Laira Vieira


Laira Vieira*

Pobres Criaturas (2023) não é uma experiência cinematográfica que se atravessa ileso. É um soco filosófico embrulhado em lantejoulas barrocas, uma fábula grotesca sobre a emancipação feminina narrada com a ousadia estética de um delírio lúcido. Yorgos Lanthimos, que já nos desconcertou com a disfunção emocional em O Lagosta e o horror simbólico de O Sacrifício do Cervo Sagrado, agora entrega um experimento ainda mais ambicioso: o nascimento de uma nova Eva em um mundo que insiste em ser Adão. A cada sequência a obra nos confronta com a pergunta incômoda: o que chamamos de progresso é avanço autêntico ou apenas a reinvenção cínica das mesmas prisões, agora perfumadas com verniz liberal?

Bella Baxter, interpretada com audácia por Emma Stone (La La Land, A Favorita), é o corpo de uma mulher que retorna à vida após uma experiência científica radical conduzida pelo excêntrico Dr. Godwin Baxter — vivido por Willem Dafoe (O Farol, O Homem Duplo). Mas o renascimento de Bella é mais do que fisiológico, é existencial. Ela volta ao mundo com uma mente infantil em desenvolvimento, e parte em uma jornada que mescla descoberta sexual, consciência política e crítica mordaz às normas sociais.

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O roteiro, adaptado do romance homônimo de Alasdair Gray por Tony McNamara (A Favorita), recusa o caminho fácil do feminismo pop. Bella explora sua liberdade de forma crua, desconcertante, e por vezes ofensiva para olhares treinados a reconhecer virtude apenas na modéstia. Ao se entregar à sexualidade com autonomia e curiosidade, ela fere um mundo construído para regular desejos, especialmente os femininos. Sua viagem com o advogado Duncan Wedderburn — interpretado por Mark Ruffalo (Spotlight, Eternos) — um homem narcisista e misógino, revela com sarcasmo a mediocridade de certos sujeitos quando confrontados com mulheres que pensam, sentem e gozam por vontade própria.

Bella Baxter, interpretada Emma Stone, é o corpo de uma mulher que retorna à vida após uma experiência científica radical. (Foto: Cena do filme)

A sexualidade aqui não é ornamento, é insurreição. Ao explorar seus limites, Bella desafia o moralismo de um tempo que finge ter superado a repressão, mas ainda exige castidade sob novas máscaras. Ainda mais subversiva é sua recusa ao trabalho, à lógica da produtividade. Em tempos de burnout glorificado, sua escolha por viver ao invés de produzir é um gesto de resistência existencial. Não se trata de hedonismo irresponsável, mas de um grito contra a colonização do tempo e do corpo. A performance de Emma Stone é um espetáculo à parte. Ela começa cartunesca, quase pueril, e termina monumental. Sua Bella é absurda e, por isso mesmo, real. Uma mulher que não finge e não se submete, e que, justamente por isso, é temida. Seu maior pecado talvez seja dizer a verdade em um mundo viciado em mentiras confortáveis. E isso basta para que seja queimada nas fogueiras invisíveis do nosso tempo.

O espelho que essa narrativa nos oferece reflete nossa própria dissimulação contemporânea. Quantas Bellas são silenciadas, medicadas, controladas e adaptadas todos os dias? O discurso atual de empoderamento, muitas vezes reduzido a marketing, se esvazia diante da experiência radical de Bella: ela não pede desculpas por ser livre. Em um mundo onde algoritmos moldam desejos e a liberdade virou fetiche comercial, Pobres Criaturas nos sacode ao mostrar que a verdadeira libertação exige ruptura, não adaptação. Como escreveu Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher: torna-se mulher.” Bella não nasce, nem renasce: ela se faz, com espanto, inteligência e prazer.

Há também uma camada metafísica que perpassa todo o filme: O que é a alma? O que constitui uma identidade? Godwin Baxter brinca de deus, mas quem realiza o milagre da existência é Bella, ao se apropriar da própria história e moldá-la com a liberdade de quem não deve nada a ninguém. A ciência aqui não é vilã, mas ferramenta de reinvenção. Em vez de castigo, o conhecimento oferece possibilidade. A ética, então, não está no experimento, mas no que se faz com a chance que ele concede.

Pobres Criaturas se impõe como manifesto disfarçado de fábula. Não há complacência nem redenção pasteurizada. Há uma mulher que se levanta, e com ela, o aviso silencioso de que o mundo não será mais o mesmo. Lanthimos não quer nos agradar; quer nos tirar do lugar, e consegue. Com essa obra corajosa, ele nos mostra que há algo mais perigoso do que a criatura que escapa de seu criador: aquela que aprende a criar a si mesma.

*Laira Vieira é Critica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.