Laira Vieira*
O amor costuma ser vendido como antídoto universal. Serve para tudo: tristeza, tédio, colapso nervoso, exaustão crônica. Um sentimento elástico, capaz de estancar sangramentos profundos com curativos emocionais baratos. O problema começa quando essa promessa falha. Aí sobra o silêncio constrangedor das coisas que não sabem mais se chamar de amor.
Morra, Amor (2025), dirigido por Lynne Ramsay (Precisamos Falar Sobre o Kevin, Você Nunca Esteve Realmente Aqui), volta o olhar para dentro de uma casa e encontra ali um campo de batalha sem trincheiras visíveis. A mudança para o interior não nasce de um sonho bucólico, mas de necessidade crua. Um casal se instala numa casa herdada no interior dos Estados Unidos, onde um parente se matou. O detalhe não é decorativo. A morte já ocupa o espaço antes dos vivos. Ela é escritora sem livros. Ele, um músico sem carreira. Têm um filho que chamam apenas de “Boy” (garoto). A promessa de recomeço logo revela outro cheiro: mofo, leite azedo, madeira quente demais sob o sol.
No início, havia desejo. Grace, interpretada por Jennifer Lawrence (Jogos Vorazes, Não Olhe Para Cima) e Jackson, vivido por Robert Pattinson (O Batman, Mickey 17) constroem a paixão inicial com urgência quase animalesca: sexo apressado, corpos colados, riso fácil. Depois do nascimento da criança, essa energia evapora. A maternidade se instala como função integral, sem folga. Ele se ausenta emocionalmente com a tranquilidade de quem acredita estar fazendo o suficiente. Trabalha fora, volta cansado, traz um cachorro como quem oferece flores para um incêndio.
O sexo desaparece. O toque também. O corpo feminino deixa de ser território de desejo e vira instrumento logístico. Amamentar, limpar, embalar, repetir. A câmera insiste nos sons: choro, latidos, vento atravessando campos largos demais. O interior vira prisão a céu aberto, quente, silencioso, sem testemunhas. Quando surge a figura do motoqueiro, ele não entra como personagem, mas como delírio funcional. Um corpo fechado por capacete, onde ainda é possível projetar desejo. Talvez haja um beijo, talvez sexo. Talvez nada disso exista fora da mente da protagonista que precisa inventar uma saída. A diretora não esclarece. A fantasia aqui não é fuga romântica, é sobrevivência psíquica.
A sogra, interpretada por Sissy Spacek (Carrie, a Estranha, À Sangue Frio), percebe o naufrágio. Oferece ajuda com delicadeza de quem sabe que certas dores não se anunciam. A resposta é negação. Admitir o colapso seria admitir fracasso. Social, materno, feminino. Melhor sorrir torto e continuar.
Em reunião familiar, o tema da depressão pós-parto surge como conversa protocolar. Um incômodo que passa, dizem. A resposta vem em gesto: despir-se, mergulhar na piscina, quebrar a encenação. O constrangimento é geral. Quem acalma todos, ironicamente, é ela. A normalidade volta a ser vestida às pressas, como roupa molhada.

O pedido de casamento surge como solução improvisada por Jackson, para tentar solucionar a crise. A cerimônia acontece, o álcool corre, o comportamento se desorganiza. O amor tenta ocupar o lugar de intervenção médica. Não funciona. Só quando a situação se torna incontornável surge o hospital, a internação involuntária, a palavra que ninguém queria pronunciar. Quando ela retorna para casa, tudo está arrumado, reformado, funcional. A estrutura foi consertada. A pessoa, não. Na festa de boas-vindas, a verdade escapa em grito. Não há retorno possível. O carro segue em silêncio. A música diz o que eles não conseguem.
Sylvia Plath escreveu, em A Redoma de Vidro: “Eu me sentia muito quieta e vazia, como o olho de um tornado, movendo-me com ruído no meio do caos.” A cineasta filma exatamente essa quietude barulhenta. O colapso que consome por dentro. Não há vilões claros. Há imaturidade emocional, traumas não tratados, papéis engessados. Há amor, sim. Só não há preparo.
Morra, Amor não é um longa sobre maternidade, nem sobre casamento. É sobre a falácia de que vínculos afetivos substituem cuidado profissional, escuta real, redistribuição de responsabilidades. Num mundo que romantiza a exaustão e chama colapso de fase, a obra opera como corpo estranho.
O título não pede morte literal. Pede o fim de uma ideia. A de que permanecer junto é sempre virtude. Às vezes, separar-se é o único gesto de sobrevivência possível. O amor, sozinho, não dá conta. E insistir nisso pode ser a forma mais educada de violência.
*Laira Vieira é Critica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.





