Paraquedas lançados de aviões da Jordânia levam comida aos flagelados pela guerra. (Reprodução: TV)


Caminhões que transportavam ajuda humanitária foram saqueados por uma população desesperada por comida ao cruzar a fronteira para o norte da Faixa de Gaza. O incidente ocorreu neste domingo (27), em meio a uma “pausa tática” anunciada por Israel para facilitar a distribuição de suprimentos, e sublinha a grave crise humanitária que já causou a morte de pelo menos 133 pessoas por desnutrição.

Cerca de dez veículos tentaram chegar à Cidade de Gaza, mas enfrentaram uma multidão faminta. “Muitos cercaram os caminhões. A população, que estava desesperada por um saco de farinha, saqueou os veículos”, relatou Hani Mahmoud, jornalista da Al Jazeera no local. Imagens divulgadas por agências de notícias mostram pessoas escalando os caminhões, retirando sacos e carregando os insumos nas costas, com relatos de feridos na confusão.

A preocupação com o saque é grande, uma vez que os alimentos eram destinados à cidade mais populosa do enclave. Há temores de que parte da ajuda seja desviada para o mercado paralelo e vendida a preços exorbitantes.

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Pausas e lançamentos aéreos: medidas insuficientes

As cenas de desespero coincidem com o primeiro dia da “pausa tática” de dez horas anunciada por Israel, fruto de pressão internacional. A medida visa estabelecer corredores humanitários para levar alimentos a três pontos de Gaza: Cidade de Gaza, Deir al-Balah (centro) e al-Mawasi (sul).

Paralelamente, esforços de ajuda aérea também foram intensificados, com as Forças de Defesa de Israel (IDF) divulgando vídeos de mantimentos sendo lançados de paraquedas, incluindo açúcar, enlatados e farinha. Contudo, há alertas sobre os riscos envolvidos; em 2024, um equipamento defeituoso causou a queda de insumos no mar, resultando na morte de 12 palestinos afogados.

Jordânia e Emirados Árabes Unidos (EAU) também realizaram lançamentos aéreos. No entanto, agências humanitárias reiteram que essa modalidade é insuficiente para atender à magnitude da crise. Segundo Joe Inwood, correspondente da BBC, seriam necessárias aproximadamente 160 missões aéreas apenas para fornecer uma refeição para cada uma das cerca de dois milhões de pessoas em Gaza. Organizações classificam os lançamentos aéreos como uma “distração grotesca”, considerando-os um último recurso, desnecessário dado o acesso a portos próximos como Ashdod e rotas terrestres da Jordânia.

Desnutrição em ascensão e culpabilidade

O Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, afirma que pelo menos 133 pessoas morreram de desnutrição desde o início do conflito. Apesar das alegações de Israel de que não é responsável pela catástrofe humanitária e que não impõe restrições à entrada de ajuda, tais afirmações são contestadas por aliados próximos na Europa, pela ONU e por outras agências ativas na região. As novas medidas israelenses podem ser vistas como uma admissão tácita da necessidade de fazer mais, ou um gesto para apaziguar aliados que responsabilizam Israel pela fome em Gaza.

A densidade populacional de Gaza, comparável a cidades como Filadélfia ou Detroit em termos de tamanho, torna a distribuição de ajuda um desafio logístico. Com a maioria da população agora confinada a cerca de 17% do território original na costa sul, e vivendo em barracas superlotadas, a eficácia dos lançamentos aéreos é questionável, com paletes frequentemente caindo longe das áreas mais necessitadas e o risco de desvio por elementos criminosos.

Novas infraestruturas hídricas e apelo por cessar-fogo

Em um desenvolvimento adicional, o Cogat, órgão militar israelense que supervisiona a entrada de ajuda em Gaza, anunciou a aprovação de um novo sistema de abastecimento de água entre o Egito e Gaza. A tubulação partirá de uma instalação de dessalinização no Egito até a região de Al-Mawasi, na costa de Gaza, e deverá atender cerca de 600 mil residentes, funcionando de forma independente das tubulações israelenses. A construção está prevista para começar nos próximos dias e levará algumas semanas. Além disso, uma linha elétrica entre Israel e uma planta de dessalinização em Gaza foi reconectada, visando aumentar a produção diária de água para 20.000 metros cúbicos.

O Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP) saudou as pausas nas operações militares e a criação de corredores humanitários, afirmando que há comida suficiente para alimentar toda a população de Gaza por quase três meses. No entanto, o WFP enfatiza que “um cessar-fogo acordado é a única forma de garantir que toda a população civil em Gaza receba alimentos essenciais de maneira consistente, previsível, organizada e segura”.