Foto divulgada pelo porta-voz militar de Israel, mostra tropas israelenses dentro do Líbano. (Foto: IDF)


Por Moisés Rabinovici

A guerra de 1948 entre Líbano e Israel pode estar nos seus últimos disparos.

Foguetes e drones do Hezbollah atingiram hoje a cidade israelense de Nahariya, a apenas 10 quilômetros da fronteira libanesa, incendiando uma casa.

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Ao mesmo tempo, tropas israelenses avançam no sul do Líbano, enquanto caças sobrevoam Beirute destruindo a infraestrutura do Hezbollah — cenários que começam a lembrar as ruínas de Rafah e Beit Hanoun, cidades de Gaza que eram dominadas pelo Hamas.

O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou que a ofensiva só terminará quando o Hezbollah deixar de representar uma ameaça para os habitantes do norte de Israel. Só então, disse ele, os sul-libaneses deslocados pela guerra poderão voltar às suas casas.

Desde 2 de março, segundo o porta-voz militar israelense, o Hezbollah tem disparado cerca de 100 foguetes por dia, em vingança pelo assassinato do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Foi o rompimento do cessar-fogo firmado em novembro de 2024, que já vinha sendo violado com frequência por ambos os lados.

O Hezbollah (“Partido de Deus”) começou a se formar após a invasão israelense do Líbano em 1982, com armas, financiamento e treinamento da Guarda Revolucionária iraniana. Ocupou o espaço deixado pela Organização de Libertação da Palestina (OLP), expulsa por Israel de Beirute quando seu líder, Yasser Arafat, partiu para o exílio em Túnis.

A OLP havia chegado ao Líbano depois do chamado “Setembro Negro”, em 1970, quando fracassou na tentativa de derrubar a monarquia jordaniana e foi expulsa do país. Sua presença tornou-se um dos fatores da guerra civil libanesa, que opôs cristãos e muçulmanos e se entrelaçou com as escaramuças constantes com Israel.

Numa manhã de agosto de 1982, Beirute acordou sem o barulho das bombas e com os sinos das igrejas repicando. O susto foi geral: a população não estava acostumada ao silêncio dos canhões. Era o cessar-fogo negociado pelo diplomata americano-libanês Philip Habib. Mas a trégua duraria pouco. Logo depois, nasceria oficialmente o Hezbollah.

Desde então, o Estado libanês jamais conseguiu impor autoridade plena sobre as milícias palestinas e, mais tarde, sobre a força militar criada pelo Irã em seu território.

Hoje, porém, o Líbano tenta fazer as pazes com Israel, encerrando formalmente o estado de guerra existente desde 1948.

Um encontro direto — o primeiro da história entre os dois governos — está em preparação. Ainda faltam a data e o local, que podem ser Chipre ou a França.

Do lado israelense, o negociador escolhido foi Ron Dermer, um dos principais confidentes do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Representando os Estados Unidos estaria Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump. O governo libanês ainda não anunciou quem falará por Beirute.

Se avançarem, as negociações poderão transformar o Líbano no terceiro vizinho árabe de Israel a assinar um tratado de paz, depois do Egito e da Jordânia.

A Síria, que seria o quarto, já teria indicado a Trump que poderá aderir aos Acordos de Abraão.

Mas esse cenário de paz permanece suspenso enquanto o Hezbollah continuar armado.

Como o Estado libanês não conseguiu desarmá-lo — apesar de ter assumido esse compromisso no cessar-fogo de novembro de 2024 — Israel continua a ofensiva. A barragem de foguetes e drones contra Nahariya deixou oito feridos.

Enquanto diplomatas preparam negociações históricas, a guerra continua perigosamente perto do coração religioso da região.

Fragmentos de mísseis balísticos iranianos e de seus interceptadores caíram hoje perto de três dos lugares mais sagrados do mundo: a Igreja do Santo Sepulcro, a Mesquita de Al-Aqsa e o Muro das Lamentações.

Ali, em poucas centenas de metros, se encontram os centros espirituais do cristianismo, do islamismo e do judaísmo.

E também a linha tênue entre a guerra que ainda continua e a paz que tenta nascer.