da Redação
24 maio 2026
Moisés Rabinovici*
Enquanto os judeus celebravam a entrega dos Dez Mandamentos a Moisés, no Monte Sinai, há 3.472 anos, surgiu em Israel um 11º mandamento, decretado por quem se considera um deus: “Netanyahu fará o que eu disser para ele fazer”.
O novo mandamento do presidente Donald Trump está sendo cumprido. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aceitou em silêncio o Memorando de Entendimento negociado entre Estados Unidos e Irã, com mediação do Paquistão, apoio da China e participação de Turquia, Egito, Arábia Saudita e Catar — e sem Israel à mesa.
Há várias versões do Memorando circulando, mas nenhuma oficial. A mais confiável, até agora, é a do jornalista israelense Barak Ravid, que falou por telefone com Trump neste domingo. Pelos termos discutidos, haverá mais 60 dias de cessar-fogo. O Estreito de Ormuz será reaberto, sem minas e sem pedágio. Em troca, os EUA suspenderão o bloqueio aos portos iranianos e permitirão a retomada das exportações de petróleo.
E o estoque iraniano de urânio enriquecido? E os limites aos mísseis balísticos? E a ligação do Irã com Hezbollah e Houthis? Questões tratadas até agora como essenciais foram empurradas para negociações futuras, durante os dois meses adicionais de trégua. O acordo preliminar poderá ser anunciado a partir de hoje.
Fontes citadas por Ravid afirmam que o Irã deu garantias verbais de que suspenderá o enriquecimento de urânio. Parte dos 110 bilhões de dólares em fundos iranianos congelados poderá ser liberada, dependendo da evolução das negociações. O cessar-fogo também abrangeria a guerra entre Israel e Hezbollah. As forças americanas permanecerão no Golfo até um acordo definitivo — talvez mais afastadas da costa iraniana.

Ao telefone com Trump, no sábado à noite, Netanyahu argumentou que precisava manter liberdade de ação “contra todas as ameaças, em todas as arenas, inclusive o Líbano”. Dias antes, os dois haviam tido uma conversa descrita como extremamente tensa. O jornal Maariv ouviu de uma fonte do gabinete de segurança israelense que o Memorando “é muito ruim”. O Canal 12 resumiu: “Os Estados Unidos pagam à vista. O Irã pagará a prazo”.
O governo iraniano canta vitória diante de sua população e de seus aliados regionais. “O Irã recusou-se a se render às exigências maximalistas de Trump sobre seu programa nuclear e mostrou-se preparado para enfrentar os dois exércitos mais avançados do mundo”, afirmou Ellie Geranmayeh, do Conselho Europeu de Relações Exteriores.
O porta-voz iraniano Esmail Baghaei publicou nas redes sociais a imagem de um relevo arqueológico mostrando um imperador romano curvado diante de um rei persa. “Na mente romana, Roma era o centro indiscutível do mundo”, escreveu, numa referência implícita ao eixo EUA-Israel. “Os iranianos destruíram essa ilusão.”
Com o Memorando, Trump reduz a pressão econômica global provocada pela crise do petróleo e dos fertilizantes, apresenta-se como “vencedor” e tenta recuperar popularidade para as eleições de meio de mandato.
Para Netanyahu, a situação é mais delicada. Ele passou a ser acusado de transformar Israel numa “república de banana”, submetida às ordens da Casa Branca. O líder oposicionista Avigdor Liberman declarou que “Trump humilhou Israel, com a bênção de Netanyahu”.
O jornal Yedioth Ahronoth alertou para o risco de uma guerra encerrada “sem eliminar as ameaças” contra Israel.
“O Memorando é um grande problema para Israel”, comentou o Canal 12. “Ele contradiz frontalmente o que Netanyahu vinha dizendo publicamente — e até o que Trump dizia poucas horas atrás.”
Em visita à Índia, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que “houve progresso importante, embora ainda não definitivo”. Já o primeiro-ministro paquistanês Shahbaz Sharif escreveu nas redes sociais que espera receber “em breve” as delegações americana e iraniana para a assinatura do acordo.
O texto do Memorando permanece secreto. Isso permite interpretações distintas: Washington sustenta que Ormuz ficará totalmente aberto, enquanto Teerã insiste que continuará controlando a passagem dos navios e poderá voltar a fechá-la a qualquer momento. Os dois lados também divergem sobre o futuro do programa nuclear iraniano.
O senador republicano Ted Cruz, que apoiou o início da guerra em 28 de fevereiro, resumiu ontem o temor dos setores mais duros de Washington:
“Se o resultado disso tudo for um regime iraniano ainda comandado por islamistas que gritam ‘morte à América’, recebendo bilhões de dólares, capaz de enriquecer urânio e desenvolver armas nucleares, além de manter controle efetivo sobre o Estreito de Ormuz, então teremos cometido um erro desastroso.”
*Moisés Rabinovici é jornalista brasileiro com carreira marcada por atuação internacional e inovação digital. Como correspondente de imprensa, atuou em Israel, Europa e Estados Unidos.
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