A teledramaturgia brasileira perdeu na noite de sábado (10) o seu mais refinado observador. Manoel Carlos, carinhosamente chamado de Maneco, morreu aos 92 anos no Rio de Janeiro.
O autor, que enfrentava a Doença de Parkinson e apresentava uma regressão cognitiva acentuada no último ano, faleceu no Hospital Copa Star. Seu corpo está sendo velado em uma cerimônia restrita no Memorial do Carmo, seguida da cremação.
A despedida discreta encerra um capítulo monumental da cultura nacional: a era das “tragédias solares” sob o céu azul do Rio mostradas pela TV Globo.
A Gênese do Mestre
Paulistano de nascimento (1933), mas carioca por devoção, Maneco era filho de uma professora e de um comerciante. Sua formação intelectual foi forjada na Biblioteca Municipal de São Paulo, onde, ao lado de nomes como Fernanda Montenegro e Antunes Filho, integrou o grupo Adoradores de Minerva. Antes de se tornar o senhor do horário nobre, foi o operário padrão da TV: premiado como ator revelação aos 17 anos na Tupi, dirigiu o Fantástico e produziu marcos como a Família Trapo.
A Dinastia das Helenas
O grande trunfo de sua carreira foi a criação de uma linhagem de protagonistas que se tornaram parte do vocabulário brasileiro. Inspirado na mitologia grega, o nome Helena batizava mulheres complexas, falíveis e profundamente maternais. Ao Fantástico, em 2014, ele definiu o arquétipo:
“Elas são aquelas mães abnegadas e ao mesmo tempo não se esquecem delas mesmas. São vaidosas, são justas e injustas na medida certa… Elas defendem um filho até a injustiça.”
O público testemunhou essa força em momentos que pararam o país:
- O Sacrifício: Em Laços de Família (2000), a Helena de Vera Fischer engravidou para salvar a filha com leucemia.
- A Troca: Em Por Amor (1997), a Helena de Regina Duarte trocou o próprio filho vivo pelo neto morto para poupar a filha da dor.
- A Quebra de Barreiras: Em Viver a Vida (2009), Taís Araújo viveu a primeira Helena negra, uma top model no auge da carreira.
O Realismo Verossímil
Diferente de seus contemporâneos, Maneco fugia do maniqueísmo. Suas vilãs não queriam dominar o mundo; queriam o marido da vizinha. Seus vilões eram o preconceito, o alcoolismo e a violência doméstica — temas que ele inseria organicamente para promover ações sociais. Apesar da carga dramática, ele rejeitava o rótulo de “realista”:
“Procuro apenas fazer uma coisa verossímil. O amor se parece em todas as línguas… O ódio, a inveja, o ciúme. E eu retrato só essas coisas. Isso existe em qualquer família.”
O Leblon como Personagem
O bairro carioca era sua Macondo. Para o autor, a beleza da cidade servia como um filtro para a dureza da vida. Em depoimento ao Memória Globo, explicou sua estética:
“Faço coisas muito fortes, sob um céu muito azul. As tragédias e os dramas acontecem, mas o dia está lindo. A praia e o espírito carioca dão uma coloração rosa ao contexto cinzento.”
Legado de Resiliência
Na vida real, Manoel Carlos enfrentou tragédias que superariam qualquer roteiro: sobreviveu à morte de três de seus cinco filhos. Encontrou conforto na esposa Bety e nas filhas Júlia e Maria Carolina — esta última, sua colaboradora fiel. Ao partir, Maneco deixa o Leblon mais silencioso, mas suas Helenas permanecem como o espelho mais fiel de uma classe média que aprendeu a se ver através de suas lentes.





