A neurologista e coordenadora do departamento científico da ABN, Dra Elisa Resende, durante entrevista ao BC TV


Por Camila Srougi e Germano Oliveira

O Brasil envelhece em ritmo acelerado e, com isso, cresce a incidência de demências, sobretudo a Doença de Alzheimer. Dados oficiais do Ministério da Saúde apontam que cerca de 2,71 milhões de brasileiros acima dos 60 anos convivem com a doença atualmente.

O Alzheimer é a forma mais conhecida e predominante, seguido por quadros de demência vascular e outras causas neurodegenerativas.

Continua depois da publicidade

O Relatório Nacional sobre a Demência, publicado em 2024, consolida estimativas e projeções para o país.

O documento indica que o número de casos deve aumentar nas próximas décadas, acompanhando o envelhecimento populacional.

Até 2050, a projeção é de que 5,6 milhões de brasileiros terão algum tipo de demência, com predominância do Alzheimer.

A tendência é semelhante à observada em países desenvolvidos, onde o crescimento da carga de demências já pressiona sistemas de saúde e previdência.

Entre 2000 e 2019, estudos oficiais registraram aumento das taxas de mortalidade por Alzheimer em todas as regiões brasileiras. O relatório também destaca o subdiagnóstico e o estigma como barreiras para o enfrentamento da doença.

As causas são multifatoriais: há componente genético, mas também fatores relacionados ao envelhecimento cerebral e ao processamento de proteínas. Condições como hipertensão, diabetes e perda auditiva podem elevar o risco de demência.

O impacto sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) é crescente. A necessidade de diagnóstico precoce, acompanhamento contínuo e suporte a cuidadores exige políticas públicas específicas. O relatório recomenda ações de prevenção e campanhas de conscientização.

Para tratar de tema tão importante e oportuno, o programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, contou com a participação, na edição desta terça-feira (13), da médica neurologista Elisa de Paula França Resende, coordenadora do Departamento Científico da Academia Brasileira de Neurologia.

Ela alertou para o subdiagnóstico da doença no país, comentou sobre novos medicamentos aprovados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e defendeu ações urgentes de prevenção e cuidados diante do envelhecimento acelerado da população brasileira.

A especialista destacou os avanços recentes da medicina, como a aprovação de novas drogas que retardam a progressão do Alzheimer, mas ressaltou que o acesso ainda é restrito e desigual.

Para ela, o enfrentamento da doença exige políticas públicas estruturadas, investimento em diagnóstico precoce, capacitação da atenção primária e ações efetivas de prevenção ao longo da vida.

A seguir, leia algumas das principais respostas da entrevista com Elisa de Paula França Resende:

Camila Srougi – Hoje, quando a gente fala em Alzheimer no Brasil, do que exatamente estamos falando em termos de impacto para as famílias e para o sistema de saúde?

Elisa Resende – Bom, estamos falando de uma doença muito prevalente no país. É estimado que até 90% dos casos sejam subdiagnosticados, ou seja, as pessoas têm a doença e não têm o diagnóstico. Muitas vezes, estão em casa, ficando mais esquecidas, precisando de ajuda para fazer tarefas e, às vezes, a família não leva ao médico. Isso não é diagnosticado.

Quando a pessoa já tem uma dependência maior, começa a apresentar alterações comportamentais e só então o diagnóstico é feito. O impacto é muito grande para a família, pois alguém precisa parar de trabalhar para cuidar dessa pessoa.

A prevalência no Brasil é de aproximadamente 7%. Ou seja, 7% da população idosa de 65 anos ou mais tem diagnóstico de Alzheimer. São muitos brasileiros afetados por essa patologia.

Camila Srougi – A medicina tem avançado, mas a sensação é que sociedade e poder público ainda chegam tarde a esse tema. Onde está o descompasso?

Elisa Resende – Exato. Primeiro, a falta de diagnóstico. As pessoas acham que o esquecimento é normal, parte do envelhecimento. Então não procuram ajuda médica. Esse é o primeiro gargalo.

O segundo é a falta de capacitação. O diagnóstico deveria ser feito até na atenção primária, nos postos de saúde. Mas não há neurologistas, geriatras ou psiquiatras suficientes no Brasil para atender essa demanda.

O terceiro ponto é o acesso ao tratamento. Algumas medicações estão disponíveis no SUS, o que é um avanço, mas os tratamentos não farmacológicos — fisioterapia, fonoaudiologia, terapia cognitiva, terapia ocupacional — não são cobertos.

Além disso, os melhores exames diagnósticos, considerados padrão ouro, que identificam a proteína do Alzheimer no sangue e no líquido, também não estão disponíveis no SUS. Portanto, há gargalos nas famílias, nos médicos e no sistema público.

Germano Oliveira – Como diferenciar o esquecimento normal do envelhecimento do esquecimento do Alzheimer?

Elisa Resende – O esquecimento normal não interfere nas atividades do dia a dia. Todos nós esquecemos porque recebemos muita informação e fazemos várias tarefas ao mesmo tempo. Isso é falta de atenção.

Já o esquecimento da doença de Alzheimer interfere na funcionalidade. A pessoa perde prazos no trabalho, esquece de pagar contas, tem água e luz cortadas, esquece compromissos, marca médico e vai no dia errado.

Quando começa a impactar atividades como dirigir, fazer compras ou lidar com dinheiro, isso é Alzheimer.

Hoje em dia, todos anotam lembretes. Mas quando a pessoa anota, coloca lembrete e mesmo assim esquece, aí não é normal.

Germano Oliveira – Na semana passada, a Anvisa aprovou o medicamento Leqembi, com princípio ativo lecanemabe. Ele pode ajudar?

Elisa Resende – A Academia Brasileira de Neurologia publicou recomendações sobre o uso correto desses medicamentos. Além do lecanemabe, existe também o donanemabe, aprovado no Brasil em junho do ano passado.

Eles atuam retirando a proteína beta-amiloide do cérebro. Não curam a doença, mas retardam a progressão em cerca de 25% a 30%.

O problema é o custo, em torno de R$ 150 mil por pessoa, e os efeitos colaterais graves, como edema cerebral e hemorragia. O tratamento é venoso e exige exames frequentes.

Por isso, precisa ser muito bem indicado. Se mal utilizado, pode levar até à morte.

Germano Oliveira – Existe prevenção? Ler, estudar, aprender línguas ajuda mesmo?

Elisa Resende – Existe sim, com evidências científicas robustas. Até 48% dos casos de Alzheimer poderiam ser evitados no Brasil se 14 fatores de risco fossem controlados.

Entre eles estão baixo nível educacional, hipertensão, diabetes, tabagismo, depressão não tratada, perda auditiva, trauma craniano, isolamento social, poluição, sedentarismo e obesidade.

Mesmo quando a pessoa já tem a doença, manter a mente ativa ajuda a retardar a progressão. Ler, aprender uma nova língua, jogar baralho, ouvir música, fazer exercícios cognitivos, praticar atividade física e manter alimentação saudável são fundamentais.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV: