
Investigação feita pelo Greenpeace mostra como o produto brasileiro, obtido da destruição do meio ambiente, vira negócio lucrativo para empresas no Reino Unido
Uma investigação publicada em outubro de 2024 por Greenpeace Unearthed e o Bureau of Investigative Journalism confirma que grandes redes de supermercados e fast food do Reino Unido vendem frango alimentado com soja brasileira ligada ao desmatamento no Cerrado.
A Cargill, gigante norte-americana do agronegócio, é a principal fornecedora de soja para empresas como Tesco, Asda, Lidl, Nando’s, McDonald’s e, mais recentemente, Moy Park — maior produtora de frango do Reino Unido, controlada pela JBS USA.
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Rastreamento logístico
Investigadores rastrearam caminhões da Cargill saindo do terminal de esmagamento de soja em Liverpool até fábricas de ração da Moy Park em Lincolnshire e Derbyshire. Essas fábricas abastecem mais de 800 granjas intensivas no Reino Unido. A investigação identificou sete casos de desmatamento ligados à Cargill em quatro municípios brasileiros, totalizando 11.827 hectares entre abril de 2022 e setembro de 2023 — mais da metade em áreas de proteção permanente ou reservas legais, caracterizando desmatamento ilegal.
Volume de importação e origem da soja
Entre janeiro de 2022 e outubro de 2023, a Cargill importou 777 mil toneladas de soja brasileira para o porto de Liverpool, com outras 198 mil toneladas distribuídas por outros portos britânicos. A maior parte da soja rastreada veio do Matopiba, especialmente do município de Formosa do Rio Preto, onde o desmatamento avança sobre áreas nativas do Cerrado.
Fazendas ligadas à destruição
A Fazenda Parceiro, da SLC Agrícola — fornecedora da Cargill — continua sendo um dos epicentros da devastação. Imagens recentes mostram incêndios de grandes proporções na propriedade, que já havia sido denunciada em 2020 por desmatar mais de 50 km² em apenas três meses. Desde 2015, as fazendas da SLC somam mais de 210 km² de vegetação nativa suprimida.
Cerrado sob risco e legislação britânica
O Cerrado, que abriga 5% da biodiversidade mundial e é essencial para o equilíbrio hídrico da América do Sul, segue vulnerável. A legislação brasileira permite o desmatamento legal de até 80% das propriedades no bioma, enquanto na Amazônia o limite é de 20%. Essa brecha legal tem sido explorada por empresas como a Cargill, que afirma não comprar de áreas desmatadas ilegalmente, embora evidências apontem o contrário.
Pressão por mudanças legais no Reino Unido
As revelações ocorrem em meio ao debate sobre uma nova lei britânica que pretende proibir a importação de produtos ligados ao desmatamento ilegal. Ativistas alertam que, sem rastreabilidade até o nível da fazenda, empresas britânicas continuarão expostas a riscos legais e ambientais. “Sem legislação robusta, o setor de carnes continuará a travar uma guerra contra a natureza”, afirma o relatório da Mighty Earth.


