Sede da embaixada Argentina em Caracas, cuida da pelo Brasil com venezuelanos asilados no local. (Foto: Redes Sociais)


Os cinco asilados políticos da equipe da líder opositora Maria Corina Machado estão em território americano após conseguirem sair da Venezuela na tarde desta terça-feira (06) em uma operação cercada de sigilo. Eles estavam há mais de 400 dias refugiados na sede diplomática da Argentina em Caracas.
Através das redes sociais, o secretário de Estado de Washington, Marco Rubio, informou que “os Estados Unidos comemoram o resgate bem-sucedido”, “após uma operação precisa, todos os reféns estão agora em segurança em solo americano”. Sem dar maiores explicações, Rubio agradeceu “as pessoas envolvidas na operação e aos parceiros que ajudaram a garantir a libertação segura desses heróis venezuelanos”.

Fontes não oficiais afirmam que se trata de uma operação de retirada dos asilados. Em março de 2024, seis integrantes da equipe de Machado buscaram refúgio na sede diplomática argentina. Eles foram acusados pelo Ministério Público venezuelano de terrorismo, conspiração e traição à pátria. As acusações aconteceram após as eleições primárias opositoras, vencidas por Maria Corina Machado.
Custódia do Brasil

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Desde agosto de 2024, a sede diplomática estava sob custódia do Brasil após os diplomatas da Argentina serem expulsos da Venezuela depois que o presidente Javier Milei questionou a veracidade da eleição presidencial de julho passado.

Os asilados eram Magalli Meda, chefe de campanha do Comando com Venezuela; Claudia Macero, da equipe de Comunicação de Machado; Omar González Moreno, ex-deputado; Pedro Urruchurtu e Humberto Villalobos, membros do partido Vente Venezuela, liderado por Maria Corina. O sexto asilado, Fernando Martínez Mottola, deixou a sede diplomática em dezembro passado e acabou falecendo em fevereiro deste ano.

Maria Corina Machado, pelas redes sociais, classificou a operação de “impecável e épica”. Ela também agradeceu “todos que tornaram possível [a retirada do grupo]”, e garantiu: “vamos liberar cada um dos 900 heróis presos”, em referência aos presos políticos no país.

Milei agradece EUA por resgate mas omite papel do Brasil

A sede diplomática da Argentina em Caracas estava sob custódia brasileira

A Argentina agradeceu aos Estados Unidos – e não ao Brasil – pelo resgate dos venezuelanos na embaixada sob custódia do governo brasileiro. O presidente argentino, Javier Milei, agradeceu especialmente ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, pela bem-sucedida operação da terça-feira (6), mas não mencionou o presidente Lula, depois de nove meses durante os quais o Brasil cuidou da segurança dos envolvidos.

Enquanto o regime de Nicolás Maduro tenta encobrir uma falha ao sugerir que houve uma negociação para a libertação dos venezuelanos sob custódia do Brasil, o presidente Javier Milei se refere a uma “extração” e Marco Rubio, a um “resgate”.

Embora o Brasil tenha cuidado da segurança dos venezuelanos resgatados e continue a zelar pela embaixada argentina em Caracas, o governo argentino agradeceu aos Estados Unidos e o presidente Javier Milei frisou o trabalho do secretário de Estado de Donald Trump, Marco Rubio, pela libertação dos asilados.

“O presidente expressa o seu reconhecimento pela bem-sucedida operação que permitiu que os cinco venezuelanos refugiados na sede da Embaixada argentina na Venezuela fossem extraídos de Caracas e levados ao solo estadunidense”, comunicou a Casa Rosada, através de uma nota na noite de terça-feira (6).

“O presidente Javier Milei estende o seu agradecimento a todos os envolvidos, especialmente ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, pelo seu compromisso pessoal nesta operação”, acrescentou a nota.

“Além disso, o governo nacional valoriza profundamente os esforços realizados para garantir a segurança e o bem-estar daqueles que, por muito tempo, ficaram sob proteção argentina da perseguição do regime de Nicolás Maduro”, continua o texto que, em nenhum momento, menciona o Brasil como o responsável por essa proteção desde o dia 1º de agosto passado.

O ministério das Relações Exteriores da Argentina emitiu outra nota na qual apenas agradece aos Estados Unidos e a Marco Rubio.

“O governo da República Argentina expressa o seu reconhecimento ao governo dos Estados Unidos pela bem-sucedida operação que permitiu a libertação dos asilados venezuelanos que permaneciam na sede da nossa Embaixada em Caracas”, começa a nota da chancelaria argentina, que, em nenhum momento, menciona o papel do Brasil nessa mesma sede.

“Queremos estender um agradecimento especial ao secretário de Estado, Marco Rubio, pela sua liderança e pelo seu compromisso pessoal nessa operação”, continua o texto.

Golpe na reputação do regime

O regime de Nicolás Maduro tentou apresentar a libertação dos asilados como um acordo entre as partes, no qual Maduro concedeu salvo-condutos após uma negociação. No entanto, tanto a Casa Rosada quanto a Casa Branca deixam claro que se tratou de uma operação militar de extração em pleno solo venezuelano.

O governo argentino citou os termos “operação de extração” e o governo dos Estados Unidos abordou o assunto como “um resgate de reféns”.

“Os Estados Unidos celebram o resgate bem-sucedido de todos os reféns mantidos pelo regime de Maduro na Embaixada da Argentina em Caracas. Após uma operação precisa, todos os reféns estão agora em segurança em solo americano”, publicou nas redes sociais o secretário de Estado de Donald Trump, Marco Rubio.

“O regime ilegítimo de Maduro minou as instituições da Venezuela, violou os direitos humanos e colocou em risco nossa segurança regional. Estendemos nossa gratidão a todo o pessoal envolvido nesta operação e aos nossos parceiros que ajudaram a garantir a libertação segura desses heróis venezuelanos”, agradeceu Rubio.

A líder opositora, María Corina Machado, também deixou claro que se tratou de uma operação militar.

“Uma operação impecável e épica pela liberdade de cinco heróis da Venezuela”, celebrou Corina Machado nas redes sociais.

“Vamos libertar cada um dos nossos 900 heróis presos por essa tirania e os 30 milhões de venezuelanos”, prometeu, em referência aos presos políticos e a toda a população venezuelana sob um regime não reconhecido pelas principais democracias do mundo.

E, para deixar ainda mais claro, a porta-voz de María Corina Machado na Argentina, Adriana Flores, esclareceu que “o resgate dos nossos companheiros asilados na Embaixada argentina não foi um pacto: foi uma operação impecável”.

“O aparelho de inteligência do regime está cada vez mais reduzido e essa ação deixou isso em evidência. Se tivesse tido um salvo-conduto, [os asilados] teriam saído pelo [aeroporto de] Maiquetía e com show oficial. Não há assinaturas, não há circo. Há liberdade, sigilo e força”, garantiu.

A Trama que Envolve o Brasil

Em 20 de março de 2024, seis venezuelanos refugiaram-se na embaixada da Argentina em Caracas para escaparem da perseguição do regime chavista por integrarem a equipe de campanha da líder opositora María Corina Machado. O governo do presidente Javier Milei concedeu-lhes asilo político.

Durante meses, a Argentina primeiro e o Brasil depois tentaram um salvo-conduto que permitisse a saída dos asilados da Venezuela. O regime de Nicolás Maduro negou todos os pedidos. Sem o salvo-conduto, os seis venezuelanos poderiam ser presos assim que pusessem o pé fora da embaixada.

Apesar dos ataques de Milei a Lula, o Brasil assumiu formalmente a representação diplomática da Argentina em Caracas desde o dia 1º de agosto passado, depois que os cinco diplomatas argentinos, responsáveis pela embaixada, foram expulsos do país.

A representação brasileira implicou proteger os seis venezuelanos e intermediar entre a Venezuela e a Argentina, que ficaram sem um canal de diálogo direto após a expulsão dos diplomatas argentinos como represália de Maduro por Milei ter denunciado fraude nas eleições de 28 de julho.

Além disso, mesmo sem os asilados, o Brasil continua a garantir os direitos de cidadãos argentinos e de firmas de capitais argentinos em território venezuelano. (Por Márcio Rezende, da RFI).