Dr. Marcon Censoni


Dr. Marcon Censoni de Ávila e Lima*

Nos últimos anos, a ideia de “hospital inteligente” passou da teoria para a prática em alguns dos maiores centros do mundo.

O ranking World’s Best Smart Hospitals, da Newsweek e Statista, mostra como instituições em Abu Dhabi, Dubai e Estados Unidos estão incorporando tecnologias que vão muito além da automação: trata-se de redes digitais que integram inteligência artificial, robótica, gêmeos digitais, monitoramento remoto, farmacologia de precisão e até novas formas de gestão de fluxo hospitalar.

Continua depois da publicidade

Como cirurgião gestor e especialista em transformação digital na saúde, observo essas transformações em paralelo à minha prática clínica diária.

Comparar o que já é realidade lá fora com os desafios que encontro nos hospitais brasileiros é uma forma clara de entender onde podemos avançar de forma imediata.

Abu Dhabi: precisão clínica e automação farmacêutica
No Cleveland Clinic Abu Dhabi, algumas soluções chamam atenção pelo impacto direto no cuidado. A radioterapia adaptativa, que ajusta a dose a cada sessão, já se tornou rotina.

Em oncologia, isso significa personalização diária do tratamento, reduzindo efeitos colaterais e aumentando a eficácia.

O hospital também incorporou sistemas de inteligência artificial para o rastreamento do câncer de mama, com o software

Transpara, que atua como segunda leitura automática para mamografias.

Outras soluções já implementadas incluem:

  • Farmácia automatizada e robótica, que prepara quimioterápicos sob medida, reduzindo falhas humanas.
  • Sistemas de imagem em tempo real para AVC, como o ARTIS Icono, que aceleram decisões críticas.
  • Cirurgia robótica de alta complexidade, usada em diversas especialidades, ampliando a precisão de procedimentos.
  • Plataformas de telessaúde integradas, que permitem continuidade de cuidado após a alta hospitalar.

Na minha prática, sei quanto tempo e energia uma equipe gasta para revisar doses de quimioterapia ou repetir imagens antes de cirurgias. Automatizar etapas críticas, como já fazem em Abu Dhabi, representa não apenas eficiência, mas também mais segurança para o paciente.

A Cleveland Clinic Abu Dhabi trouxe inovação médica à região. (Foto: Divulgação)


Dubai: gêmeos digitais, sensores e portais de paciente

Dubai segue outro caminho, centrado em dados integrados e experiência do usuário. O American Hospital Dubai lidera com o GenetiQ Digital Twin, que cria gêmeos digitais a partir de genômica, proteômica, microbioma e dados clínicos. Essa tecnologia permite simular cenários clínicos e escolher terapias mais personalizadas.

Além disso, já estão em uso:

  • Sensores vestíveis conectados ao hospital, que monitoram sinais vitais em tempo real.
  • Portais digitais para pacientes, que concentram agendamentos, resultados e orientações de forma acessível.
  • Laboratórios de inovação com IA, que desenvolvem algoritmos para prever risco de mortalidade, admissão em UTI ou falha terapêutica.
  • Robôs cirúrgicos assistidos por IA, aplicados em procedimentos ortopédicos e urológicos.

Na rotina com pacientes obesos, percebo a dificuldade de reunir dados fragmentados. Em Dubai, tudo é centralizado: exames, sensores, informações de microbioma e até histórico de medicação. Isso encurta o tempo entre diagnóstico e decisão.

Estados Unidos: robôs logísticos, hospitais virtuais e comando central

Nos Estados Unidos, a inovação aparece de forma prática e escalável.

Hospitais como a Mayo Clinic e o Houston Methodist aplicam IA em exames de imagem e modelos de predição clínica. Mas o que impressiona é o avanço na organização operacional.

Entre as soluções em uso:

  • Robôs logísticos (Moxi), já implantados em dezenas de hospitais, para transporte de medicamentos e amostras.
  • Hospitais virtuais (Mercy Virtual), que monitoram pacientes 24 horas sem necessidade de leitos físicos.
  • Centros de comando integrados, que funcionam como “torres de controle” do hospital, monitorando ocupação de leitos, tempo de espera, uso de equipamentos e fluxo de pacientes em tempo real.
  • Prontuários eletrônicos interoperáveis, que conversam entre diferentes unidades, permitindo continuidade do cuidado em redes hospitalares extensas.
  • Ferramentas de triagem com IA, que ajudam a priorizar atendimentos em emergências superlotadas.

Em minha prática, já vivi de perto o impacto da falta de integração entre sistemas de informação.
Em hospitais americanos, esse problema é mitigado pela interoperabilidade e por centros de comando que acompanham cada movimento do paciente.

O que já poderia ser adotado aqui

Os três cenários trazem caminhos distintos, mas complementares. Abu Dhabi aposta em tecnologia clínica de alta complexidade, Dubai em dados integrados e gêmeos digitais, e os EUA em automação e eficiência em larga escala.

Na minha rotina, vejo pacientes oncológicos que se beneficiariam da radioterapia adaptativa.

Vejo pacientes obesos para os quais o gêmeo digital traria clareza no tratamento. E vejo equipes de enfermagem que ganhariam tempo com robôs logísticos.

Hospitais inteligentes não são projeção futurista.

São uma realidade que já salva vidas e melhora a experiência de pacientes e equipes.

A questão é se vamos observar de longe ou se teremos a coragem de incorporar — e rápido — essas soluções em nosso sistema.

Afinal, o objetivo é salvar vidas.

*Marcon Censoni A. Lima é médico há 26 anos, cirurgião oncológico e do aparelho digestivo e cirurgia robótica; tem MBA em Gestão Executiva em Saúde, é especialista em transformação digital na saúde – Harvard Medical School.