Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central, foi o entrevistado do Jornal BC TV, do portal BRASIL CONFIDENCIAL, nesta quinta-feira (25). A entrevista foi conduzida pelos jornalistas Camila Srougi e Germano Oliveira. Meirelles falou sobre as perspectivas da economia brasileira para 2026, sobre a política monetária atual, a previsão do crescimento do PIB no próximo ano, a inflação e o papel das reformas estruturais para impulsionar o avanço econômico. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Camila Srougi – O Banco Central revisou para baixo hoje a expectativa de crescimento do PIB para o próximo ano, projetando apenas 1,5%. O pior resultado dos últimos seis anos. Isso mesmo com o mercado de trabalho resiliente e o desemprego em nível historicamente baixo. Como o senhor explica essa desconexão entre um PIB magro e esses indicadores positivos?
Henrique Meirelles: Olha, é uma questão muito interessante. As previsões do PIB para o ano de 2023, por exemplo, feitas não só por autoridades, mas também por agentes de mercado, economistas e analistas em geral, estavam por volta de 1,5%, certo? No entanto, a economia cresceu mais de 3%. O mesmo ocorreu em 2024. As previsões eram semelhantes, e o Brasil cresceu mais de 3%.
Agora temos uma situação um pouco diferente, na medida em que o Banco Central mantém a taxa de juros elevada, justamente para moderar a atividade e controlar a inflação, trazendo-a para a meta. A inflação está acima da faixa de tolerância. Portanto, é algo a ser observado. Ainda não estão claras, nas análises, as razões pelas quais o Brasil cresceu acima das estimativas.
Na minha visão, isso foi muito resultado das reformas realizadas durante o governo Temer — inclusive no período em que atuei como ministro da Fazenda. Houve a reforma trabalhista, a implementação de mecanismos que permitiram trocas automáticas de informações bancárias, e, por exemplo, a criação do Pix. Em 2023, 76% da população adulta brasileira utilizou o Pix. Tudo isso, somado ao impulso fiscal, contribuiu para que a economia superasse as expectativas. Mas, claro, isso tem um prazo de validade.
Camila Srougi – Durante o período em que o senhor esteve à frente do Banco Central, o país registrou um dos maiores crescimentos da sua história recente. Hoje, o senhor acredita que ainda é possível pensar em um crescimento sustentável?
Henrique Meirelles: O crescimento sustentável é perfeitamente possível. Não nos níveis que alcançamos naquela época, evidentemente. Nos oito anos em que estive no Banco Central, a economia cresceu, em média, 4% ao ano. Houve anos com crescimento superior a 7%, como em 2010, e outros com 5,5%, por exemplo. Foi um período de forte expansão.
Hoje, acredito que o Brasil pode atingir um crescimento sustentável na faixa de 2% ou mais. Mas, para isso, é necessário haver convergência entre as políticas fiscal e monetária — e essa convergência deve levar a inflação à meta. Só assim será possível reduzir a taxa de juros e permitir que a economia avance.
Não há razão para o Brasil ter um crescimento estruturalmente baixo — o chamado “growth trap” (armadilha de crescimento). Basta observar o que ocorre com nossos vizinhos, como a Argentina, que enfrenta uma crise profunda, inclusive de endividamento externo. O presidente argentino se reuniu com o presidente americano, e os Estados Unidos estão considerando uma linha de crédito de US$ 20 bilhões para evitar uma crise mais aguda.
O Brasil superou esse problema. Hoje temos US$ 350 bilhões em reservas. Quando assumi o Banco Central, tínhamos cerca de US$ 32 bilhões — e também tínhamos dívida. Em maio de 2003, tínhamos US$ 15 bilhões em reservas e devíamos US$ 30 bilhões ao FMI. Mas conseguimos controlar a inflação, ampliar o crédito, especialmente o agrícola, e gerar saldos comerciais relevantes. Quando deixei o BC, em janeiro de 2011, o Brasil já contava com quase US$ 300 bilhões em reservas. Isso é um fator essencial para sustentar o crescimento.
Germano Oliveira – Lembrando que o Brasil chegou até a emprestar dinheiro ao FMI, não é? Ninguém imaginava que isso fosse acontecer. O Banco Central hoje mantém a taxa Selic em 15%. Realmente é muito alta, pois prejudica bastante o setor produtivo, já que o empresário prefere aplicar esse dinheiro em fundos ou no mercado financeiro, em vez de investir na produção. O senhor acredita que esse é o caminho certo?
Henrique Meirelles: O empresário realmente prefere aplicar no mercado financeiro em vez de investir na produção. Mas, por outro lado, pior do que juros altos é a inflação fora de controle. Já vivemos isso no passado.
Nas décadas de 1980 e 1990, até o início do Plano Real, o Brasil enfrentou uma das mais longas hiperinflações da história. Foram 15 anos com inflação acima de 100% ao ano. Hoje estamos falando em 4% ou 5% — acima da meta, sim — mas nada comparado ao que já enfrentamos.
A inflação corrói salários e desorganiza a economia. Os salários não acompanham a remarcação diária de preços, o que prejudica o trabalhador. É fundamental que o Banco Central controle a inflação. Depois, é necessário um controle efetivo das despesas públicas, para evitar o crescimento excessivo da dívida, que também pressiona os juros. A partir daí, o Brasil pode crescer.
Germano Oliveira – O senhor acredita que devemos continuar perseguindo a meta de inflação de 3% ou considera, como alguns economistas, que um pouco mais de inflação não faz mal?
Henrique Meirelles: Eu acredito que a inflação faz mal, sim. E 3% já é uma meta superior à dos países mais desenvolvidos. Nos EUA, por exemplo, a meta implícita é de 2%. Na Europa também.
A inflação corrói o poder de compra e desorganiza a economia. A meta de 3% é razoável para países emergentes como o Brasil. É possível alcançá-la. Em 2016, quando assumi o Ministério da Fazenda e aprovamos o teto de gastos, a expectativa de inflação caiu. E o Banco Central pôde reduzir os juros. Resultado: o país voltou a crescer. Portanto, controlar as despesas públicas é essencial.
📺 A entrevista completa pode ser acessada aqui:






