Por Camila Srougi e Germano Oliveira
O vice-presidente sênior da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, afirmou nesta segunda-feira (23), em entrevista exclusiva ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, que a rápida expansão da montadora chinesa no mercado brasileiro “é resultado direto de investimento pesado em pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica, aliados a uma estratégia agressiva de preços”.
Segundo Baldy, a implantação da fábrica em Camaçari (BA) marca uma nova etapa da companhia no país, “com previsão de alcançar capacidade de até 300 mil veículos por ano e ampliar gradualmente o conteúdo nacional na produção”.
A unidade, inaugurada em outubro de 2025, iniciou suas operações em regime de montagem simplificada (SKD) e já acumula produção próxima de 20 mil veículos, incluindo modelos como Dolphin Mini, King e Song Pro.
O executivo destacou que a produção completa, com maior nacionalização de processos, está programada para começar no segundo semestre de 2026, mais precisamente em julho. “A consolidação industrial da BYD no Brasil não apenas fortalece a competitividade da marca diante de concorrentes tradicionais, como a Toyota, mas também posiciona a empresa como protagonista na transição para veículos híbridos e elétricos no mercado brasileiro”, disse.
A estratégia da montadora inclui ainda investimentos em infraestrutura de recarga e parcerias com governos estaduais para ampliar a adoção de veículos eletrificados. Baldy ressaltou que o avanço da BYD no Brasil reflete uma tendência global de eletrificação, em que o país se torna peça-chave para o crescimento da empresa na América Latina.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Camila Srougi – O Brasil sempre teve um mercado automotivo consolidado por marcas tradicionais, mas a velocidade com que as empresas chinesas conquistaram o consumidor brasileiro impressiona. Além do preço competitivo, qual foi o elemento-chave na mentalidade do brasileiro que permitiu essa quebra de paradigma tão rápida em favor da eletrificação?
Alexandre Baldy – Olha, eu acredito muito na qualidade do produto. Se você avaliar o histórico das empresas automobilísticas chinesas, elas vieram para o Brasil há anos, mas não tinham produtos condizentes com a nossa avaliação em termos de qualidade.
O que fizeram? Deram um passo atrás para depois darem vários passos à frente. Investiram fortemente em pesquisa e desenvolvimento. Hoje, a China é o maior mercado automobilístico global, o que permite escala para realizar diversos tipos de testes e análises e chegar ao nível atual.
São produtos excepcionais, com o que há de mais inovador globalmente, tecnologia avançada em pesquisa e desenvolvimento aplicada a carros compactos, hatch, SUVs — veículos que as pessoas utilizam no dia a dia.
A BYD é hoje a maior empresa do mundo em carros de novas energias, híbridos e elétricos. Temos o maior número de pesquisadores, engenheiros, cientistas e PhDs: são 122 mil profissionais dedicados à engenharia, pesquisa e desenvolvimento. Isso garante que os produtos sejam os melhores e também acessíveis. Nada adiantaria lançar um BYD Dolphin com um preço que não fosse competitivo.
Quando começamos no Brasil com o BYD Dolphin, em julho de 2023, houve uma mudança profunda no mercado automobilístico brasileiro. Eu digo que foi uma verdadeira revolução.
Camila Srougi – A produção nacional é um divisor de águas para qualquer operação global. Com a instalação da fábrica na Bahia, como a BYD pretende equilibrar a tecnologia trazida da China com o desenvolvimento de uma cadeia de fornecedores locais ainda em transição para a era dos elétricos?
Alexandre Baldy – A BYD representa para o Brasil uma verdadeira revolução também na etapa industrial. No ano passado, na inauguração da nossa fábrica, apresentamos um modelo flexfuel, fruto de investimento em pesquisa e desenvolvimento realizado pela BYD Brasil em conjunto com a China.
Temos uma equipe de desenvolvimento no Brasil que entende o consumidor brasileiro — seus desejos, gostos e sensibilidades — e traduz isso para nossos 122 mil engenheiros e pesquisadores. O resultado será a oferta de um carro híbrido plug-in flexfuel que será lançado muito em breve no Brasil.
Esse é apenas o início de vários outros projetos que serão possíveis com a consolidação da etapa industrial no Brasil. Queremos produzir inovação brasileira, valorizada pelo consumidor brasileiro. Não adianta desenvolver um produto que não tenha aceitação no mercado.
Germano Oliveira – A fábrica em Camaçari, na Bahia, foi inaugurada com a presença do presidente Lula e pretende fabricar até 300 mil unidades por ano. Hoje está produzindo cerca de 150 mil. Quando a planta atingirá sua capacidade plena?
Alexandre Baldy – Estive lá em 2022. Era um terreno arrasado, uma fábrica abandonada, em ruínas. A BYD comprou o parque industrial e já investiu mais de R$ 3 bilhões.
Em julho deste ano haverá aumento do imposto de importação para 35%. Quem não fabricar no Brasil será um aventureiro e não terá condições de competir.
Hoje competimos com modelos como BYD Dolphin Mini, Dolphin, Song Pro e Song Plus. Em janeiro, ultrapassamos 10 mil carros emplacados, número oficial do mercado. Chegamos a ficar à frente da Toyota, marca extremamente respeitada no Brasil.
As etapas industriais — estampagem, solda, pintura — serão implementadas ao longo de 2026. Hoje produzimos 420 carros por dia. A meta de 300 mil unidades deve ser alcançada entre este ano e 2027, com a consolidação dessas fases.
Começamos com montagem (CKD) porque é uma transição natural. Já homologamos mais de 300 fornecedores locais. À medida que avançamos com estamparia, solda e pintura, aumentamos o conteúdo nacional.
Para exportar à Argentina, por exemplo, é necessário ao menos 35% de conteúdo local. Portanto, a estratégia industrial é sólida. Investimos mais de R$ 5,5 bilhões para fabricar no Brasil, gerar empregos e consolidar presença.
Um exemplo: vendi o Dolphin importado por R$ 122.990. Quando passei a fabricá-lo no Brasil, reduzi para R$ 119.990. Isso demonstra compromisso com competitividade.
Germano Oliveira – Concorrentes afirmam que a BYD estaria apenas montando veículos no Brasil com alto volume de peças importadas, o que reduziria a participação da indústria nacional. Como o senhor responde a essas acusações?
Alexandre Baldy – Essas informações são meramente estratégias para gerar dúvida no consumidor. Quando lançamos o BYD Dolphin por R$ 149.800, outras marcas vendiam modelos similares por R$ 250 mil e depois reduziram em R$ 100 mil.
O SKD é uma fase de transição. Todas as indústrias automobilísticas começaram assim no Brasil e no mundo. Quem afirma que seremos apenas montadores ignora o investimento robusto realizado.
Quem conhece nossa fábrica em Camaçari percebe a dimensão do projeto. O investimento é consolidado, de longo prazo. Nossos concorrentes que fazem esse tipo de acusação têm dificuldade de competir conosco em produto, preço e qualidade.
Viemos para ficar, fabricar no Brasil, inovar no Brasil e entregar ao consumidor brasileiro o que há de melhor no mundo com preço acessível.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Conheça a BYD em números

Crescimento em vendas diretas para pequenas empresas
Janeiro: avanço superior a 324%.
Agosto/2025: pouco mais de 1.200 unidades.
Dezembro/2025: mais de 5,3 mil unidades.
Produção em Camaçari (BA)
Dezembro/2025: quase 4 mil unidades dos modelos Dolphin Mini GL, King GL e Song Pro GL.
Canais de venda
50% varejo.
50% venda direta.
Desempenho anual
2023: 17.937 unidades.
2025: 111.683 unidades (+522%).
Dezembro/2025: 15.658 veículos, colocando a BYD entre as cinco maiores montadoras do país.
Janeiro/2026
9.801 veículos emplacados.
Crescimento de 48,93% sobre janeiro/2025.
Participação de mercado
Varejo: 10,75% de market share em automóveis (2ª colocada).
Segmento elétrico: liderança absoluta com 62,37%.
Segmento híbrido: 24,44% das vendas.
Modelos mais vendidos
Dolphin Mini – mais de 52 mil unidades.
Song Plus – mais de 41 mil unidades.
Song Pro – mais de 30,5 mil unidades.
Dolphin GS – mais de 28,5 mil unidades.
King – mais de 16,6 mil unidades.
Conheça Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da BYD Brasil

Alexandre Baldy de Sant’Anna Braga, 45, nasceu em Anápolis (GO) e é graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO).
Sua trajetória combina política e gestão empresarial, marcada por passagens em cargos estratégicos no setor público e, mais recentemente, pela liderança na expansão da montadora chinesa BYD no Brasil.
Baldy iniciou sua carreira política como secretário de Indústria e Comércio de Goiás, entre 2011 e 2013, no governo Marconi Perillo. Em 2014, foi eleito deputado federal por Goiás, com 107.544 votos, e exerceu mandato até 2019. Durante o governo Michel Temer, assumiu o Ministério das Cidades (2017–2018), onde foi responsável por programas de habitação e mobilidade urbana.
No governo João Doria, em São Paulo, comandou a Secretaria de Transportes Metropolitanos (2019–2021), coordenando projetos de expansão do metrô e da CPTM. Em 2023, foi nomeado presidente da Agência Goiana de Habitação (Agehab) pelo governador Ronaldo Caiado, cargo que ocupa atualmente.
Paralelamente à vida pública, Baldy consolidou sua atuação empresarial. Como vice-presidente sênior da BYD Brasil e head da BYD Auto Brasil, tornou-se peça-chave na estratégia da montadora chinesa para o mercado nacional. Sob sua liderança, a empresa anunciou a instalação de uma fábrica em Camaçari (BA), na antiga planta da Ford, e articulou investimentos bilionários em veículos elétricos e baterias.
A trajetória de Baldy reflete a transição de gestor público para executivo de uma das maiores fabricantes de veículos elétricos do mundo, posicionando o Brasil como polo estratégico para a indústria de mobilidade sustentável.


