O professor de relações internacionais na FESP-SP, Alexandre Coelho, durante entrevista ao BC TV


Por Camila Srougi e Germano Oliveira

No próximo dia 20, Donald Trump completará um ano de governo. Quase doze meses após assumir a presidência dos Estados Unidos, o mundo já não é mais o mesmo. O republicano consolidou uma política externa marcada pela ruptura com o multilateralismo, pelo enfraquecimento da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e pelo aumento do risco de conflitos globais.

A estratégia da atual gestão norte-americana tem sido o abandono do respeito às normas do direito internacional e a aposta na imposição da força militar e na truculência política, como se Trump fosse o imperador do mundo.

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Pressões econômicas e redefinições unilaterais de zonas de influência se tornaram rotina. Nesta semana, por exemplo, o presidente americano afirmou que as Américas pertencem aos Estados Unidos e devem permanecer sob o jugo de Washington como se os países que a integram fossem suas colônias.

A edição desta quinta-feira do programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, discutiu em profundidade essa questão, com a participação do professor Alexandre Coelho. Ele é coordenador dos cursos de Política e Relações Internacionais e do MBA em Geopolítica da Transição Energética da tradicional FESPSP (Escola de Sociologia e Política de São Paulo), Coelho avalia que episódios envolvendo a Venezuela, a Groenlândia e o Ártico revelam “uma profunda reconfiguração da ordem internacional”.

Segundo ele, o mundo vive hoje um momento comparável a um “movimento de placas tectônicas” nas relações internacionais, com instabilidade estrutural e dispersão de conflitos em novas regiões.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida nesta quinta-feira (8):

Camila Srougi — Professor, depois da Venezuela, o que esse movimento dos Estados Unidos sinaliza para o mundo? É uma estratégia de poder mais agressiva ou uma tentativa de reorganizar a ordem global na prática?

Alexandre Coelho — Olha, acho que são as duas coisas. É uma prática, de fato, em relação à Venezuela, agressiva e violenta, mostrando que os Estados Unidos praticamente abandonaram o direito internacional. Eles simplesmente não entendem que o direito internacional se aplica a eles.

A mensagem é: se quisermos fazer com que nossas vontades sejam executadas, teremos que agir por meios militares. Substitui-se o direito pela posição militar, a lei do mais forte. Nós saímos da força do direito para o direito à força. Essa é basicamente a mensagem que os Estados Unidos estão passando.

Consequentemente, o que estamos vivendo é uma reconfiguração da ordem internacional. Costumo dizer que estamos sobre um movimento de placas tectônicas das relações internacionais. Não é um momento de estabilização, mas de deslocamento dessas placas. Saímos de um período pós-Guerra Fria, de hiperglobalização, com maior aplicação do direito internacional, do multilateralismo e dos acordos, para uma nova fase.

Estamos transitando para um período mais realista das relações internacionais, em que prevalece a lei do mais forte. Quem tem maior poderio militar e econômico passa a tentar ditar as regras.

Camila Srougi — Quando Trump coloca a Groenlândia no radar, qual é o recado principal? Segurança no Ártico, disputa por minérios e rotas ou um teste para saber até onde os aliados europeus aguentam?

Alexandre Coelho — A Groenlândia é importante por dois pontos. Primeiro, a questão das terras raras e dos minerais críticos. Não à toa, Trump realizou diversos acordos no final do ano passado, quando esteve na Ásia, justamente sobre minerais críticos.

A Venezuela também entra nisso. Ele quer dominar a exportação de petróleo para a China. Um dos movimentos geopolíticos de Trump na Venezuela é controlar o petróleo exportado para os chineses, em contraposição ao controle da China sobre minerais críticos que afetam os Estados Unidos.

No caso da Groenlândia, além dos minerais, há a passagem pelo Ártico. Com as mudanças climáticas, a região tende a se tornar cada vez mais navegável e o Ártico passa a ser um polo geopolítico central. Os Estados Unidos não querem perder domínio sobre essa região.

Ele poderia fazer isso por meio de acordos com a Dinamarca, um aliado histórico e membro da OTAN, mas não é isso que está acontecendo. Mais do que pressionar a União Europeia, estamos presenciando um enfraquecimento da OTAN e da Aliança Transatlântica. Essa fissura já começou.

Hoje, se a Rússia atacasse a Dinamarca ou a França, por exemplo, é difícil afirmar que os Estados Unidos viriam em socorro. No caso dos drones, no ano passado, não houve nenhuma resposta contundente americana. Aquilo pode ter sido um teste russo.

Com a Groenlândia, inclusive com estudos sobre uma possível invasão militar, vemos uma ameaça direta a um território de um país da OTAN. Isso aprofunda a fragmentação da Aliança Transatlântica. A OTAN está cada vez mais enfraquecida, assim como outros organismos multilaterais. Isso vai muito além de pressionar a União Europeia.

Germano Oliveira — Sabemos que a China tem cerca de 40% das reservas de terras raras e os Estados Unidos apenas 4%. Sem esses minerais, a economia americana não avança. O senhor acha que, em relação à Groenlândia, Trump pode fazer o mesmo que fez com a Venezuela, com o México ou ameaçar outros países, e que isso deixe de ser retórica e vire ação concreta?

Alexandre Coelho — Após o que vimos na Venezuela, com ameaças e depois com o envio do porta-aviões Gerald Ford ao Caribe, isso pode sim passar da retórica.

O objetivo parece ser cumprir o chamado “corolário Trump”, ou o que alguns chamam de “Donroe”, uma mistura de Donald Trump com a Doutrina Monroe, segundo a qual o Hemisfério Ocidental pertence aos Estados Unidos. A Groenlândia está dentro dessa faixa geográfica.

Seria algo muito mais traumático, por envolver a OTAN e países europeus. Uma ação militar na Groenlândia seria inédita desde a Segunda Guerra Mundial. E eu não duvidaria disso.

Existem estudos no Departamento de Estado, coordenados por Marco Rubio, sobre a possibilidade de tomar a Groenlândia. Nem seria necessário invadir, já que há bases americanas no território, como a base de Thule.

O que estamos vendo hoje é essa fissura da aliança transatlântica, que tende a se consolidar.

Germano Oliveira — O mundo nunca esteve tão perto de uma Terceira Guerra Mundial? Existe essa perspectiva?

Alexandre Coelho — Eu não diria que estamos à beira de uma Terceira Guerra Mundial no curto prazo, nem por meios tradicionais nem nucleares.

Mas vemos uma dispersão dos conflitos. Antes, eles estavam concentrados na África e no Oriente Médio. Agora temos o Leste Europeu, com Rússia e Ucrânia, e regiões que não eram tradicionais em conflitos, como o Caribe, América do Sul e América Central.

Desde o início do ano passado, Trump adotou atitudes mais bélicas em relação ao Panamá, à Colômbia e à Venezuela. A captura de Maduro foi uma ação inédita.

Sem falar no recrudescimento no Oriente Médio, com ataques americanos e israelenses em território iraniano. Para Trump, o direito internacional não está valendo.

O mundo passa a ser dividido em zonas de influência: Hemisfério Ocidental com os Estados Unidos, Leste Europeu com a Rússia e parte da Ásia com a China. Mesmo assim, há exceções, como Taiwan, que continua sendo um ponto extremamente sensível.

Se algo acontecer ali, estaremos mais próximos de uma guerra global. A Segunda Guerra Mundial também não começou de um dia para o outro, foi um processo gradual.

Germano Oliveira — O presidente francês Emmanuel Macron disse que Trump tem um perfil imperialista e colonialista e está se afastando dos aliados históricos. O senhor acha que ele está se isolando?

Alexandre Coelho — Sem dúvida. Há um artigo do Stephen Walt, professor de Harvard, que diz claramente: os Estados Unidos hoje são inimigos da Europa. Ele escreveu isso no ano passado.

Os Estados Unidos estão em um processo de isolamento diplomático. A diplomacia não é mais utilizada. No Oriente Médio, o cessar-fogo é extremamente frágil. Na Ucrânia, Trump não tem poder de convencimento sobre Putin.

A União Europeia só entra nas negociações depois que Estados Unidos e Rússia decidem. A Ucrânia hoje não tem aliados em Washington. Negocia praticamente com dois inimigos.

Os aliados tradicionais estão em posição de súplica, não de parceria. No futuro, se puderem tomar decisões sem os Estados Unidos, eles tomarão.

A União Europeia está numa posição ainda pior do que o Brasil, porque está espremida entre Estados Unidos, China e Rússia.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV: