Por Camila Srougi e Germano Oliveira
Os Estados Unidos iniciaram nesta terça-feira (24) a cobrança de uma tarifa global de 10% sobre produtos importados. A decisão, no entanto, veio cercada de contradições e anúncios desencontrados do presidente Donald Trump, que no fim de semana havia prometido elevar a taxa para 15%.
A confusão começou após a Suprema Corte considerar inconstitucional parte do chamado tarifaço, aplicado desde o ano passado. Em resposta, Trump anunciou que substituiria a medida por uma taxa fixa de 10%. Poucas horas depois, em sua rede social, declarou que a cobrança seria de 15%, “com efeito imediato”.
O Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, porém, esclareceu na noite de ontem, segunda-feira (23), que a tarifa será de 10% durante um período inicial de 150 dias, “a menos que estejam especificamente isentos”.
A possibilidade de aumento para 15% segue em análise, mas depende de uma nova ordem presidencial ainda sem data definida. Esse vaivém expõe o estilo errático de Trump na condução da política comercial e amplia a incerteza para parceiros e investidores.
Avaliação brasileira
Apesar da instabilidade, o governo brasileiro vê oportunidades. O presidente em exercício, Geraldo Alckmin, afirmou que a tarifa pode favorecer a competitividade dos produtos nacionais. “Essa condição de competição pode ser positiva para o Brasil”, disse em nota oficial.
Nesta terça-feira (24), durante entrevista ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, reforçou que o país segue estratégico. “O Brasil não perde sua relevância. Pelo contrário, continua sendo visto como parceiro confiável em setores-chave, como alimentos e insumos industriais”, afirmou.
Estratégia e cautela
Uarian destacou que, mesmo com a escalada do protecionismo americano, o governo brasileiro conseguiu abrir novos mercados e manter exportações importantes, garantindo resultados positivos para empresas nacionais e impulsionando a bolsa de valores.
“O Brasil tem espaço para diversificar mercados e fortalecer sua posição em cadeias globais. As tarifas americanas não mudam o fato de que somos fornecedores estratégicos”, disse.
O analista também ressaltou a necessidade de cautela em negociações sensíveis, como as de terras raras. “A China ainda ocupa posição central na estratégia brasileira, e isso exige equilíbrio”, completou.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Camila Srougi – Diante de um protecionismo tão agressivo dos Estados Unidos, até que ponto a desvalorização cambial e a busca por novos mercados podem fazer do Brasil um refúgio estratégico para investidores nesse novo xadrez comercial?
Gabriel Uarian – O Brasil é extremamente estratégico, sobretudo quando falamos de commodities e produtos que sofreram incidência maior de tarifas. Exportamos minérios, alimentos, carne bovina, café, suco, celulose e também componentes essenciais para a corrida tecnológica global, especialmente no campo das inteligências artificiais.
O governo, já no primeiro momento do tarifaço, buscou novos mercados com intensidade. Não chegou a suprir integralmente o que os Estados Unidos consumiam, mas conseguiu amenizar o impacto. Tanto que os balanços das empresas exportadoras vieram positivos ao longo do ano, sem grandes sustos. No fim do ano, inclusive, a bolsa brasileira atingiu novos recordes históricos, puxada principalmente por esses papéis.
Camila Srougi – Além da questão imediata das exportações, como essa tarifa de 10% — com possibilidade de chegar a 15% — afeta a atração de capital estrangeiro para o setor produtivo brasileiro, considerando que o mercado norte-americano está se tornando mais fechado e custoso?
Gabriel Uarian – O mercado norte-americano não deixará de comprar do Brasil. Neste momento a tarifa está em 10%, mas já há indicações de que poderá chegar a 15%, dentro do teto permitido pelo Trade Act de 1974. Ainda assim, não deixaremos de vender.
Quando houve o tarifaço anterior, principalmente no setor de alimentos, os preços subiram muito nos Estados Unidos. Em setores essenciais, pode haver alguma flexibilização ou alívio relativo, porque o próprio governo americano precisa controlar a inflação.
Para o Brasil, isso é positivo. Com os novos mercados abertos e nossa capacidade produtiva elevada, conseguimos atender tanto os novos parceiros quanto os Estados Unidos. As exportações diminuíram em alguns segmentos, mas não foram interrompidas.
Germano Oliveira – Quando o Brasil enfrentou aquele tarifaço de 50%, que gerou forte apreensão, muitos acreditavam que não conseguiríamos manter as vendas. Ainda assim, exportadores tiveram boa remuneração. Com tarifas de 10% ou 15%, é possível negociar para que elas se aproximem dos cerca de 2% que o Brasil cobra dos americanos?
Gabriel Uarian – Não devemos chegar a esse patamar de 2%. É preciso falar de maneira geral, porque existem setores muito distintos. Antes da declaração de ilegalidade, vários segmentos haviam conseguido reduzir significativamente as tarifas por meio de acordos.
Com a nova tarifa, alguns poucos setores foram prejudicados, enquanto outros até se beneficiaram, como o de maquinário. Empresas com forte exposição ao mercado americano sofreram mais quando ficaram de fora dos acordos.
No geral, não acredito que chegaremos a 2%. O patamar deve ficar entre 7% e 8%. É importante lembrar que as tarifas de 10% ou 15% têm prazo máximo de 150 dias. Ainda há muita negociação pela frente, e novas medidas podem surgir.
Neste momento, o mais estratégico é fortalecer os laços já existentes. O presidente evitou confrontos diretos em suas declarações, o que foi uma postura prudente. Nossa tarifa foi uma das mais altas do mundo por questões políticas, e estamos entrando em período eleitoral. Manter boas relações com Estados Unidos, Oriente Médio e Europa é fundamental.
Germano Oliveira – Em meio às negociações, há quem defenda que o Brasil deveria usar as terras raras como instrumento de barganha com os Estados Unidos, oferecendo acesso em troca de tarifas menores. Essa seria uma estratégia adequada?
Gabriel Uarian – É uma questão extremamente delicada. Nosso principal parceiro comercial é a China, que é grande compradora de minérios e produtos ligados às terras raras. Trata-se de um parceiro sólido e relevante.
Os Estados Unidos já dialogaram com a China sobre fornecimento desses insumos estratégicos. Se o Brasil agir de maneira precipitada, pode acabar prejudicando relações importantes.
As tratativas conduzidas pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, mostraram que essas negociações são complexas e exigem cautela.
Não é simplesmente abrir mão das reservas para obter redução tarifária. Temos outros parceiros comerciais igualmente interessados nesses recursos. Um movimento precipitado poderia gerar um problema maior do que o próprio tarifaço.
As conversas continuam e precisam ser conduzidas com equilíbrio estratégico.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:



