O escritor e biógrafo, C. S. Soares, durante entrevista ao BCTV


Por Camila Srougi e Germano Oliveira

No coração da Lapa, bairro popular do Rio de Janeiro onde o jovem Machado de Assis cresceu entre becos e pobreza na capital oitocentista, uma pergunta ecoa 117 anos após sua morte: por que a cor do maior dos nossos escritores — fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras — foi apagada das narrativas oficiais por mais de um século?

O lançamento do primeiro volume de Machado: O Filho do Inverno, inédita biografia do “Bruxo do Cosme Velho”, não é apenas um acontecimento editorial. É um gesto político, cultural e histórico. A obra, escrita pelo jornalista e pesquisador C. S. Soares, resulta de 15 anos de investigação minuciosa e dedicação obstinada.

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Para Soares, Machado de Assis deve ser celebrado como “escritor universal”, sistematicamente “embranquecido pela crítica e pela historiografia”. Sua negritude, incômoda para uma elite que preferia vê-lo como exceção, foi relegada ao silêncio. Autor negro, Soares busca romper esse “pacto de invisibilidade” e recolocar Machado em sua dimensão histórica.

A pergunta que guia sua investigação é direta: o que muda quando reconhecemos Machado como homem negro do século XIX, sobrevivente de um Brasil escravocrata?

“De repente, Dom Casmurro deixa de ser apenas um drama de ciúmes e revela a lógica de uma elite escravocrata que suspeita da mestiça Capitu”, afirma.

E acrescenta: “Memórias Póstumas de Brás Cubas ganha outra camada: o defunto que narra sua vida contrasta com os milhares de corpos negros silenciados pela história.”

Machado de Assis, foto tirada por volta de 1896, quando o escritor tinha cerca de 57 anos.

Escavação histórica

Os 15 anos de pesquisa de Soares foram uma verdadeira escavação: arquivos, jornais do século XIX, documentos raros, resquícios de um passado esquecido. O resultado é uma biografia monumental em dois volumes.

O primeiro, já disponível nas livrarias físicas e digitais, tem 640 páginas e projeto gráfico de Victor Burton. Cobre da infância de Machado até Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880). O segundo volume, previsto para setembro deste ano, seguirá até sua morte em 1908, aos 69 anos.

O editor Pascoal Soto resume o impacto da obra: “Restituir Machado à sua cor, à sua história, é devolver ao Brasil o escritor por inteiro — denso, feroz, urgente.”

O gesto político da edição

O Machado que emerge das páginas de Soares “não é o mito intocado”, diz o autor, “mas a fissura, o ponto de encontro entre pobreza, racismo estrutural e genialidade literária”.

“Machado foi um escritor que, ao mesmo tempo, testemunhou e desnudou os traumas sociais de sua época.”

Para Soares, toda biografia nasce de um problema. O de Machado está posto há mais de cem anos: por que sua negritude foi sistematicamente apagada das narrativas oficiais?

“Se sua ironia literária sempre escapou a leituras simplistas, não podemos ignorar que sua condição de homem negro, em um país onde a escravidão ainda definia o cotidiano, potencializou a complexidade de sua escrita.”

A entrevista

Para falar sobre o livro e sobre a vida e obra de Machado de Assis, o BC TV, do portal Brasil Confidencial, convidou C. S. Soares para uma entrevista nesta sexta-feira (13).

Leia a seguir alguns dos principais pontos da conversa:

Camila Srougi – Você passou uma década e meia mergulhado na vida de Machado de Assis. Nesse longo processo, qual foi a descoberta mais surpreendente que reposiciona o homem por trás do mito literário?

C.S. Soares – Foram várias descobertas. Talvez a principal, que é o mote central do livro, seja o impacto da negritude de Machado em sua obra. Todos nós sabemos que Machado de Assis era negro, mas nenhuma das biografias anteriores havia observado isso de forma tão direta quanto eu tentei fazer. A partir do momento em que começamos a enxergar o impacto racial na própria vida do biografado — e o meu trabalho como biógrafo é observar a vida, ainda que em algum momento seja necessário analisar o texto — passamos a identificar essa influência também na obra. Acredito que essa seja a principal descoberta.

Pouca gente sabe, mas Machado também esteve envolvido na invenção do carnaval moderno.

Camila Srougi – Conta um pouquinho para a gente sobre isso.

C.S. Soares – Dei uma entrevista esta semana sobre isso. Não é o tema principal do livro, mas como trato do início da carreira dele, abordo esse período. Aos 15, 16 anos, Machado se aproxima da tipografia de Paula Brito, considerado o primeiro editor do Brasil. Paula Brito tinha a Sociedade Petalógica, uma confraria que reunia intelectuais e políticos. Por volta de 1855, criaram uma espécie de sociedade carnavalesca para repensar o carnaval da época, já que o entrudo havia sido proibido. O adolescente Machado esteve envolvido nisso. Pouca gente sabe, mas ele, jovem, era um agitador cultural, muito diferente da imagem mais ensimesmada e comedida do fim da vida.

Camila Srougi – Machado foi um observador afiado da sociedade brasileira no século XIX. Na sua visão, quais traços humanos descritos por ele continuam sendo o espelho mais fiel do Brasil de 2026?

C.S. Soares – Tudo. Você pode ler Machado hoje como se estivesse lendo uma crônica escrita ontem. No meu livro, algo que não estava previsto acabou acontecendo: cada capítulo trata basicamente de um problema sobre o qual Machado se debruçou em sua época e que é assustadoramente atual. Desde feminicídio até problemas no Judiciário ou questões políticas. Machado foi um observador do humano. Em 200 anos, pouca coisa mudou. Quem lê o livro pode se assustar, pode achar que está lendo a história de um autor ainda vivo. A obra dele é impressionantemente atual.

Germano Oliveira – Ele era filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira. Um homem negro em uma sociedade escravocrata que tentava embranquecê-lo. Como ele superou tudo isso e se tornou um símbolo de sucesso?

C.S. Soares – É realmente surpreendente como um homem de origem pobre, nascido no Morro do Livramento — que na época não era favela, mas era uma região humilde — filho de agregados, com pouco acesso à informação e sem ensino formal completo, chegou a se tornar esse símbolo brasileiro de sucesso. Ele sempre se planejou para chegar onde chegou e esteve envolvido com as questões de seu tempo. Machado não era de confronto direto, e mostro no livro que vários autores negros adotaram essa estratégia para sobreviver em sociedades escravocratas — no Brasil, nos Estados Unidos, no Haiti e em outros lugares. O uso da ironia em Machado é muito peculiar. Além de humorista e ironista, ele utilizou esse recurso para dizer o que precisava ser dito, fazer acusações à sociedade da época, muitas vezes sem que ela percebesse. Lembra a estratégia de artistas na época da ditadura militar, que burlavam a censura com metáforas. Machado deixa muitos enigmas na obra, e um deles é justamente como sua negritude impacta profundamente sua produção. Ele não foi um autor apesar de negro; foi um autor também por ser negro.

Germano Oliveira – Seu livro tem 640 páginas e é o primeiro volume. Você já escreve a segunda parte. O que pretende abordar?

C.S. Soares – Nem começo no nascimento dele. Volto aos bisavós, tanto do lado paterno quanto materno. Do lado do pai, Francisco José de Assis, há aspectos muito interessantes — dois bisavós eram padres — e questões complexas ligadas à Quinta do Livramento, onde ele nasceu. Vou de 1804 ou 1805, mais de 30 anos antes do nascimento, até 1880. No segundo volume, parto do lançamento de Memórias Póstumas em 1880 e sigo até a morte, provavelmente ultrapassando um pouco, porque há muito a dizer sobre o impacto cultural após sua morte, no Brasil e no exterior.

Termino este primeiro livro falando, por exemplo, de Maya Angelou, autora negra americana e a primeira mulher negra a estampar uma moeda de dólar nos Estados Unidos. Em depoimento, ela afirma que decidiu se tornar escritora após ler Machado de Assis. Ele chega aos Estados Unidos nos anos 1960, no contexto da luta pelos direitos civis, influenciando intelectuais ligados a nomes como Martin Luther King Jr. e Malcolm X. Era frequentemente citado em revistas do movimento. Machado tem uma dimensão internacional que talvez ainda não tenhamos plena noção. A cada geração, descobrimos algo novo sobre ele. Minha biografia é talvez a décima ou décima primeira, dentro de uma tradição de mais de 100 anos de estudos sobre sua vida.

SERVIÇO

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MACHADO, o Filho do Inverno – Vol. 1
Autor
: C.S. Soares
Editora: Ação Editora
Páginas: 640

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Conheça C. S. Soares

Claudio S. Soares é escritor, jornalista e editor, com trajetória marcada pela dedicação à literatura clássica brasileira.

Autor de Machado: O Filho do Inverno, primeira grande biografia popular de Machado de Assis escrita por um autor negro, Soares recoloca a negritude do bruxo do Cosme Velho no centro da interpretação de sua obra e de sua genialidade.

O livro, lançado no fim do ano passado na Academia Brasileira de Letras, já se tornou referência para quem busca compreender Machado em sua dimensão histórica e racial.

Com passagens como colunista de O Globo e editor da coleção de clássicos do Google Books, Soares construiu uma carreira que transita entre jornalismo cultural e edição literária. Hoje, dirige a Obliq Livros, projeto editorial que aposta em aproximar o público da tradição literária brasileira, sem abrir mão de uma perspectiva crítica e contemporânea.