Dormir bem não é um privilégio — é uma exigência do corpo humano. A advertência é do neurologista e especialista em sono Alan Eckeli, que deu entrevista ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, nesta quinta-feira, 18. Segundo ele, a má qualidade do sono e a privação crônica tornaram-se um problema de saúde pública no Brasil, com impactos diretos sobre o aumento de doenças crônicas, cognitivas e cardiovasculares.
No Brasil, cerca de 72% da população sofre com algum distúrbio do sono, segundo levantamento da Fiocruz feito em 2023.
Segundo Eckeli, o alerta é respaldado por dados preocupantes, já que milhões de brasileiros enfrentam distúrbios como insônia, apneia do sono, hipertensão, diabetes e até demência. Eckeli explica que estudos epidemiológicos das últimas décadas revelam uma tendência crescente desses problemas, impulsionada por um estilo de vida cada vez mais acelerado e pela irregularidade nos horários de descanso.
Para o especialista, a saúde do sono se sustenta sobre três pilares fundamentais: quantidade, qualidade e regularidade. Quando qualquer um deles é comprometido, o organismo perde sua capacidade de se restaurar adequadamente — o que afeta diretamente o desempenho físico, emocional e cognitivo.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Camila Srougi – Doutor, quando a gente olha para o Brasil de hoje, é correto dizer que as pessoas estão dormindo pior do que anos atrás? O que mudou de forma mais significativa nesse tempo?
Alan Eckeli – Comparativamente, essa afirmação está correta. A gente tem alguns estudos epidemiológicos, estudos nacionais realizados pela Unifesp, que são feitos a cada década e demonstram de maneira muito clara o aumento na frequência e na prevalência das doenças do sono, principalmente a insônia e a apneia do sono.
Esses estudos vêm sendo realizados desde as décadas de 1990, 2000, 2010 e, mais recentemente, um novo levantamento está em andamento. Claramente, a gente observa uma curva ascendente dessas condições clínicas.
Isso tem diversos motivos. A vida contemporânea que a gente vive hoje, com suas múltiplas demandas e pressões, é o principal contribuinte para alterações na quantidade, na qualidade e na regularidade do sono.
Camila Srougi – Hoje muita gente já normalizou o cansaço. Do ponto de vista médico, em que momento esse cansaço deixa de ser rotina e passa a ser um alerta? Vou usar meu próprio exemplo: eu durmo, não tenho insônia nem apneia, mas acordo todos os dias cansada. Quando isso deixa de ser normal?
Alan Eckeli – Primeiro, que bom que você procurou um médico do sono. Essa é uma especialidade relativamente nova no Brasil, com pouco mais de 10 anos, mas em franco desenvolvimento.
Sobre a sua pergunta, é fundamental entender a diferença entre cansaço, fadiga e sonolência. O cansaço e a fadiga estão relacionados à diminuição da capacidade de realizar atividades, seja por esforço físico ou mental. Já a sonolência diz respeito à propensão para o sono — ou seja, a facilidade em adormecer.
Essas condições podem coexistir. Muitas vezes o paciente chega com queixas misturadas, e o nosso papel é avaliar três grandes dimensões do sono: quantidade, qualidade e regularidade.
Primeiro: quanto essa pessoa está dormindo?
Segundo: o sono tem qualidade restauradora?
Terceiro: existe regularidade nos horários?
Não adianta dormir 7 ou 8 horas se um dia você dorme às 20h, no outro às 4h da manhã. A irregularidade, por si só, já compromete o sono.
A partir dessa avaliação, conseguimos identificar as condições clínicas e comportamentais que estão por trás dessas queixas.
Germano Oliveira – Doutor, fala-se que 72% da população brasileira sofre de distúrbios do sono. Afinal, qual é o tempo ideal de sono? Sete horas? Oito horas?
Alan Eckeli – De maneira geral, quando falamos em sono saudável, a maior parte da população se encontra numa faixa entre 7 e 8 horas por noite. Mas o tempo total de sono é individual.
Eu, por exemplo, preciso de 8 horas para funcionar bem. Algumas pessoas ficam bem com 6 ou 6 horas e meia. Outras precisam de 9, 10 ou até 11 horas.
Isso tem uma distribuição normal: a maioria das pessoas está concentrada entre 7 e 8 horas, mas existe variação. Essa necessidade é geneticamente determinada e não muda por vontade própria.
Você até pode dormir menos por alguns dias, mas se isso se prolonga, surgem prejuízos importantes: atenção, cognição, humor, ansiedade, impulsividade, aumento da fome e maior risco de doenças crônicas.
Germano Oliveira – Dormir mal pode causar doenças graves, como problemas cardiovasculares, Alzheimer e até câncer?
Alan Eckeli – Esse é talvez o ponto mais importante da nossa conversa. O sono é um fenômeno universal e essencial à vida. Alterações no sono podem reduzir a expectativa de vida e estão associadas a diversas doenças crônicas.
Dormir pouco ou mal aumenta o risco de desenvolver Alzheimer, porque o sono tem uma função de limpeza cerebral. Durante o sono, o sistema glinfático remove substâncias tóxicas do cérebro. Se isso não acontece, ocorre o acúmulo da proteína beta-amiloide, associada ao Alzheimer.
Além disso, alterações do sono aumentam o risco de AVC, infarto e arritmias cardíacas. A apneia do sono, por exemplo, causa queda de oxigênio no sangue, aumento da pressão arterial, taquicardia e acelera o processo de aterosclerose.
Doenças como hipertensão e diabetes tipo 2 também estão fortemente associadas a distúrbios do sono. Pessoas com apneia não tratada têm o dobro do risco de desenvolver hipertensão.
O sono é um pilar fundamental da saúde. Ele impacta diretamente o coração, o cérebro e, sim, até o risco de câncer.
Camila Srougi – O sono também tem um papel central na memória, no aprendizado e na tomada de decisões?
Alan Eckeli – Sem dúvida. Uma noite mal dormida compromete a atenção — e sem atenção, não há memória. Além disso, áreas como o córtex pré-frontal e o hipocampo dependem do sono para funcionar adequadamente.
Quando dormimos mal, o córtex pré-frontal reduz sua atividade. Isso compromete o planejamento, a avaliação de riscos e a tomada de decisões. É por isso que, após uma noite ruim, tomamos decisões piores.
A consolidação da memória ocorre ao longo de várias noites de sono. Se o sono é insuficiente ou de má qualidade, essa consolidação falha.
Há um estudo clássico com estudantes universitários: um grupo virou a noite estudando, outro estudou um pouco por dia durante quatro noites. Na prova imediata, os resultados foram semelhantes. Mas, cem dias depois, o grupo que dormiu bem teve desempenho muito superior.
Ou seja, para aprender de verdade e manter o conhecimento, o sono é essencial. E numa sociedade que exige aprendizado constante e de alto nível, dormir bem não é luxo — é necessidade.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Alan Eckeli foi diretor-científico do Congresso do Sono em Salvador

Nos dias 3 e 6 deste mês, ocorreu em Salvador o XXI Congresso Brasileiro do Sono, sob direção científica do neurologista e professor da USP/Ribeirão Preto, Alan Eckeli.
O evento, realizado no Centro de Convenções da cidade, reuniu especialistas de renome internacional e marcou oficialmente o lançamento no Brasil do lemborexanto, novo medicamento para o tratamento da insônia desenvolvido pela farmacêutica japonesa Eisai e já aprovado nos Estados Unidos e na Europa.
A chegada da molécula inaugura uma classe terapêutica inédita no país e foi um dos pontos altos da programação, que contou com mais de 200 palestras científicas. O número expressivo de apresentações reforça o papel da Academia Brasileira de Sono (ABS) como a segunda maior sociedade científica da área no mundo, atrás apenas da entidade norte-americana.
Para Eckeli, a introdução do lemborexanto amplia de forma significativa as ferramentas médicas disponíveis para enfrentar uma condição altamente prevalente na população.
Além da novidade farmacêutica, o congresso trouxe debates que transitaram da neurociência básica à crononutrição e aos distúrbios respiratórios, sem deixar de lado reflexões críticas sobre saúde pública, como o uso excessivo das chamadas “drogas Z” e as estratégias de desprescrição. A presença de pesquisadores internacionais, como Carlos Schenck (EUA) e Gilles Lavigne (Canadá), reforçou o caráter global do encontro e o intercâmbio de conhecimento.
Segundo Eckeli, a força do congresso está justamente na diversidade e na integração de saberes: “A ABS reúne uma comunidade científica extremamente robusta. O Congresso reafirma essa força coletiva e traz ao Brasil as discussões mais atuais sobre ciência e medicina do sono”, conclui.


