Adam Jordan

Adam Jordan*

Na vastidão amazônica, onde o tempo se curva à eternidade das árvores e o silêncio é interrompido apenas pelo sussurro das folhas e o cântico dos pássaros, ergue-se a figura totêmica de Raoni Metuktire — não como um espectro do passado, mas como um arauto do porvir. Seu cocar, mais que ornamento, é coroa de um império vegetal em resistência. Seu verbo, mais que denúncia, é oráculo de um mundo que se esvai.

Em agosto de 2025, diante da Assembleia Geral da ONU, Raoni bradou:

“A ganância do homem está demasiada. Se continuarmos assim, não teremos ar para respirar, nem terra para viver.”

Suas palavras, proferidas em Mebêngôkre, ecoaram como um canto ancestral, convocando os povos da Terra à responsabilidade cósmica:

“Mõ kàràràre ija ija. Mô jàràre, i-kàràm me jà, i-kàràm me mêt.”
(tradução livre para o português: “A ganância do homem é grande. Se continuarmos, não teremos ar, não teremos terra.”)

São conhecidos, nos registros da língua portuguesa e nos mapas da burocracia estatal, como Kayapó — nome que lhes foi atribuído por olhares externos, distantes da pulsação da mata e do espírito da terra. Mas entre si, em sua língua viva e cerimonial, chamam-se Mebêngôkre, que significa com precisão poética: “o povo do buraco da água”. Uma expressão que não apenas nomeia, mas revela — como quem abre uma clareira — o vínculo profundo entre território e existência.

Eu, que traduzi de forma livre, permiti-me uma ressignificação. Dentro dessa cartografia simbólica, onde o buraco d’água não é ausência, mas útero da terra, brotam fontes eternas de resistência. A língua Mebêngôkre, que os brancos chamam de Kayapó, não se presta apenas ao diálogo trivial: ela é arca de mitologias, repositório de saberes primevos, alfabeto do invisível. Não cabe nas prateleiras das gramáticas ocidentais, porque não se curva à lógica da letra morta. É verbo vivo, é sopro de mundo.

Filha dileta da família Jê, do tronco Macro-Jê, essa língua se estende como rizoma ancestral, entrelaçando povos que, mesmo apartados por distâncias geográficas, compartilham uma mesma tessitura de mundo. Cada vocábulo entoado é um eco milenar, cada canto uma liturgia da floresta, onde o som não apenas comunica, mas convoca — os espíritos, os rios, os ventos, os que vieram antes.

Os indigenistas que se aproximaram desses povos com o ouvido atento e o coração desarmado — e não com a pena colonizadora — sabiam: os Mebêngôkre não são meros habitantes da Amazônia. São seus intérpretes telúricos, seus tradutores cósmicos.

Compreender a diferença entre o nome que lhes foi imposto e o nome que escolheram é mais do que um gesto de respeito: é um ato fundacional de brasilidade. Porque há muitas formas de ser Brasil — e algumas delas falam com a voz líquida das águas, com o silêncio fecundo da terra, com o tempo que não se mede em relógios, mas em ciclos sagrados.

Entre vocábulos que ondulam como folhas ao sopro do vento e cânticos que se erguem qual fumaça ritual de pajelança, os Mebêngôkre prosseguem, não apenas na persistência de sua existência, mas na dádiva de ensinar.

Já na COP30, em Belém, mesmo sem espaço oficial, Raoni insurgiu-se contra a perfuração de petróleo na Amazônia:

“Não podemos permitir que essa perfuração aconteça. Temos que ser fortes e continuar lutando.”

Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras, 2019), adverte que “a humanidade precisa parar de sonhar com a ideia de que é separada da natureza”. Raoni não apenas parafraseia essa máxima — ele a encarna. Sua presença é a própria refutação da cisão moderna entre homem e biosfera. Em O amanhã não está à venda (Companhia das Letras, 2020), Krenak aprofunda essa crítica: “O mundo não vai acabar. Quem pode acabar é a nossa experiência humana sobre ele.” Raoni, com sua voz de trovão e seu olhar de floresta, é quem sustenta esse céu.

Florestan Fernandes, em A integração do negro na sociedade de classes (Cortez, 2008), já denunciava o apartheid social e étnico que apartou os povos originários do projeto nacional. Raoni, ao contrário, não clama por inclusão nos moldes do colonizador, mas por uma refundação civilizatória. Ele é o contraponto vivo à lógica predatória do capital, o antídoto à tecnocracia desalmada.

Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro (Companhia das Letras, 1995), vislumbrou o índio como matriz civilizatória, não como resíduo. Raoni, nesse escopo, é a epifania de um Brasil profundo, anterior ao aço e ao asfalto, cuja sabedoria não se mede em PIB, mas em equilíbrio, reciprocidade e cosmovisão. “O Brasil não deu certo porque não quis ser o que era”, dizia Darcy. Raoni insiste que ainda há tempo de sê-lo.

Eduardo Bueno, em A viagem do descobrimento (Objetiva, 1998), desenterra os escombros da história oficial para revelar o genocídio fundacional. Raoni, porém, não se ancora na mágoa: ele propõe a ressignificação — não como esquecimento, mas como transmutação. Em sua fala na Cúpula dos Povos, paralela à COP30, reiterou:

“Há muito tempo, venho alertando sobre o problema que hoje enfrentamos: mudanças climáticas, guerras. Peço que continuemos a missão de defender a vida da Terra.”

O xamã do ESG global não é um emblema folclórico para adornar cúpulas internacionais. É um farol ético. Sua presença em fóruns globais não é concessão, mas imperativo. Ele não pede: adverte. Não negocia: denuncia. E, sobretudo, não se cala.

Se o século XXI almeja um contrato social renovado, que seja redigido com a seiva rubra do urucum e firmado sob o abrigo majestoso das samaumeiras. Na reinterpretação da visão cosmogônica evocada por Krenak, impõe-se a advertência de que é necessário sustentar o firmamento para que não colapse sobre nossas existências. Nesse horizonte, Raoni, com sua altivez serena e olhar de floresta, permanece como o sustentáculo que impede o desmoronamento, guardião de um equilíbrio que transcende a política e se inscreve na própria dignidade da vida.

*Adam Jordan é ensaísta e gestor de negócios ambientais sustentáveis — ESG. Mestre em Direito Constitucional Ambiental Tributário (UNIMAR, 2008, CAPES, 4). Autor de Pequeno Manual Prático de Economia Verde: Um Guia para Executivos e Empresas em Busca de Sustentabilidade Total (Amazon Books, 2023); A Revolução Silenciosa (Amazon Books, 2024); Manual da Virtude – Ética nos Negócios ESG (Amazon Books, 2025); e O Funeral das Árvores (Amazon Kindle, 2025). Para contatar o articulista: mattaresgbrasilcarbono@aol.com