
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá entre 10 e 21 de novembro em Belém, no Pará, “terá de ser a mais importante de todas as edições do evento em termos de avanços em ações efetivas para combater as mudanças climáticas”, afirmou Carlos Nobre, um dos cientistas climáticos mais respeitados do mundo.
Pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP) e copresidente do Painel Científico para a Amazônia, Nobre concedeu entrevista à Agência FAPESP na qual sublinhou a necessidade de todos os países reduzirem suas emissões de gases de efeito estufa a fim de mitigar os riscos de o aquecimento global ultrapassar 2 graus Celsius até 2050.
“Se chegarmos a 2050 com 2 graus Celsius ou, até pior, 2,5 graus Celsius de aquecimento, vamos disparar vários pontos de não retorno”, estimou o cientista. Ele alertou que, nesse cenário, a Amazônia “deixaria de funcionar como floresta e passaria a emitir mais carbono do que absorve”.
Desafios da COP30
O pesquisador não tem dúvida sobre a importância do evento no Brasil. “Não tenho dúvida de que essa terá de ser a mais importante das 30 COPs. Sem dúvida, a mais importante [até agora] foi a que aconteceu em 2015, a COP21, em Paris”, disse. Segundo ele, na COP21 “foi a primeira vez que todos os países apresentaram as suas metas voluntárias de redução das emissões, em inglês NDCs, de Nationally Determined Contributions”.
Nobre lembrou o compromisso estabelecido em 2015: “Não podemos, de jeito nenhum, deixar a temperatura global passar de 1 grau Celsius até idealmente 1,5 grau Celsius, mas não 2 graus Celsius”. Todos os países se comprometeram a reduzir 70% das emissões até 2050 e zerá-las até 2100.
O cientista citou o relatório especial do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) de 2018, que mostrou que a ultrapassagem de 1,5 grau Celsius de aumento de temperatura global “representaria um enorme risco do que nós chamamos de pontos de não retorno”. Entre os riscos estão a extinção dos recifes de corais, que pode atingir mais de 99% das espécies no próximo século, afetando 25% da biodiversidade oceânica.
A segunda conferência mais importante, segundo Nobre, foi a COP26, em 2021, em Glasgow, na Escócia, quando “todos os países concordaram em não deixar a temperatura passar de 1,5 grau Celsius”. Para isso, a ciência indicava a necessidade de “reduzir 43% das emissões até 2030 em relação às emissões de 2019 e zerar o saldo de emissões líquidas até 2050”.
O cientista criticou a situação atual: “As emissões mais altas foram em 2024. Este ano não se sabe se elas vão pelo menos estabilizar. No primeiro semestre ainda continuaram altas e temos de esperar terminar o ano, mas parece muito difícil reduzir 43% as emissões até 2030”. Ele alertou que, com as metas atuais dos países, “o risco de passarmos de 2 graus Celsius em 2050 até chegar a 2,5 graus Celsius é altíssimo”.
Nobre enfatizou o papel da conferência brasileira: “Portanto, na minha opinião, a COP30, mesmo sem a presença dos Estados Unidos – que de 1850 até o presente é o que mais emitiu, com 20% de todas as emissões de gás de efeito estufa, e hoje são o segundo, atrás da China, que é o primeiro –, tem que ser, assim como foi a COP21, com o Acordo de Paris, e depois a COP26, a COP mais importante”.
Ele ressaltou que “todos os países, ainda que os Estados Unidos não estejam dentro, têm de acelerar demais a redução das emissões. É um enorme desafio”. Nobre criticou a China, que “colocou pequenas metas de redução até 2035. Precisa acelerar demais. Hoje é o país que mais emite, junto com a Índia”. Sobre os EUA, ele disse que “têm de esperar que o próximo presidente mude essa política”.
Riscos de não retorno
Carlos Nobre detalhou os riscos de não conter o aquecimento. “Se chegarmos em 2050 com 2 graus Celsius ou, até pior, 2,5 graus Celsius de aquecimento, vamos disparar vários pontos de não retorno. A ciência hoje já conhece mais de 20 pontos de não retorno”, disse.
Ele listou as consequências:
- Grande extinção de recifes de corais e espécies oceânicas e dos continentes.
- Descongelamento do permafrost (solo congelado) na Sibéria, norte do Canadá e Alasca, liberando metano, que é 28 a 30 vezes mais poderoso para reter o calor. Nobre estima que “mais de 200 bilhões de toneladas desses gases do permafrost vão ser lançados na atmosfera” até 2100.
- Aceleração do derretimento da Groenlândia e parte da Antártica Ocidental, elevando o nível do mar.
- Perda da Amazônia, que pode deixar de ser floresta.
“Então a COP30 tem de ser tão importante quanto foi a COP21, com o Acordo de Paris, depois a COP26”, concluiu.
Fundo verde e adaptação
Para o cientista, a solução passa por um novo acordo: “Todos os países têm que concordar em acelerar muito a redução das emissões e ao mesmo tempo, como foi colocado na COP29 […] que é a necessidade da aprovação do fundo verde para o clima”.
O fundo, que era de US$ 100 bilhões até 2025, precisa ser “de US$ 1,3 trilhão, sendo cerca de US$ 800 bilhões por ano até 2035 para dar uma superacelerada na transição energética”. Nobre defendeu as energias renováveis: “Solar e eólica já são muito mais baratas”.
Ele citou a poluição urbana por combustíveis fósseis como causa de “6 a 7 milhões de mortes por ano”. No Brasil, citou o professor Paulo Saldiva (USP), que “há décadas faz estudos e já mapeou a expectativa de vida do paulistano e da região metropolitana toda de São Paulo, que é dois a quatro anos menor por causa da poluição”.
O valor restante, de “mais uns US$ 500 bilhões por ano”, seria para “melhorar demais a capacidade de adaptação”. O cientista lembrou que “nós temos mais de 2 bilhões de habitantes do mundo totalmente vulneráveis a esses eventos extremos, às ondas de calor, às secas, aos incêndios florestais, às superchuvas e inundações, alagamentos, deslizamentos na costa”.
Risco no Brasil
O Brasil, segundo Nobre, não está imune. “Aqui no Brasil nós temos milhões e milhões de brasileiros que moram em áreas de risco de chuvas intensas, como aconteceu no Rio Grande do Sul no ano passado”. Ele citou um estudo que aponta “mais de 500 mil pessoas hoje morando em áreas de risco de alagamento, inundação e deslizamentos na costa” no estado. “No Brasil esse número certamente é mais do que 4 milhões”, disse. O Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) aponta “mais de 2 milhões de brasileiros em altíssimo risco”.
Ele alertou que “o evento extremo que mais causa mortes não são as chuvas intensas, mas as ondas de calor”, com estudos que indicam “mais de 500 mil mortes por ano em todo o mundo”. Ele defendeu a adaptação, citando o exemplo de Barcelona e a importância da “restauração florestal urbana. Quando se plantam muitas árvores, você diminui a temperatura máxima até alguns graus, por exemplo, na Grande São Paulo – ou até mais de 5 graus Celsius”.
Pioneirismo do LBA
Carlos Nobre, primeiro coordenador científico do Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera da Amazônia (LBA), avalia que a iniciativa representou “o maior projeto científico em floresta tropical no mundo e inaugurou uma era de implantação de grandes experimentos e infraestruturas de pesquisa multiusuários na floresta amazônica”.
“Eu tinha passado um ano na Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e conheci vários pesquisadores”, lembrou o cientista sobre a gênese do LBA. A primeira reunião para discutir a importância de um experimento de grande escala na Amazônia foi em novembro de 1993. O experimento começou a funcionar “de fato, em janeiro de 1999”.
O LBA foi o que “mais mostrou isso”, disse Nobre, referindo-se à proximidade do ponto de não retorno. Ele citou pesquisas que indicaram que, em toda a região sul da Amazônia, “a estação seca já está quatro a cinco semanas mais longa do que era há 40, 45 anos”. O experimento, que chegou a ter 25 locais de medição com torres, “mostrou uma coisa muito preocupante” por meio de um artigo publicado na revista Nature em 2021: “No sudeste da Amazônia, sul do Pará e norte de Mato Grosso a floresta já virou fonte de carbono”.
Segundo o cientista, “na década de 1990, a Amazônia removia até 1,5 bilhão de toneladas por ano. Diminuiu demais. A Amazônia perdeu essa capacidade, remove muito menos, algumas centenas de milhões de toneladas hoje”. O LBA também apontou “um enorme aumento da mortalidade de árvores em grande parte da Amazônia”.
Nobre enfatizou: “O LBA foi o que, de certo modo, mostrou que nós estamos muito próximos do ponto de não retorno”. O experimento também foi crucial para a formação de mais de 1.500 mestres e doutores e a publicação de mais de 2.500 artigos científicos.
Sobre as parcerias, ele lamentou: “Os parceiros do experimento LBA já estão sentindo o custo da quebra de orçamento que várias universidades e instituições tiveram. Os Estados Unidos foram o país que mais colaborou cientificamente e também com o apoio financeiro, participação de pesquisadores e na parte de infraestrutura”.
Assista aqui a íntegra da entrevista do cientista Carlos Nobre:

