Extensa área de produção de soja para exportação, em região de cerrado no centro oeste do Brasil. (Foto: Greenpeace)


O Cerrado, segundo maior bioma brasileiro e berço de nascentes que abastecem oito das doze regiões hidrográficas do país, perdeu 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2024.

A área devastada é equivalente ao território de dois estados do Paraná e supera o território da Espanha (50,6 milhões de hectares).

A destruição representa 28% da cobertura original do bioma e coloca o Cerrado como o mais desmatado do Brasil em 2024, concentrando 52,5% da supressão registrada nacionalmente.

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Os dados são da Coleção 10 do MapBiomas, iniciativa que reúne mais de 70 instituições, entre elas o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). O levantamento, divulgado nesta quarta-feira (1º), traça um panorama de quatro décadas de mudanças no uso e cobertura da terra no Brasil.

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Transformações profundas e aceleradas

A agricultura foi o vetor de ocupação que mais cresceu no Cerrado: 22,1 milhões de hectares a mais em 40 anos, um salto de 533% em relação a 1985. A pastagem aumentou 14,7 milhões de hectares (44%) e a silvicultura, 2,7 milhões (446%).

Todos os tipos de vegetação nativa sofreram retração, com destaque para a formação savânica, que perdeu 26,1 milhões de hectares — uma redução de 32%.

“A perda de vegetação nativa compromete diretamente a resiliência do Cerrado e suas populações frente às mudanças climáticas, agravando cenários de seca e intensificando a pressão por recursos hídricos, comprometendo a própria produção agrícola do bioma e do país no longo prazo”, alerta Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM.

Matopiba: epicentro da devastação

A região conhecida como Matopiba — formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — concentrou 39% da perda líquida de vegetação nativa desde 1985, o equivalente a 15,7 milhões de hectares. Na última década, 73% de toda a devastação do bioma ocorreu nesse território. A área agrícola na região cresceu 24 vezes em 40 anos, com aumento de 5,5 milhões de hectares.

“Esse período marca a consolidação do Matopiba como uma das maiores e mais velozes frentes de desmatamento e expansão agrícola do planeta. É uma região altamente sensível, por carecer de áreas protegidas e abrigar os maiores remanescentes contínuos de vegetação nativa do bioma”, afirma Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM.

Cidades transformadas

Em 1985, 37% dos municípios do Cerrado tinham mais de 80% de vegetação preservada. Em 2024, esse índice caiu para 16%. No mesmo intervalo, a proporção de cidades dominadas pela agropecuária subiu de 42% para 58%. Hoje, um em cada quatro municípios do bioma tem menos de 20% de cobertura nativa.

Décadas de conversão e intensificação

1985–1994: maior desmatamento registrado, com perda de 15,3 milhões de hectares. A conversão foi liderada pela expansão da pastagem (13,2 milhões), especialmente no centro-sul do bioma.
1995–2004: desaceleração da perda (10 milhões de hectares), com avanço da agricultura no Matopiba e queda histórica na superfície de água em 2001.
2005–2014: menor perda de vegetação (5,9 milhões), mas pico de intensificação agrícola. No centro-sul, 3,9 milhões de hectares de pastagem foram convertidos em lavouras.
2015–2024: retomada do desmatamento, com 6,4 milhões de hectares suprimidos. A conversão para pastagem seguiu predominante (4,9 milhões), enquanto a agricultura ocupou 598 mil hectares diretamente da vegetação nativa.

Ao longo de quatro décadas, o Cerrado passou por significativas transformações no uso da terra. Até 1995, a expansão da pecuária foi a principal força de conversão, enquanto a partir dos anos