O especialista em análise política e gestão de crises, Ibsen Costa Manso, durante entrevista ao BC TV


Por Camila Srougi e Germano Oliveira

O Brasil inicia 2026 em clima de pré-campanha, marcado por polarização política, embates institucionais e indefinição sobre as candidaturas presidenciais.

Para falar sobre os cenários políticos neste ano importante eleitoralmente no país, o programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, trouxe o analista político Ibsen Costa Manso, especialista em análises na área.

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Ele afirmou que, na sucessão ao principal cargo político do país, o presidente Lula “larga com vantagem por estar no poder”, enquanto a direita aposta no fortalecimento do Senado como estratégia para influenciar o futuro do país.

“O Brasil já vive um ambiente de disputa eleitoral, paralisia legislativa e tensão entre as esferas de poder”, disse Manso. Para ele, a eleição será marcada por “polarização intensa, uso estratégico da máquina pública e uma guerra política centrada no controle do Congresso e do Senado”.

Com o Congresso voltado para as eleições, a oposição ainda desarticulada e o Executivo sob pressão institucional, 2026 desponta como um dos anos mais decisivos da democracia brasileira, na visão de Costa Manso.

A seguir, leia algumas das principais perguntas e respostas da entrevista com o estrategista político e eleitoral:

Camila Srougi – O Brasil começa 2026 com a sensação de que o país já entrou em campanha antes mesmo do primeiro voto ser contado. Tensões entre os Poderes, disputas internacionais, um Congresso mais assertivo e um eleitorado cansado formam um cenário de alta pressão. Olhando para o tabuleiro político hoje, a polarização já atingiu seu ápice ou ainda há espaço para mais tensionamento?

Ibsen Costa Manso -Eu sempre começo dizendo o seguinte: política é um assunto muito sério, mas não precisa ser chato. Inclusive, já me disseram que eu não faço palestras, faço talk show — e eu acho ótimo, porque é assim que as pessoas escutam.

Costumo abrir minhas falas com uma frase do historiador Arnold Toynbee: “A desgraça de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta muito.” Essa frase é perfeita para o Brasil.

Estamos vivendo um ano muito especial e, ao mesmo tempo, extremamente imprevisível. Existem muitos componentes ainda indefinidos. Quem serão os candidatos? O presidente Lula será, de fato, candidato? Eu escrevi recentemente um relatório para o mercado financeiro dizendo que o presidente Lula está aí, desfilando, aparentemente muito bem fisicamente, aos 80 anos. Mas a grande pergunta é: ele vai entrar para perder? Lula não entra em eleição para perder.

Se olharmos para os Estados Unidos, Joe Biden sofreu muito com a idade. Lula tem idade parecida, mas aparenta estar muito melhor. Ainda assim, entender o futuro exige compreender o passado.

Uso sempre um gráfico do Ibope que acompanha a popularidade presidencial desde o governo Sarney. Ele mostra todas as grandes crises do país. E o dado mais interessante é que, historicamente, presidentes que estavam abaixo da chamada “linha d’água” da popularidade conseguiram crescer durante a campanha e se reeleger.

Foi assim com Dilma Rousseff. Ela estava abaixo da linha, cresceu na campanha, colocou a cabeça fora d’água e venceu. Com Lula, pode acontecer algo semelhante. Ele tem a caneta na mão, é presidente da República, está politicamente livre, depois de tudo o que passou, inclusive prisão.

A direita está fragmentada, ainda não se definiu. Então, há sim uma chance concreta de Lula crescer durante o processo eleitoral e vencer com algo em torno de 52%. Com 50% mais um, já se ganha eleição — como vimos em 2022.

Camila Srougi – Muitos analistas focam apenas na campanha, mas a máquina pública continua funcionando. Como o senhor avalia a saúde da coalizão do governo neste momento? Há espaço para reformas estruturantes?

Ibsen Costa Manso – Na minha visão, este ano acabou. Em ano eleitoral, o Congresso praticamente para. Deputados e senadores estão focados em emendas, fundos eleitorais e campanhas.

Além disso, estamos vivendo uma crise complexa, que envolve vários setores ao mesmo tempo: econômico, institucional, político, social e até de segurança pública. Isso torna qualquer avanço estrutural ainda mais difícil.

O que pode acontecer é o Congresso colocar “cascas de banana” para o governo, atendendo interesses da direita, bloqueando pautas do Executivo. Lula vai perder mais de 20 ministros por causa da desincompatibilização. O próprio Haddad deve sair e ficar na reserva.

Vejo espaço para CPIs, como a do INSS ou do Banco Master, porque CPI dá visibilidade política em ano eleitoral. Mas aprovação de grandes reformas? Muito improvável.

Germano Oliveira – Falando em Haddad, há especulações sobre ele ser candidato ao Senado, ao governo de São Paulo ou até à Presidência. Como o senhor avalia isso?

Ibsen Costa Manso – As pesquisas mostram que, se Haddad fosse candidato à Presidência, ele teria chances. Mas ele não tem a empatia nacional que Lula tem. Ele não é um petista raiz, não tem aquele carisma popular.

Se Lula perceber que pode perder a eleição, ele pode lançar Haddad como reserva. Mas isso, na minha visão, seria uma das piores opções para o próprio Lula.

Se Haddad vencer, o mérito será do Lula, como foi com Dilma. Dilma era o “poste” do Lula. Se fizer um bom governo, mérito do Lula. Se fizer um mau governo, a responsabilidade é dela. Com Haddad seria igual.

Germano Oliveira – E a estratégia do governo de espalhar ministros pelo país para disputar governos e o Senado?

Ibsen Costa Manso – É uma estratégia clara. Lula quer formar uma base forte no Senado. Gleisi Hoffmann, por exemplo, deve disputar o Senado pelo Paraná. O objetivo é garantir sustentação institucional.

Do outro lado, a direita também deixou isso muito claro: quer eleger senadores. Eles já têm força na Câmara. Com maioria no Senado, poderiam até tentar impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.

Tudo isso envolve uma verba bilionária: fundo partidário e fundo eleitoral. Manter controle sobre isso é fundamental para qualquer grupo político.

Germano Oliveira – E o papel de Jair Bolsonaro nesse cenário, mesmo estando preso e inelegível?

Ibsen Costa Manso – Essa é a grande incógnita. Bolsonaro está preso, é inelegível, não é candidato. Mas ainda tenta influenciar.

A transferência de votos não é automática. Não é porque alguém votou em Bolsonaro que vai votar em quem ele indicar. Isso não funciona como cabresto.

Eles podem estar tentando manter influência política e controle dos fundos. Mas, sinceramente, perderam a Presidência. Flávio Bolsonaro tem poucas chances de vencer uma eleição presidencial.

Além disso, as investigações sobre rachadinhas e a compra da mansão vão pesar muito. A campanha será sangrenta. A polarização direita versus esquerda será reativada com força.

Germano Oliveira – Existe hoje um nome na oposição com chances reais de derrotar Lula?

Ibsen Costa Manso – Sendo muito claro: o único nome que eu vejo com chance real é o governador de São Paulo. Mas por que ele largaria uma reeleição praticamente garantida para entrar numa aventura nacional?

Outros nomes como Ratinho Júnior ou Zema, pelas pesquisas, não chegam lá. Flávio Bolsonaro também não.

No Brasil, como dizia Pedro Malan, até o passado é incerto. Mas, olhando o cenário hoje, é muito difícil vencer Lula com a caneta na mão, no governo, com seu carisma e experiência. Lula estava preso, foi solto, voltou e venceu a eleição. Agora imagine ele no poder, disputando a reeleição.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Conheça Ibsen Costa Manso

Com mais de quatro décadas dedicadas ao jornalismo e à comunicação corporativa, Ibsen Costa Manso construiu uma trajetória marcada pela atuação em grandes veículos de imprensa, consultorias estratégicas e análises políticas voltadas ao mercado financeiro e às corporações.

Carreira no jornalismo

Costa Manso foi editor de política nas TVs Bandeirantes, SBT e Globo, além de editor-executivo do Grupo Estado e chefe de redação do jornal O Estado de S. Paulo em Brasília. Na televisão, ocupou cargos de destaque como chefe de Produção Nacional da TV Globo em Brasília e diretor da GloboNews em São Paulo.

Experiência em campanhas e comunicação institucional

Ele também participou diretamente de campanhas eleitorais de nível nacional, atuando como editor de conteúdo e diretor. Elaborou roteiros para vídeos institucionais e publicitários, além de propostas para concorrências públicas na área de comunicação do governo federal e do Estado de São Paulo.

Durante onze anos, foi gerente de comunicação institucional e análise política do Banco Votorantim. Nesse período, prestou consultoria a instituições financeiras e grandes empresas, desempenhando papel relevante na mitigação dos efeitos da crise econômica deflagrada em 2008.

Consultoria e palestras

Desde 2015, é sócio-proprietário da ICM Consultoria, empresa especializada em comunicação corporativa, media training e gestão de crises.

A consultoria oferece serviços de mediação de debates, palestras, eventos, pesquisas e análises, com foco no posicionamento estratégico diante do cenário político e econômico nacional.

Costa Manso também se consolidou como palestrante e analista político. Em 2014, por exemplo, realizou mais de 160 apresentações para bancos, fundos de pensão e investidores no Brasil, Estados Unidos e Chile, analisando os bastidores de uma das eleições mais disputadas da história recente. Em 2018, antecipou a possibilidade de vitória de Jair Bolsonaro na corrida presidencial.

Análises

Segundo Costa Manso, a ICM Consultoria (ibsencostamanso.com.br) produz relatórios mensais e agendas semanais que apresentam análises retrospectivas e prospectivas sobre o cenário político nacional.