Os deputados Thiago Rangel Lima (E) e Rodrigo Bacellar (D): ambos estão presos e comandavam o crime organizado na política, diz PF. (Reprodução)


O ministro Alexandre de Moraes, do STF, foi quem decretou nesta terça-feira (5) a prisão preventiva do deputado estadual Thiago Rangel Lima (Avante-RJ) e de mais seis aliados. A ordem incluiu buscas em 21 endereços no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.

A decisão atendeu a pedidos da Polícia Federal e da Procuradoria Geral da República (PGR), que descrevem a existência de “uma organização criminosa enraizada na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) e em órgãos estaduais e municipais”.

A investigação nasceu de documentos apreendidos na própria Alerj durante a Operação Unha e Carne. Uma planilha encontrada em gabinete parlamentar detalhava a partilha de cargos estratégicos, incluindo a Superintendência Regional do IPEM/RJ (Instituto de Pesos e Medidas), ocupada por indicados de Lima.

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Segundo a PF, o grupo desviava verbas da Câmara de Vereadores e da EMHAB (Empresa Municipal de Habitação, Urbanização e Saneamento) de Campos dos Goytacazes por meio de contratos fraudulentos e dispensas de licitação. O dinheiro era lavado numa rede de postos de combustíveis controlada pelo deputado, usando “laranjas”.

Além de peculato, corrupção, fraude e lavagem, os relatórios apontam indícios de violência. Em diálogos interceptados, Lima teria planejado ataques contra adversários políticos e mantido contato com traficantes da região, entre eles Arídio Machado da Silva Júnior, o “Júnior do Beco”.

O caso ainda atinge a Seeduc (Secretaria Estadual da Educação). Reportagem do RJ2, da TV Globo, citada nos autos, mostra que empresas de fachada receberam milhões em reformas de escolas públicas, via cotações centralizadas sem transparência.

A decisão de Moraes “reforça a atuação do STF em esquemas com ramificações interestaduais e conexões com o crime organizado”. O processo corre em sigilo, mas já abala a política fluminense. A influência de Lima e do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar é descrita como central na engrenagem.

A anatomia do crime organizado dentro da política fluminense

1. Relação Rangel x Bacellar

A aliança é o eixo do esquema. Rangel chegou à Alerj em 2022 com 31 mil votos, mas virou liderança do Avante em 2025 justamente pelas pontes com Rodrigo Bacellar. A PF aponta que Bacellar, ex-presidente da Alerj, usava a estrutura da Casa para distribuir cargos estratégicos — como o IPEM-RJ, entregue a aliados de Rangel. A planilha apreendida na Operação Unha e Carne mostra a divisão: cargos em troca de apoio e contratos. Os dois foram presos em fases diferentes da mesma operação. Bacellar caiu primeiro, em dezembro de 2025, por vazar dados a facções. Rangel foi o alvo da 4ª fase, em maio de 2026. A tese da PF: Bacellar era o articulador político, Rangel o operador financeiro com a rede de postos.

2. Enriquecimento patrimonial

O salto chama atenção: de R$ 224 mil em 2020 para R$ 1,9 milhão em 2022 — 700% em dois anos. No período, Rangel virou dono de 18 postos de combustíveis. A PF sustenta que os postos eram peça de lavagem: recebiam dinheiro de contratos fraudados da Seeduc e da EMHAB e devolviam “limpo” via faturamento de fachada. O crescimento coincide com os cargos no IPEM-RJ e Detro-RJ e com a explosão dos repasses da Seeduc: de R$ 60 milhões/ano até 2018 para R$ 630 milhões em 2024. A pergunta que fica: como um vereador de Campos vira empresário do setor de combustíveis em escala estadual tão rápido?

3. Impactos políticos na Alerj

A prisão de um líder de bancada e a citação do ex-presidente da Casa racham a base do governo no Rio. Bacellar era peça central na articulação da Alerj desde 2023. Rangel assumiu a liderança do Avante este ano e negociava emendas e cargos. Com os dois fora, abre-se vácuo de poder e crise de confiança. Outros deputados já se movem para se descolar do grupo. O caso ainda pressiona o governador: a Seeduc é pasta estratégica, e o esquema de reformas movimentou mais de R$ 1 bilhão em dois anos com empresas como a Flademma — aberta em 2023, R$ 7,7 mi em contratos, sede em casa residencial.

LEIA AQUI A DECISÃO DO MINSITRO