A ministra do STJ Nancy Andrighi participa do 4º Brazilian Summit, em Bra´sília. (Foto: Divulgação)

ASSISTA A FALA DA MINISTRA

A ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Fátima Nancy Andrighi, defendeu nesta terça-feira (11), em Brasília, a igualdade de gênero como fundamento ético e espiritual para a construção de uma sociedade mais justa.

Em discurso durante o 4º Brazilian Summit, promovido pelo Grupo LIDE, ela compartilhou reflexões sobre sua trajetória na magistratura, os desafios enfrentados pelas mulheres e a urgência de transformar padrões culturais que perpetuam a desigualdade.

“Tenho 73 anos. Completarei no próximo ano 50 anos de magistratura”, afirmou. “Fui a segunda mulher a ser juíza no meu estado natal, Rio Grande do Sul. Repeti o concurso da magistratura e comecei novamente no Distrito Federal, onde cheguei a ser desembargadora e depois ministra nos tribunais superiores. Sou a mulher mais longeva na magistratura dos tribunais superiores.”

A ministra destacou a importância do contato com a realidade social para o exercício da função jurisdicional. “Para um juiz, o conhecimento da sociedade, daqueles que a integram, é fundamental para julgar com humanismo. Se eu não conheço, eu não sinto.”

Ao abordar a desigualdade de gênero, Andrighi fez um apelo à empatia e à transformação. “Ao criar esse espaço de destaque e dar voz às mulheres, sensibiliza as pessoas que ainda estão indiferentes à luta pela igualdade de gênero e, ao mesmo tempo, joga luzes na mente de outras mulheres para incentivar e demonstrar, na prática, que com trabalho e esforço nós podemos ir ao encontro de todos os nossos sonhos.”

Ela também compartilhou um episódio marcante de sua juventude, quando foi convidada a dar o pontapé inicial de uma partida de futebol durante uma comemoração da turma de juízes. “Ao sair do campo, uma senhora me disse: ‘Menina, o importante não é ser juiz. O importante é ser mulher de juiz’. Essa afirmação caminha comigo até hoje. É gigantescamente inadequada, especialmente por ter saído da boca de uma mulher.”

Segundo Andrighi, o preconceito pode se manifestar de forma sutil, travestido de conselhos ou expectativas sociais que desvalorizam conquistas individuais. “Foi nesse instante que entendi a urgência de desafiar padrões e estimular o protagonismo feminino, não apenas na magistratura, mas em todos os espaços de decisão.”

A ministra também abordou a influência de instituições sociais na formação de estereótipos de gênero. “Pais, família, escola, mídia e, especialmente, a religião moldam as percepções dos papéis desempenhados pelo status de gênero. Na mente das crianças, desde as primeiras experiências, essas lições produzem ações e reações que perpetuam a dominação, a discriminação e o abuso.”

Ela defendeu uma visão espiritual da igualdade: “Todos nós deveríamos ter a reta visão e a percepção espiritual da unidade da vida. Esta visão do mundo real considera todos os seres humanos iguais em status, quer seja homem, quer seja mulher, porque todos somos feitos à imagem do Criador.”

Inspirando-se na teosofista Anna Besant, Andrighi evocou uma metáfora que considera poderosa: “Um pássaro não pode voar com uma asa quebrada.” E acrescentou: “Cada ser humano corporifica tanto as energias masculinas quanto as femininas. A separatividade dos gêneros é uma grande ilusão.”

Ao final de sua fala, a ministra reforçou que o acesso das mulheres à magistratura hoje é uma realidade. “Não há no Brasil dificuldade de acesso para a mulher na magistratura. Basta estudar e ser capaz, e você vai passar no concurso.”

Ela concluiu com um chamado à ação: “Perseverar e nunca abandonar a jornada diante do obstáculo. Demonstrar a similitude da capacidade e qualidade do trabalho. Agir com arrojo, mas sempre com amorosidade e jamais com agressividade. Podemos chegar lá sem ser agressivos. E assim, voaremos alto, porque compostas as duas asas, podemos compartilhar as imensas responsabilidades da vida pública.”