Milhares de pessoas participaram neste sábado (15), em Belém (PA), da Marcha Global pelo Clima, manifestação tradicional durante as conferências da ONU sobre mudanças climáticas. O ato voltou às ruas após quatro anos de interrupção, motivada pela pandemia e pela realização de COPs em países com restrições à liberdade de expressão.
A marcha percorreu cerca de 4,5 km entre o Mercado de São Brás e a Aldeia Amazônica, onde estão reunidos cerca de 3 mil indígenas que participam da COP30 ou da Cúpula dos Povos, evento paralelo organizado pela sociedade civil. Entre os presentes estavam as ministras Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança do Clima) e Sonia Guajajara (Povos Indígenas).
Grupos indígenas reivindicaram a demarcação de terras e o abandono de projetos como a exploração de petróleo na foz do Amazonas, a hidrovia no rio Tapajós e o Ferrogrão, voltados à logística do agronegócio. Uma comitiva de 11 povos do Acre, incluindo os Kuni Kuin, Puyanawa, Shanenawa, Yura e Nawa, participou do protesto.
“Somos homens, mulheres, crianças, quilombolas, pedindo justiça social e climática e a demarcação das nossas terras”, disse Cristiane Puyanawa. “A floresta não é mercadoria. Nossas terras são invadidas por madeireiros e caçadores que retiram nosso alimento”, afirmou.
Faixas criticaram o governo federal por priorizar o agronegócio em detrimento da demarcação de terras. “Que contradição, tem dinheiro para o agro mas não faz demarcação”, dizia uma delas. Outra alertava: “Se vender a Amazônia, nós paramos o Brasil”.

Jorbeson, liderança indígena, manifestou esperança de que a pressão popular leve o governo a rever o projeto de exploração de petróleo na Amazônia. “Tudo caminha para essa exploração acontecer, mas acredito que a pressão pode mudar os rumos”, disse.
A jovem Thuane destacou a urgência ambiental: “Não existe planeta B. Somos contra a exploração dos nossos territórios e a privatização dos nossos rios”.
Movimentos sociais como o MST, partidos de esquerda (PT, PC do B, PSTU) e organizações como os Atingidos por Barragens e os Pescadores Artesanais também participaram. Entre as faixas, críticas ao agronegócio e à geração de energia por hidrelétricas na Amazônia. “Mudem o sistema, não o clima”, dizia uma delas.
Houve também manifestações em apoio à Palestina e contra o genocídio em Gaza. “A Amazônia, a Palestina, é pelo clima e contra a chacina”, gritavam participantes.
Representantes religiosos levaram mensagens de paz e defesa ambiental. “É pela educação popular e mobilização nos territórios que se transforma a história do clima”, disse o padre Dario Bossi, da Comissão Episcopal para a Ecologia Integral e Mineração.
A COP30, realizada no Centro de Conferências da Amazônia, teve segurança reforçada por militares do Exército e da Força Nacional. Dois protestos indígenas durante a semana causaram distúrbios e preocupações quanto à segurança do evento.
A conferência registra a maior participação indígena da história, com 360 representantes credenciados. Eles reivindicam assento próprio nas negociações e mais demarcações de terras. Após protesto dos Mundurukus, que bloquearam a entrada da COP30 por duas horas na sexta-feira (14), o governo federal prometeu acelerar a demarcação de Sawré Muybu e Sawré Ba’pim, no Pará.

