A partir desta quinta-feira (1º), as obras de Thomas Mann entram em domínio público no Brasil e na Europa. Setenta anos após sua morte, em 1955, cai a exclusividade das editoras sobre seus livros. Isso significa que qualquer casa publicadora poderá reeditar, traduzir e difundir títulos como Os Buddenbrooks, A Montanha Mágica, Doutor Fausto e A Morte em Veneza sem necessidade de autorização ou pagamento de royalties.

Na prática, isso significa que qualquer editora pode publicar obras até então protegidas por direitos autorais, sem necessidade de autorização prévia ou pagamento de royalties. Em 2026, ficam liberadas as obras de autores que morreram em 1955.

A Companhia das Letras tem onze títulos de Mann publicados no Brasil. Os seus grandes romances incluem Os Buddenbrook, que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1929, A Montanha Mágica e Doutor Fausto.

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Considerado um dos mais importantes escritores alemães do século 20, o autor nasceu em Lübeck, na Alemanha, em 1875, filho de uma teuto-brasileira. Ele viveria tempos de turbulência política — marcados pelas duas Guerras Mundiais, o nazismo e o Holocausto —, que transparecem na sua obra.

Vida burguesa e pré-guerras

Em Os Buddenbrook (1901), que elevou a literatura alemã ao pódio internacional, ele conta a história de quatro gerações de uma família de comerciantes do norte da Alemanha. Já no seu primeiro romance, ele se mostrou um observador atento da vida da burguesia alemã, em grande parte inspirado na própria família e na cidade natal.

Duas décadas mais tarde, A Montanha Mágica se tornaria um clássico da literatura. Publicado em 1924, o romance antiguerra relata a história de um personagem que passa sete anos num sanatório para tuberculosos nos Alpes suíços, onde se depara com alguns dos dramas anteriores à Primeira Guerra Mundial, como uma sociedade dividida, medos existenciais, doença, morte e o fantasma da guerra.

Muito antes de a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) bater à porta da Europa, o escritor pareceu farejar o perigo. Mal Adolf Hitler assumiu, Mann deixou a Alemanha. Ele havia se posicionado contra os nazistas e, em 1930, três anos antes de Hitler ascender ao poder, fizera um apelo inflamado contra o nazismo e em defesa da social-democracia.

Os nazistas o despojariam da cidadania alemã, revogariam-lhe o título de Doutor Honoris Causa concedido pela Universidade de Bonn e roubariam parte do seu patrimônio.

“Tudo precisa ser pago”

Em 1938, o autor e sua esposa migraram para os Estados Unidos, e Mann assumiu o cargo de professor convidado na Universidade de Princeton, em Nova Jersey. Indagado por um repórter sobre se considerava o exílio um fardo, respondeu: “Onde eu estiver, será a Alemanha. Levo minha cultura comigo e não me vejo como alguém decadente.”

A partir de 1940, Thomas Mann passou a convocar os alemães a resistir ao nazismo. Depois que o armistício finalmente veio, ele lançou a carta Por que não volto à Alemanha (1945), em que responsabiliza todo o povo alemão pelos horrores da era nazista.

“Tudo precisa ser pago”, escreveu Mann ao comentar o bombardeio de cidades alemãs. Críticos reagiram negando-lhe o direito de, como exilado, fazer julgamentos sobre o que foi a vida sob Hitler.

Sua obra literária também incomodou. Um exemplo é o romance Doutor Fausto (1947), sobre um compositor que faz um pacto com o diabo. Alegoria da Alemanha hitlerista, o livro é um acerto de contas do escritor com um país que permitiu a ascensão do nazismo e renunciou à própria humanidade.

Acusado de simpatizar com um partido comunista e de se envolver em conspirações antiamericanas, Mann deixou os EUA em 1952 e viajou à Suíça, onde se estabeleceu até sua morte, em 12 de agosto de 1955, aos 80 anos.

Outros títulos do autor incluem A Morte em Veneza, O eleito, Confissões do impostor Felix Krull, José e seus irmãos, Mário e o mágico, Sua alteza real, Contos, As cabeças trocadas e Tonio Kröger.

A partir desta quinta-feira (1º), as obras de Thomas Mann entram em domínio público no Brasil e na Europa. Setenta anos após sua morte, em 1955, cai a exclusividade das editoras sobre seus livros. Isso significa que qualquer casa publicadora poderá reeditar, traduzir e difundir títulos como Os Buddenbrooks, A Montanha Mágica, Doutor Fausto e A Morte em Veneza sem necessidade de autorização ou pagamento de royalties.

“É um momento histórico para a literatura mundial”, afirmam críticos. “A obra de Mann, que já era patrimônio da humanidade, agora se torna ainda mais acessível.”

O que muda

Com o fim da proteção autoral, editoras independentes poderão lançar coleções completas, universidades terão liberdade para incluir seus textos em materiais de estudo e novas traduções poderão surgir. “A democratização do acesso é fundamental para que novas gerações conheçam a profundidade da obra de Mann”, explica um estudioso.

A importância de Mann

Nascido em Lübeck, em 1875, Thomas Mann era filho de Júlia da Silva Bruhns, brasileira de Paraty. Ele nunca deixou de destacar essa origem. Em entrevista ao escritor Sérgio Buarque de Holanda, em 1929, afirmou: “Minha mãe era brasileira… creio que a essa origem latina e brasileira devo certa clareza de estilo.”

Mann costumava referir-se ao Brasil como sua “Mutterland” (Terra Mátria), em contraste com a Alemanha, sua “Vaterland” (Terra Pátria). “Levo comigo essa dupla herança, alemã e latina, que me formou como escritor”, disse certa vez.

Um Nobel perseguido

Em 1929, Mann recebeu o Prêmio Nobel de Literatura por Os Buddenbrooks, romance que narra quatro gerações de uma família burguesa. Sua obra, porém, não se limitou à vida doméstica: antecipou os traumas das guerras mundiais e denunciou os perigos do totalitarismo.

Já em 1930, três anos antes da ascensão de Hitler, fez um apelo inflamado contra o nazismo e em defesa da social-democracia. “O futuro da Alemanha não pode ser entregue a ideologias de ódio”, declarou.

Perseguido, perdeu a cidadania alemã e parte de seu patrimônio. Em 1938, exilou-se nos Estados Unidos, onde lecionou em Princeton. Indagado por um repórter sobre se considerava o exílio um fardo, respondeu: “Onde eu estiver, será a Alemanha. Levo minha cultura comigo e não me vejo como alguém decadente.”

A obra e a crítica

Em A Montanha Mágica (1924), Mann retratou os dilemas existenciais de uma Europa às vésperas da Primeira Guerra. Em Doutor Fausto (1947), construiu uma alegoria da Alemanha hitlerista, por meio da história de um compositor que pactua com o diabo. “Esse pacto é a metáfora de um país que renunciou à própria humanidade”, escreveu.

Após 1940, convocou os alemães à resistência. Em 1945, publicou a carta Por que não volto à Alemanha, responsabilizando todo o povo pelos horrores do nazismo. “Tudo precisa ser pago”, afirmou ao comentar o bombardeio das cidades alemãs.

Críticos reagiram, negando-lhe o direito de, como exilado, julgar a vida sob Hitler. Mas Mann manteve sua posição: “Não volto porque não posso esquecer. A literatura é também memória.”

Legado universal

Além dos títulos já citados, sua produção inclui José e seus irmãos, Mário e o mágico, Sua alteza real, Tonio Kröger e Confissões do impostor Felix Krull. Mann morreu em 1955, aos 80 anos, na Suíça.

Sua obra, agora livre de barreiras editoriais, reafirma-se como patrimônio cultural da humanidade — um convite permanente à leitura e à reflexão sobre os limites da civilização diante da barbárie. “Thomas Mann nos ensinou que a literatura é também consciência histórica”, resume um estudioso.

Quem foi Thomas Mann, o homem por trás da obra e o escritor que marcou a literatura mundial

Casa onde viveu Thomas Mann, na Alemanha. (Reprodução)

Thomas Mann é um dos escritores mais complexos e influentes da literatura moderna. Nascido em 1875, em Lübeck, filho de um comerciante alemão e de uma mãe brasileira, sua obra reflete tanto a herança burguesa quanto uma sensibilidade cosmopolita. Essa dupla origem lhe conferiu uma clareza estilística que ele próprio atribuía ao “sangue brasileiro”, diferenciando-o de seus contemporâneos germânicos.

Sua estreia monumental com Os Buddenbrook (1901) já revelava a capacidade de narrar a decadência da burguesia alemã, expondo contradições sociais e psicológicas. Mann soube articular o realismo herdado do século XIX com a psicanálise freudiana, criando personagens que encarnam tensões entre desejo e repressão. Essa crítica à sociedade burguesa se intensificaria em obras como A Montanha Mágica (1924), onde o sanatório simboliza a Europa enferma às vésperas da guerra.

O homoerotismo latente em sua literatura, visível em Morte em Veneza (1912), revela como o autor vivia entre a rigidez das aparências e desejos reprimidos. Essa dimensão íntima não reduz sua obra, mas amplia sua profundidade, mostrando como a crise da identidade individual se conecta à crise da cultura europeia.

Politicamente, Mann percorreu um arco notável: de simpatizante do nacionalismo alemão na Primeira Guerra Mundial a crítico feroz do nazismo. Seus discursos transmitidos pela BBC, sob o título Ouvintes Alemães!, foram armas simbólicas contra Hitler. Ele compreendeu que o totalitarismo não se sustentava apenas em economia ou política, mas na manipulação mítica e religiosa da realidade. Por isso, sua literatura atacava a espinha dorsal da ideologia fascista: a criação de uma “realidade paralela”.

O exílio marcou sua vida adulta. Expulso da pátria, Mann se tornou cidadão do mundo, defendendo valores cosmopolitas e humanistas. Em Doutor Fausto (1947), retratou a decadência cultural alemã como um pacto demoníaco com Hitler, reafirmando sua visão de que a arte deve confrontar a barbárie.

Na velhice, Mann voltou-se às narrativas bíblicas em José e Seus Irmãos, humanizando mitos para combater o uso político da religião pelo totalitarismo. Essa fase tardia mostra sua energia renovada e engajamento contra a manipulação simbólica da história.

Em síntese, Thomas Mann foi um escritor burguês que transcendeu sua classe. Sua obra não apenas descreveu a sociedade, mas desnudou seus mecanismos de poder e ilusão. Ao atacar a construção mítica da realidade, Mann ofereceu à literatura uma função ética: a defesa da paz e da humanidade contra a violência. Setenta anos após sua morte, sua voz continua atual, lembrando-nos que a luta contra o totalitarismo é, sobretudo, uma batalha pelo sentido da realidade.