Os chilenos começaram a botar neste domingo (14/12) no segundo turno de uma eleição presidencial que opõe o candidato mais à direita desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) e uma comunista moderada, única representante de uma ampla aliança progressista. Um total de 3.379 seções eleitorais e 40.473 mesas de votação foram abertas para receber os votos dos mais de 15,6 milhões de eleitores aptos no país – onde o voto é obrigatório. O eleito sucederá o progressista Gabriel Boric.
O pleito decisivo coloca frente a frente José Antonio Kast, 59, da extrema direita, fundador do Partido Republicano (PR), e Jeannette Jara, 51, comunista moderada e candidata de uma inédita coalizão que vai do Partido Comunista à Democracia Cristã. Ultraconservador, católico e pai de nove filhos, Kast seria o primeiro presidente a chegar ao poder após ter defendido a continuidade do regime do general Pinochet no plebiscito de 1988.
De acordo com analistas e pesquisas divulgadas antes do período de restrição eleitoral, Kast entra no segundo turno como o claro favorito, com a dúvida mais concentrada na margem de sua vitória do que no resultado final. Apesar de ter ficado em segundo lugar no primeiro turno, com 23,9% dos votos, Kast reuniu apoio de figuras como o libertário de extrema direita Johannes Kaiser e a ex-prefeita Evelyn Matthei, da direita tradicional, projetando seu total para mais de 50% dos votos. Sua campanha se concentrou em questões de segurança e imigração, as principais preocupações dos chilenos, segundo os levantamentos. Kast promete deportar quase 340 mil imigrantes ilegais, em sua maioria venezuelanos, e combater o crime com dureza.
Em aparições públicas, Kast chegou a apresentar o Chile, um dos países mais seguros da região, quase como um Estado falido dominado pelo narcotráfico, enquanto evitava divulgar suas visões ultraconservadoras sobre liberdades individuais e sua defesa do regime Pinochet (cujo irmão foi ministro de destaque). O candidato também não esclareceu como pretende cortar US$ 6 bilhões (R$ 29,3 bilhões) dos gastos públicos em 18 meses, nem se libertaria ex-oficiais que cometeram crimes contra a humanidade na ditadura.
Jara, que venceu o primeiro turno com 26,9% dos votos, tem pouco espaço para ampliar sua base eleitoral e enfrenta o anticomunismo enraizado e disseminado no Chile. Ela tem se esforçado para se distanciar da impopularidade do governo Boric e alertar para os riscos da extrema direita. Em sua campanha, destacou sua liderança na aprovação de leis históricas, como o aumento do salário mínimo, a reforma da Previdência e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. Quem for eleito, e assumir o cargo em 11 de março, terá de lidar com um Parlamento dividido.
O bloco de direita e extrema direita está a apenas duas cadeiras de uma maioria no Congresso, tornando cruciais os votos do Partido Popular (PDG), de orientação populista. Desde 2006, o poder no Chile tem alternado entre esquerda e direita, e nenhum presidente reeleito passou o cargo para um sucessor da mesma orientação política. As urnas fecham às 18h, horário local (18h Brasília), e os resultados são esperados para as horas seguintes.
O que os dois candidatos prometem
A eleição presidencial do Chile se concentra em propostas antagônicas para temas prioritários, como segurança pública, imigração e modelo econômico. O ultradireitista José Antonio Kast e a comunista moderada Jeannette Jara apresentam visões de país que marcam a polarização do pleito.
Propostas de José Antonio Kast (Extrema Direita)
O candidato do Partido Republicano (PR) baseia seu plano em uma agenda de segurança rígida e liberalismo econômico com forte viés conservador.
Segurança e Imigração: Kast promete o combate ao crime organizado e ao narcotráfico, com 100 intervenções policiais nos primeiros dias de governo. Defende o controle migratório com o fechamento de fronteiras para imigrantes sem documentos, a criminalização da migração irregular, a construção de muros e a expansão de prisões. Propõe a deportação de quase 340 mil imigrantes ilegais (em sua maioria venezuelanos).
Economia: Propõe a redução de US$ 6 bilhões (R$ 29,3 bilhões) em gastos públicos nos primeiros 18 meses de governo, além de uma reforma tributária focada na redução de impostos para grandes e médias empresas. Defende o uso de Parcerias Público-Privadas (PPPs) nas áreas de saúde, educação e moradia.
Temas Sociais/Conservadores: Afirma apoiar “a vida desde a concepção até a morte natural”, indicando oposição à lei de aborto (permitida em três casos no Chile) e se opondo até à pílula do dia seguinte. Não esclareceu se libertaria ex-oficiais militares condenados por crimes contra a humanidade durante a ditadura de Pinochet.
Propostas de Jeannette Jara (Esquerda)
A candidata da coalizão progressista Unidade pelo Chile busca reorganizar as prioridades do modelo de desenvolvimento chileno, colocando o bem-estar social no centro.
Bem-Estar Social e Trabalho: Tem o compromisso de manter a reforma da Previdência e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais (leis aprovadas sob sua gestão no Ministério do Trabalho). Defende o reconhecimento e a remuneração do trabalho doméstico e de cuidado, além do projeto de creche universal, e propõe um aumento do rendimento vital para 750.000 pesos até o final de sua gestão (2029).
Segurança e Imigração: Promete “mão firme” para combater delinquência, narcotráfico e corrupção. Defende a revogação do sigilo bancário para seguir o rastro do “dinheiro sujo”. Em imigração, propõe registrar os imigrantes em situação irregular para saber “quem está no Chile”. Aqueles que não se registrarem seriam expulsos.
Economia e Estado: Defende um papel ativo do Estado na economia, atuando como articulador do investimento privado, investidor direto (gerando entidades mistas) e, pontualmente, como empresário (empresas públicas). Coloca ênfase na exploração de setores estratégicos como energia, lítio, mineração (cobre) e telecomunicações. Promete manter a dívida pública dentro dos parâmetros projetados e não propõe uma reforma tributária.


