Por Camila Srougi e Germano Oliveira
A reforma tributária brasileira chega em 2026 ao seu primeiro grande teste prático. O período marca o início da fase de transição para o novo sistema, que será implementado de forma plena a partir de 2027.
Para especialistas, os efeitos já são imediatos: empresas precisam rever processos, investir em tecnologia e reforçar a governança fiscal para evitar riscos de autuações e problemas de fluxo de caixa.
Em entrevista ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, o CEO do Grupo Assertif, José Guilherme Sabino, alerta que o documento central da nova era será a nota fiscal, que passa a concentrar o controle da Receita Federal sobre créditos e débitos tributários. Ele prevê insegurança jurídica até 2033, com o fim gradual dos incentivos fiscais e a futura adoção do split payment, mecanismo que retira o imposto diretamente do caixa das empresas.
O split payment é um mecanismo previsto na reforma tributária brasileira que fará com que os impostos sejam recolhidos em tempo real, diretamente no momento em que o consumidor paga por um produto ou serviço. Assim, o valor do tributo não passa mais pelo caixa da empresa, indo automaticamente para os cofres públicos.
Segundo Sabino, não é a carga tributária que ameaça a sobrevivência das companhias, mas a falta de governança, planejamento e eficiência. “Imposto não quebra empresa. O que quebra é a ausência de processo e de fluxo”, afirma.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Camila Srougi – Quando a gente fala em reforma tributária, muita gente ainda pensa em algo distante, mas 2026 já chegou e 2027 é logo ali. O que, de fato, começa a mudar na vida das empresas a partir deste ano?
José Guilherme Sabino – Bom, a partir de 2026 é o ano teste da reforma tributária, mas é o ano em que a Receita Federal vai fazer os ajustes do sistema. Isso significa que ela já está monitorando as empresas. Já monitorava, agora vai monitorar mais ainda. Para as empresas, é o ano de fazer ajustes e de fazer investimentos, porque o documento fiscal mais importante na reforma tributária, a partir de 2027, vai ser a nota fiscal. Na nota fiscal entram vários novos campos com a reforma tributária. Então, as empresas vão ter que ter um controle de estoque, um controle de compras e um controle de vendas, desde a classificação fiscal e da classificação tributária dos produtos e dos serviços, porque isso vai gerar crédito e débito. Esse controle de crédito e débito, com a reforma tributária, não vai ter mais a cumulatividade dos impostos. Isso vai gerar uma distorção para as empresas que não tiverem controle. Ou seja, imposto e tributo não quebram empresas. O que quebra empresa é a falta de governança, falta de fluxo e falta de processo.
A reforma tributária vai exigir investimentos — e já está exigindo — em tecnologia nas empresas, em ERPs, em softwares etc.. Mas o mais importante é o capital humano. Não adianta investir somente em tecnologia, porque atrás da tecnologia existe um ser humano. Mesmo com toda a tecnologia embarcada, vão surgir dúvidas, erros e, ao mesmo tempo, oportunidades. Porque se hoje a gente vive num manicômio tributário, ele vai virar um manicômio tributário ao quadrado. Até 2033, teremos que conviver com dois sistemas: o atual e o novo.
Camila Srougi – Na sua avaliação, o Brasil conseguiu, de fato, construir um modelo mais simples e previsível, ou ainda vamos conviver com insegurança e zonas cinzentas nesse período de transição?
José Guilherme Sabino – Perto do que nós temos hoje, vai ser melhor. Porém, na fase de transição, até 2033, vai ser uma insegurança e uma complicação brutal. Entraram mais de 200 novos conceitos na reforma tributária. Quando entra conceito novo em lei, gera discussão jurídica. Isso é ponto pacífico. Eu costumo dizer que essa vai ser a década de ouro dos advogados, porque haverá muitas discussões jurídicas — o que é natural. Isso gera muita dúvida e, quando surge dúvida, há aumento de demanda judicial. Isso é fato. Para nós, do Grupo Assertif, a reforma tributária, depois de 2040, terá o mesmo impacto que o Plano Real teve no Brasil: vai trazer estabilização. Mas até chegar lá, haverá insegurança, dúvidas e erros.
Isso gera insegurança não só para as empresas, porque é uma reengenharia do fisco. Não é só das empresas, é do próprio fisco. Isso vai gerar dúvidas para o fisco, para o Judiciário e para as empresas. Até tudo isso se acomodar, virar jurisprudência e todos estarem na mesma sintonia, haverá muita insegurança. Por isso, as empresas precisam estar organizadas fiscalmente.
Germano Oliveira – Essa automatização de processos precisa ser implementada, porque hoje muitas empresas operam no automático. Com o aumento da fiscalização da Receita, quem não estiver preparado vai sofrer autuações pesadas. Como fazer isso? As empresas de consultoria terão mais espaço ou as empresas precisarão investir em sistemas próprios?
José Guilherme Sabino – Na verdade, as empresas terão que investir em sistemas próprios ou contratar sistemas de terceiros. Hoje tudo é digital: Receita Federal, documentos, obrigações. A reforma tributária, com o IVA dual, tende a ter sucesso porque o sistema financeiro brasileiro é avançado tecnologicamente. Todo o sistema fiscal é baseado na nota fiscal, o que exige investimento em tecnologia ou contratação de empresas que ofereçam esse tipo de software. Para empresas de consultoria como a nossa, abre-se um novo mercado. Como gera muita insegurança e dúvidas, esse mercado acaba nos procurando.
Germano Oliveira – E quem não se preparar para esse processo pode até quebrar?
José Guilherme Sabino – Quem não começou a se preparar já está atrasado. A implementação da reforma tributária dentro de uma empresa não é da noite para o dia. Pesquisas mostram que mais de 60% dos escritórios contábeis não estão preparados para a reforma tributária. E quantas empresas estão abaixo desses escritórios? Isso é preocupante.
Algumas pessoas falam em pedir adiamento, mas não haverá adiamento. A reforma já começou a ser fundamentada. Algumas empresas criaram comitês específicos, normalmente grandes ou médias empresas. Mas muitas empresas que não analisarem seu preço, sua cadeia de fornecedores, podem quebrar. Todas as empresas largam da mesma linha de largada.
Quem se preparar melhor sai na frente do concorrente. Com o fim dos incentivos fiscais de estados e municípios, as empresas precisam verificar qual é, de fato, o seu preço. As empresas vão se tornar mais capitalistas: quem tiver eficiência econômica sobrevive, quem não tiver, não sobrevive.
Germano Oliveira – Você tem dito que esses incentivos fiscais chegam a 800 bilhões de reais e que até 2033 vão acabar para todo mundo.
José Guilherme Sabino – Acabam. Quem não se preparar para viver sem incentivo fiscal vai acabar quebrando ou terá que mudar seu sistema de operação. Se a empresa não tiver clara a formação de preço do seu produto ou serviço, vai passar por dificuldades.
Além disso, com a implementação do split payment, prevista para depois de 2027, o dinheiro do imposto não vai mais passar pelo caixa da empresa. Hoje, esse dinheiro entra no caixa, e a empresa paga depois, parcela ou até deixa de pagar. Com o split payment, esse dinheiro não passa mais pelo caixa. O fluxo de caixa que muitas empresas usam para girar o mês deixa de existir.
A empresa vai precisar matar corretamente o preço, entender sua cadeia de fornecedores e seu mercado consumidor. Caso contrário, terá dificuldades financeiras. Vai ser necessário ter um fluxo de caixa financeiro e um fluxo de caixa fiscal.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Conheça José Guilherme Sabino

José Guilherme Sabino ocupa a presidência do Grupo Assertif. Sabino tem enfatizado a importância da tecnologia aplicada à gestão tributária e financeira. Em entrevistas recentes, destacou que muitas empresas brasileiras ainda pagam impostos além do devido, o que gera perdas significativas. A atuação da Assertif, segundo ele, busca corrigir essas distorções e fortalecer o caixa das organizações.
O grupo sob seu comando expandiu sua atuação para áreas como seguros e benefícios, soluções financeiras e telemedicina, atendendo mais de 3.000 empresas em diferentes setores. “A estratégia combina especialistas técnicos e ferramentas digitais, com o objetivo de oferecer soluções precisas e sustentáveis para o mercado corporativo”, afirma.
Entre os resultados divulgados pela companhia, está a recuperação de R$ 60 milhões em créditos previdenciários para o setor financeiro.
Sabino tornou-se uma das vozes mais presentes no debate sobre reforma tributária e inovação fiscal no Brasil. Em entrevista à imprensa, defende que o uso de simuladores e mineração de dados é essencial para que empresas e municípios se preparem para os impactos das mudanças legislativas.
O que é a Assertif
Fundada em 2001, a Assertif consolidou-se no mercado de soluções voltadas para o fluxo de caixa empresarial. Com sede em São Paulo (SP) e presença nacional, a companhia se apresenta como parceira estratégica de empresas de diferentes portes e setores, oferecendo serviços que combinam tecnologia de ponta e análise detalhada de dados.
Operação e modelo de atuação
A Assertif opera a partir da mineração de dados previdenciários, fiscais e de depósitos recursais, identificando oportunidades tributárias estratégicas para empresas enquadradas no regime de Lucro Presumido e Lucro Real.
Essa metodologia exclusiva permite revisar e recuperar créditos tributários, fortalecendo o caixa das organizações e garantindo maior segurança financeira.
Além disso, a empresa desenvolveu soluções digitais como:
SmartDiscover: ferramenta que otimiza a gestão tributária, reduzindo tempo e minimizando erros.
Pay: plataforma que integra conta digital e sistemas automatizados de cobrança, ampliando a eficiência operacional.
Entre as principais áreas de atuação estão:
Recuperação de créditos tributários
Gestão de fluxo de caixa
Compliance e segurança
Tecnologia aplicada à gestão


