A promessa de uma revolução liberal na Argentina, liderada pelo presidente Javier Milei, enfrenta seu primeiro grande teste.
Após meses de entusiasmo entre investidores e economistas de mercado, a economia argentina mergulha novamente em uma crise cambial, reacendendo dúvidas sobre a viabilidade do experimento libertário em curso.
Desde sua posse, Milei adotou uma agenda de choque: cortes drásticos nos gastos públicos, eliminação de subsídios, desregulamentação de setores e uma tentativa de dolarização da economia.
“A única forma de acabar com a inflação é eliminar o Banco Central”, declarou o presidente em seu discurso inaugural. A frase virou símbolo de sua cruzada contra o que chama de “casta política”.
No início, os números pareciam validar a estratégia. A inflação mensal caiu de 25% em dezembro para 8% em julho. O peso argentino estabilizou temporariamente, e o mercado financeiro reagiu com otimismo.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) renovou um acordo de US$ 20 bilhões, elogiando o compromisso com a disciplina fiscal.
Mas o cenário mudou abruptamente em setembro. A derrota de Milei nas eleições legislativas da província de Buenos Aires expôs a fragilidade política do governo. O dólar oficial ultrapassou o teto da banda cambial acordada com o FMI, forçando o Banco Central a intervir com a venda de US$ 1,1 bilhão em apenas três dias. As reservas líquidas do país estão abaixo de US$ 6 bilhões.
“O governo está usando os dólares do FMI para segurar o câmbio. Isso não é sustentável”, afirmou um analista da consultoria Ellos Ayta.
A moeda argentina já acumula uma desvalorização superior a 30% no ano, tornando-se a pior performance global frente ao dólar.
Em resposta, Milei buscou apoio externo. Durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, o presidente vai se reunir com Donald Trump e o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent. “Todas as opções estão sobre a mesa para estabilizar a Argentina”, disse Bessent, mencionando linhas de swap e compras diretas de moeda.
Internamente, o governo anunciou a isenção temporária de impostos sobre exportações de grãos até 31 de outubro, numa tentativa de atrair dólares do setor agroexportador. Mas a medida foi recebida com cautela pelos produtores, que temem instabilidade regulatória.
A desaprovação ao governo atingiu 53,7% em setembro, segundo pesquisa da AtlasIntel. A crise cambial, somada à estagnação do PIB e ao risco de recessão técnica, levanta dúvidas sobre a capacidade de Milei de manter sua agenda liberal sem apoio político sólido.
“O pânico político está sabotando nosso programa”, disse Milei em discurso recente, culpando a oposição pela turbulência nos mercados.
Mas para muitos analistas, o problema é estrutural: sem uma base parlamentar forte e com reservas em queda, o governo enfrenta um dilema entre ortodoxia fiscal e pragmatismo cambial.
A Argentina, que há poucos meses era saudada como laboratório do liberalismo radical, agora se vê às voltas com velhos fantasmas: fuga de capitais, inflação persistente e instabilidade política. O experimento Milei, antes celebrado, começa a mostrar suas fissuras.


