Um administrador de empresas do jornalista Leo Dias está entre os envolvidos na contratação de influenciadores para publicações críticas ao Banco Central (BC). Desde dezembro, perfis de fofoca nas redes sociais receberam propostas para levantar suspeitas sobre a decisão da autoridade monetária de liquidar o Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Mensagens obtidas pelo jornal Estadão mostram que André Silva Salvador abordou influenciadores dizendo atuar na “gestão de crise” de um executivo financeiro e oferecendo “serviços de divulgação”. Nas conversas, Salvador cita parceria com Thiago Miranda, apresentado como “sócio do Grupo Leo Dias”.
Após a publicação da reportagem, Leo Dias divulgou nota afirmando que iniciou o processo de desligamento de Miranda no fim de 2025 e negou participação na contratação de influenciadores. “Thiago Miranda atuou como CEO do Grupo Leo Dias, cargo do qual se desligou em junho de 2025, não mantendo, desde então, qualquer função de gestão, decisão ou representação em nome da empresa”, disse.
Miranda é dono da agência Mithi e consta como administrador de duas empresas de Leo Dias: Leo Dias Comunicação e Jornalismo Ltda e Leo Dias Comunicação e Jornalismo Ltda SCP VTG. Registros da Junta Comercial de São Paulo mostram que ele chegou a figurar como sócio da primeira em outubro de 2025. Segundo Leo Dias, a transferência da participação minoritária de Miranda ainda não foi concluída.
Apesar da citação ao nome do jornalista, o contrato foi firmado pela empresa de Salvador, a UNLTD. O acordo previa cláusula de confidencialidade para o “projeto DV” — iniciais de Daniel Vorcaro — com multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo. Reportagem de O Globo informou que os valores pagos a influenciadores poderiam chegar a R$ 2 milhões, dependendo do alcance dos perfis.
Empresa usada nos pagamentos
A UNLTD tem sede em Águas Claras (DF), capital social de R$ 5 mil e enquadramento de pequeno porte. Foi por meio dela que se realizaram os pagamentos. Salvador também possui participação em duas empresas em Pelotas (RS), onde mora.
Entre os procurados para participar da ação está o vereador de Erechim (RS) Rony Gabriel (PL), que recusou a proposta. Salvador também abordou o deputado estadual Leonardo Siqueira (Novo-SP), mas não revelou o nome do executivo envolvido, alegando que só o faria após assinatura de termo de confidencialidade. O parlamentar não deu continuidade à conversa.
Na virada do ano, influenciadores e páginas de redes sociais repercutiram despacho do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU), que questionava a liquidação do Master. O BC alegou que o banco não tinha condições de honrar compromissos e apontou indícios de irregularidades. Jhonatan de Jesus recuou da inspeção e encaminhou o caso ao plenário do TCU, que retorna do recesso em 16 de janeiro.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) pediu à Procuradoria-Geral da República investigação contra o ministro por abuso de autoridade e “interferência indevida”. Influenciadores contratados usaram os questionamentos para sugerir irregularidades na decisão do BC.
Indícios contra Vorcaro
A Polícia Federal encontrou indícios de que Daniel Vorcaro ordenou diretamente ataques virtuais de influenciadores. O material foi localizado no celular do banqueiro, apreendido em 17 de novembro durante a Operação Compliance Zero. A defesa não se manifestou.
Segundo fontes, Vorcaro repassava ordens a auxiliares fora do quadro do Master. Ele determinava a divulgação de informações positivas sobre o banco e ataques a autoridades e jornalistas. Os diálogos são anteriores à liquidação do Master, em 18 de novembro, mas já havia ações virtuais contra o BC por causa da demora na análise da venda do banco ao BRB, vetada em setembro.
A atuação descrita pela PF é semelhante aos ataques coordenados que ocorreram na virada do ano. Os contratos com influenciadores previam remuneração de até R$ 2 milhões e multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo. Um dos envolvidos é administrador de empresas de Leo Dias.


