Noite de protestos em Teerã, com violência e mortes. (Reprodução: Redes Sociais)


O número de mortos na repressão do regime iraniano contra a maior onda de manifestações em mais de uma década atingiu a marca de 500, segundo dados divulgados neste domingo (11) pela ONG Iran Human Rights (IHR). O aumento súbito na letalidade ocorre no momento em que as autoridades de segurança intensificam o confronto físico e mantêm um apagão nacional de internet para mascarar a extensão da violência.

A organização, com sede na Noruega, estima que mais de 10.600 pessoas foram detidas desde o início dos protestos, há duas semanas. O governo do aiatolá Ali Khamenei, no entanto, não divulgou um balanço oficial de vítimas, mantendo o país sob um severo bloqueio cibernético que a organização de monitoramento Netblocks descreveu como o mais restritivo desde o levante “Mulheres, Vida, Liberdade” de 2022.

No vídeo famílias buscam pelos corpos dos parentes mortos.

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Escalada Militar

O cenário interno rapidamente transbordou para a geopolítica regional. O presidente do parlamento iraniano alertou neste domingo que qualquer intervenção dos Estados Unidos em apoio aos manifestantes resultará em ataques diretos a ativos militares e navios americanos no Golfo. A Guarda Revolucionária reforçou que a “segurança nacional é inegociável”.

Em Washington, o governo do presidente Donald Trump indicou uma postura de prontidão. “O Irã está vislumbrando a liberdade”, escreveu Trump em uma rede social, acrescentando que os EUA estão “prontos para ajudar”. Embora fontes do Pentágono neguem uma “ameaça iminente” de invasão, o Wall Street Journal relatou que discussões preliminares sobre opções militares ocorreram na Casa Branca.

Israel, principal aliado americano na região, permanece em “alerta máximo”. O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu discutiu a crise por telefone com o secretário de Estado, Marco Rubio, no sábado. A tensão evoca a breve guerra de 12 dias ocorrida em junho passado, quando forças americanas e israelenses bombardearam instalações nucleares iranianas.

O “campo de batalha” digital e físico

Apesar do bloqueio da internet, vídeos verificados pelo BBC Verify e relatos obtidos pelo Washington Post mostram cenas de guerra urbana. Em Mashhad e Teerã, manifestantes usam barricadas e fogueiras para se protegerem de disparos efetuados por forças de segurança a partir de passarelas e veículos em movimento.

  • Vítimas confirmadas: Profissionais de saúde em Teerã e Rasht relataram hospitais sobrecarregados. Só em uma unidade de Rasht, 70 corpos teriam chegado na noite de sexta-feira.
  • Retórica do Regime: O procurador-geral do Irã classificou os manifestantes como “inimigos de Deus” (moharebeh), crime que carrega a pena de morte. O líder supremo Ali Khamenei chamou os participantes de “vândalos” e acusou os EUA de orquestrarem o caos.

Crise econômica

O que começou como uma reação à inflação galopante transformou-se em um desafio direto à teocracia. Manifestantes em cidades como Shiraz e nos distritos de Gisha e Punak, em Teerã, pedem abertamente o fim do regime.

Reza Pahlavi, o filho exilado do último xá do Irã, afirmou em vídeo que o regime enfrenta uma “escassez de mercenários” e que membros das forças de segurança estariam desertando. Tais alegações, contudo, não puderam ser verificadas de forma independente devido às restrições de imprensa no país.

Reações internacionais

No Vaticano, o Papa Leão XIV expressou profunda preocupação, alertando que a falta de diálogo resultará em uma tragédia humanitária ainda maior. No Reino Unido, a ministra do Interior, Yvette Cooper, condenou o uso de força letal contra civis.

A situação permanece fluida. Com o apoio da tecnologia satelital Starlink, alguns ativistas ainda conseguem enviar imagens ao exterior, mas o risco de rastreamento pelo regime torna a comunicação um perigo adicional para aqueles que buscam expor a realidade dentro das fronteiras iranianas.