Os mosquitos transmissores da febre Oropouche. (Foto: Divulgação)


A febre Oropouche se espalhou por todo o país e a expectativa é que o Brasil encerre o ano com mais de 13.856 casos, superando o total registrado em 2024. A doença, que em 2023 era quase exclusiva da Região Amazônica, agora atinge 18 estados e o Distrito Federal, somando 11.805 infecções confirmadas neste ano. As mortes também já superam as do ano passado, com cinco óbitos confirmados (quatro no Rio de Janeiro e um no Espírito Santo) e dois em investigação, enquanto em 2024 foram quatro mortes (duas na Bahia, uma no Espírito Santo e uma em Santa Catarina).

Entendendo a Disseminação da Oropouche

A febre Oropouche é causada por um vírus transmitido pelo mosquito Culicoides paraensis, conhecido como maruim ou mosquito-pólvora, presente em todo o território nacional. Os sintomas são semelhantes aos de outras arboviroses como dengue e chikungunya, manifestando-se principalmente como febre e dores na cabeça, músculos e articulações.

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O vírus também pode causar complicações graves em gestantes, como microcefalia, malformações e óbito fetal, similar ao Zika vírus. Por isso, o Ministério da Saúde recomenda que grávidas em áreas de ocorrência da doença reforcem a proteção contra mosquitos. Embora a transmissão sexual não tenha sido comprovada, o uso de preservativos é recomendado para pessoas com sintomas como medida preventiva.

Segundo Felipe Naveca, chefe do Laboratório de Arbovírus e Hemorrágicos do Instituto Oswaldo Cruz, estudos genéticos indicam que a proliferação atual do vírus no Brasil se deve a uma nova linhagem que surgiu no Amazonas, circulou pela Região Norte e depois se espalhou. Naveca complementa que o cenário está intimamente ligado a áreas de desmatamento recente, especialmente no sul do Amazonas e norte de Rondônia, que funcionaram como pontos cruciais para a dispersão do vírus. Pessoas infectadas acabaram levando a doença para outras regiões antes mesmo de manifestarem os sintomas.

Fatores Ambientais e Climáticos na Proliferação

O maruim, embora presente em todo o Brasil, se reproduz em ambientes úmidos com matéria orgânica em decomposição, sendo mais incidente em áreas florestais e de plantações, como as lavouras de banana. Os surtos têm sido observados principalmente em regiões periurbanas, que são transições entre ambientes rurais e de mata, e áreas habitadas por humanos. Apenas as fêmeas do mosquito transmitem o vírus da febre Oropouche, que também pode ser inoculado em animais.

Naveca destaca que mudanças ambientais desempenham um papel crucial na proliferação da doença. Eventos climáticos extremos, como secas ou cheias de rios, afetam não apenas a população do vetor, mas também os animais dos quais o mosquito se alimenta, alterando todo o ecossistema. Dados mostram que a população do vírus aumentava nos períodos de chuva na Região Amazônica.

Um estudo internacional recente, que analisou dados de seis países sul-americanos, incluindo o Brasil, apontou que variáveis climáticas — como mudanças nos padrões de temperatura e chuva — foram os principais fatores (60%) que influenciaram a disseminação da Oropouche. Pesquisadores acreditam que eventos climáticos extremos, como o El Niño, provavelmente tiveram um papel fundamental no surto que se iniciou em 2023.

Resposta do Ministério da Saúde e Medidas de Prevenção

O Ministério da Saúde intensificou o monitoramento dos casos de Oropouche, realizando reuniões periódicas e visitas técnicas aos estados para orientar as autoridades locais sobre a notificação, investigação e encerramento de casos suspeitos.

Em parceria com a Fiocruz e a Embrapa, a pasta conduz estudos sobre o uso de inseticidas para controle do vetor, com resultados preliminares promissores. Essas evidências auxiliam na definição de estratégias de enfrentamento da doença, especialmente durante surtos, e na redução de seu impacto na população. As medidas de prevenção incluem o uso de roupas compridas, sapatos fechados, telas de malha fina em janelas e a eliminação de matéria orgânica acumulada.

Cenário nos Estados

Espírito Santo: O Recordista de Casos

As autoridades de saúde do Espírito Santo estão em alerta, visto que o estado, com pouco mais de 4 milhões de habitantes, tornou-se o recordista de casos no ano passado e neste. Orlei Cardoso, subsecretário estadual de Vigilância em Saúde, explica que grande parte dos 78 municípios capixabas possui características periurbanas com muitas áreas de plantação, facilitando a reprodução do maruim. Com abundância de mosquitos e uma população sem imunidade prévia, o vírus encontrou condições ideais para se disseminar.

Cardoso acrescenta que os primeiros casos no estado ocorreram durante a colheita do café, período em que há grande circulação de pessoas de outros estados para trabalhar nas lavouras. Essa movimentação favorece a transmissão, pois os trabalhadores permanecem em uma cidade por uma semana e depois seguem para outra. Enquanto pesquisadores mapeiam as áreas de maior incidência do maruim, a secretaria capixaba intensifica o treinamento dos profissionais de saúde.

“Como era uma doença desconhecida, eles começaram a entender agora o que está acontecendo, para saber identificar e agir diante de um caso de Oropouche. Então, nós estamos fazendo a qualificação das equipes municipais, para fazer o reconhecimento clínico, principalmente diferenciar a oropouche da dengue e das outras arboviroses e estamos treinando também os agentes comunitários de saúde”, garante o subsecretário.

Oropouche no Nordeste: Ceará em Destaque

A febre Oropouche também se tornou uma novidade indesejável em alguns estados do Nordeste, com o Ceará registrando 674 casos neste ano. Antonio Lima Neto, Secretário Executivo de Vigilância em Saúde do estado, informa que os casos no Ceará também iniciaram em áreas de plantio, principalmente de banana, mas também de cacau e mandioca.

“No primeiro ano, nós tivemos 255 casos, que se concentraram em distritos rurais, com pequenos povoados, todos localizados na região Serrana do Ceará, conhecida como Maciço de Baturité. Em 2025, quando a doença retornou, ocorreu algo diferente que foi uma transição da doença para a principal cidade da região, que é Baturité. Onde, ao invés de você ter 500 moradores, você tem 20.000 pessoas”, complementa.

O Ceará também está investindo em ações de manejo clínico e vigilância laboratorial para diagnosticar corretamente a doença, especialmente em gestantes. O estado registrou a morte de um feto após a infecção da mãe por Oropouche. No ano passado, pelo menos cinco casos de óbito fetal e um caso de anomalia congênita foram registrados no Brasil, causados pelo vírus.

Antonio Lima Neto ressalta a dificuldade do controle vetorial do maruim. Enquanto no caso do Aedes Aegypti a eliminação de criadouros é central (como renovar a água e cuidar do lixo doméstico), para o mosquito-pólvora seria necessário criar uma barreira química entre as plantações e as áreas habitadas. O Ministério da Saúde tem realizado testes em busca de produtos eficientes, mas essa não é uma tarefa trivial.