilizando um software capaz de falsificar automaticamente as assinaturas dos segurados, criando documentos de adesão com padrões de escrita idênticos, o que indicava a fraude sistêmica.
O escândalo também expôs a fragilidade da fiscalização interna. O INSS, mesmo após alertas de órgãos de controle, flexibilizou as regras, permitindo o uso da biometria paralela, o que abriu caminho para a avalanche de fraudes.
O presidente do INSS, Gilberto Walter, afirmou que o órgão passou um “pente-fino” e revisou as normas internas. Treze entidades tiveram seus acordos de cooperação cancelados e estão proibidas de atuar no sistema. A Justiça também determinou o bloqueio de bens de alguns dos envolvidos.
Aposentados Esperam Reembolso
Os segurados lesados, na maioria idosos, enfrentam agora o processo de reaver os valores subtraídos. O governo federal prometeu o reembolso integral dos descontos indevidos.
Para aumentar a segurança, o INSS tornou obrigatório o uso do reconhecimento facial oficial da plataforma Gov.br para o desbloqueio de novos empréstimos consignados, buscando evitar que os aposentados voltem a ser vítimas do mesmo tipo de golpe.
O INSS orienta os segurados que identificarem descontos indevidos a contestar a cobrança pelo aplicativo Meu INSS, ou ligar para a Central 135.


