Parentes de mortos à espera da liberação dos corpos no IML. (Foto: EBC)


A Polícia Civil do Rio de Janeiro afirmou nesta que não retirou dezenas de corpos deixados na mata da Serra da Misericórdia, no Complexo da Penha, porque “não sabia da existência” deles.

A declaração veio após moradores da comunidade denunciarem o abandono dos cadáveres e organizarem, por conta própria, o resgate de ao menos 70 corpos, levados até a Praça São Lucas.

A operação, realizada no último dia 28, terminou com 121 mortos — incluindo quatro policiais — e é considerada a mais letal da história do estado.

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A ação mobilizou centenas de agentes e teve como alvo o Comando Vermelho, facção que domina o tráfico na região.

Os confrontos mais intensos ocorreram em áreas de mata fechada, onde, segundo relatos de moradores, os corpos permaneceram por mais de 24 horas sem qualquer isolamento ou perícia.

Em nota oficial, a Polícia Civil alegou que “não tinha conhecimento da presença de corpos na mata” e que, por isso, não realizou o isolamento da área nem acionou o Instituto Médico Legal (IML) para remoção.

A corporação também afirmou que os moradores que transportaram os corpos serão investigados por “fraude processual”, sob a justificativa de que a manipulação dos cadáveres pode ter comprometido provas e dificultado a apuração dos fatos.

A resposta gerou indignação entre familiares das vítimas e entidades de direitos humanos. “É inaceitável que o Estado alegue ignorância diante de dezenas de corpos deixados ao relento. A omissão é institucional”, disse um defensor público que acompanha o caso, mas pediu para não ser citado nominalmente.

A Defensoria Pública do Estado acompanha o processo de identificação no IML e cobra transparência nas investigações.

A Secretaria de Segurança Pública afirmou que a operação foi “necessária” e que os mortos eram “criminosos armados”, embora ainda não tenha apresentado laudos periciais ou registros de antecedentes criminais da maioria das vítimas.

Enquanto isso, imagens de moradores carregando corpos em carrinhos de mão e cobertores circularam pelas redes sociais, provocando comoção nacional e internacional. Organizações como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional pediram investigações independentes sobre possíveis abusos cometidos durante a operação.

A ausência de perícia imediata e o abandono dos corpos levantam questionamentos sobre o protocolo adotado pelas forças de segurança.

Especialistas em segurança pública alertam que a preservação da cena do crime é fundamental para garantir a legalidade das ações policiais e a responsabilização em casos de excessos.

A Polícia Militar, que coordenou a operação junto com a Polícia Civil e a Força Nacional, ainda não se pronunciou sobre a logística de retirada dos corpos nem sobre a ausência de isolamento da área.