A exposição dos presidentes em Washington censurada e alterada por Trump.(Reprodução: Redes Sociais)


A National Portrait Gallery, em Washington, alterou o retrato e a legenda biográfica de Donald Trump em sua exposição permanente, “America’s Presidents”. A mudança ocorre após meses de pressão direta da Casa Branca e de aliados do republicano, que questionavam o conteúdo histórico exibido pelo Smithsonian Institution — o maior complexo de museus e pesquisa do mundo, mantido com verbas federais dos Estados Unidos.

A placa anterior detalhava os marcos do governo Trump, incluindo os dois processos de impeachment, a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 por seus apoiadores, a nomeação de juízes para a Suprema Corte e o desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19. O novo texto foi reduzido ao mínimo: agora exibe apenas o nome do ex-presidente e os anos de seu mandato, omitindo qualquer contexto histórico ou controvérsia.

A substituição gera um contraste visual e informativo na galeria. Enquanto presidentes como Bill Clinton mantêm legendas que citam seus pedidos impeachments, e outros como Barack Obama e George W. Bush possuem biografias detalhadas, Trump passa a ser representado de forma minimalista. A imagem também mudou: saiu uma fotografia de tom jornalístico e entrou um retrato oficial onde Trump aparece com punhos cerrados sobre a mesa do Salão Oval, em uma pose que transmite poder e confronto.

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Interferência e o conceito de liberdade

A alteração não foi um ajuste de rotina, mas o resultado de um embate ideológico. A administração Trump acusou a então diretora do museu, Kim Sajet, de ser “partidária” e promoveu uma ofensiva para retirá-la do cargo. Houve, inclusive, ameaças de retenção de verbas públicas caso o Smithsonian não revisasse conteúdos considerados “ideologicamente inadequados” pela Casa Branca.

Nesse cenário, o discurso de “liberdade” defendido pelo grupo político de Trump apresenta um paradoxo. Embora usem o termo para criticar o que chamam de “ideologia woke” (progressista) em instituições culturais, a prática revela uma tentativa de controle narrativo. A liberdade reivindicada, neste caso, é a de remover fatos históricos desfavoráveis e substituí-los por uma versão da história que atenda aos critérios e interesses do próprio biografado.

O peso do Smithsonian

A importância da National Portrait Gallery vai além da arte. O local funciona como um guardião da memória coletiva dos Estados Unidos. Por ser um órgão público, espera-se que ele narre a trajetória dos líderes do país com isenção acadêmica, documentando sucessos e crises de forma equilibrada.

Ao permitir que um governo interfira na descrição de sua própria passagem pelo poder, a instituição abre um precedente sobre a integridade do registro histórico. O apagamento de termos como “insurreição” e “impeachment” em uma exposição nacional sugere que a história oficial pode ser moldada por quem detém o poder momentâneo, afetando como as futuras gerações compreenderão os eventos políticos de 2021.