Por Germano Oliveira e Adriana Blak
O avanço acelerado do preço do barril de petróleo, que saltou de US$ 70 (R$ 368,20) para US$ 100 (R$ 526,00) em apenas duas semanas, intensifica o temor de uma nova onda inflacionária em escala global. O movimento pode frear investimentos e exige maior prudência dos agentes econômicos.
Para o analista Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, a combinação de juros elevados e petróleo caro cria um ambiente delicado para o Brasil. Ele destaca que as próximas decisões do Banco Central serão decisivas para definir o rumo da política monetária.
O Comitê de Política Monetária (Copom) inicia nesta terça-feira (17) reunião para avaliar a nova taxa de juros. A decisão será anunciada na quarta-feira: se os juros de 15% ao ano serão mantidos ou sofrerão algum corte. Antes da guerra no Oriente Médio, o BC havia sinalizado em ata a possibilidade de redução da Selic. Com o conflito, o cenário mudou.
A escalada da guerra, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, já provoca desarranjo global. O fechamento do Estreito de Ormuz pelos iranianos retém 20% do petróleo consumido no planeta. A alta dos combustíveis já impacta os postos nos EUA e começa a ter reflexos também no Brasil.
Em entrevista ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, nesta segunda-feira (16), Sidney Lima avaliou que o novo cenário internacional trouxe incerteza ao mercado financeiro e alterou expectativas sobre a trajetória da Selic. Segundo ele, investidores devem redobrar a atenção à reunião desta semana do Copom.
O analista lembra que a taxa de 15% está em vigor desde 20 de junho de 2025, quando o Banco Central decidiu elevá-la. Desde então, o Copom manteve o patamar em sucessivas reuniões — setembro, novembro e dezembro de 2025, além de janeiro de 2026. Na reunião anterior, o colegiado havia sinalizado afrouxamento monetário, mas isso ocorreu antes do início do conflito.
Até a semana passada, o mercado trabalhava com corte de 0,50 ponto percentual na Selic. Agora, os dados mais recentes indicam redução de apenas 0,25 ponto, com risco de uma decisão ainda mais conservadora.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Germano Oliveira – Depois de amanhã acontece a chamada “super quarta”, quando os bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos anunciam suas taxas de juros. A tendência é de queda tanto lá quanto aqui.
No Brasil, a maioria dos operadores do mercado financeiro aposta em uma redução de 0,25 ponto percentual, embora até o mês passado, antes da guerra, se falasse em queda de 0,50. O que você acha que vai acontecer na quarta?
Sidney Lima – Basicamente, o mercado está sempre tentando antecipar as expectativas e as consequências de toda a movimentação que temos no contexto geopolítico e econômico.
No caso específico do mercado brasileiro, nós tínhamos uma trajetória de arrefecimento dos preços, ou seja, uma desaceleração inflacionária que validava uma redução de meio ponto percentual da taxa Selic. Isso, inclusive, havia sido sinalizado nas entrelinhas pelo comunicado e pela ata da última reunião do Copom.
Só que, quando temos qualquer fator que afeta drasticamente a precificação do petróleo, principalmente para cima, isso gera um efeito cascata em toda e qualquer economia. O mercado norte-americano é muito impactado, mas o mercado brasileiro também, porque esses preços acabam sendo repassados para a sociedade.
Da semana passada para esta, o cenário mudou. Antes tínhamos expectativa de corte de 0,50 ponto percentual na Selic. Agora, olhando os dados do fechamento da última sexta-feira, o mercado trabalha com cerca de 56% de chance de uma redução de 0,25 ponto percentual.
Nesse caso, a Selic sairia de 15% para 14,75%. Há cerca de 37% de chance de manutenção da taxa e apenas 10% de chance de corte de 0,50.
Já quando olhamos para o mercado norte-americano, o cenário mudou bastante. Antes havia expectativa de início de cortes de juros em junho. Depois passou para julho. Agora, o mercado internacional projeta redução apenas em dezembro. Isso afeta diretamente todos os investimentos e toda a cadeia financeira global.
Germano Oliveira – O que estava favorecendo esse corte de juros, antes da guerra, é que a inflação estava caindo. Chegou a 5% e caiu para 4%. Isso animava todo mundo a acreditar que o Banco Central realmente iria cortar pelo menos 0,50 ponto percentual.
Sidney Lima – Exato. Nós monitoramos muito o Boletim Focus, divulgado semanalmente. Ele vinha reduzindo as expectativas para o IPCA e para a própria Selic.
Só que, nas últimas semanas, essa tendência começou a mudar. Para dar um exemplo: há um mês, a expectativa era de fechar o ano com a Selic em 12%. Hoje, a projeção já passou para 12,5%, o que demonstra uma mudança clara de comportamento das expectativas do mercado.
Adriana Blak – A questão é que a inflação pode voltar a subir por causa do aumento do petróleo nos últimos 15 dias, em razão da guerra contra o Irã. Isso pode impedir o Banco Central de reduzir a Selic? Existe a possibilidade de os juros nem se mexerem nesta quarta?
Sidney Lima – Quando falamos de Copom, sempre existe uma caixinha de surpresas. Mas a redução de 0,25% faz muito sentido para o mercado neste momento.
Se o Copom fizer um corte de 0,25, ele manda um recado de responsabilidade. Não seria um corte agressivo de 0,50, já que todo mundo sabe que o aumento do petróleo vai impactar a inflação.
Um corte de 0,50 poderia soar como irresponsável neste momento. Já a manutenção da taxa seria muito nociva para a economia brasileira, especialmente para o crédito e a inadimplência.
Por isso, as principais projeções convergem para o corte de 0,25 ponto percentual.
Nós tivemos recentemente um IPCA-15 e um IPCA levemente acima do esperado, e ainda nem foi contabilizado totalmente o impacto da alta do petróleo. O Banco Central sempre deixa claro que suas decisões serão baseadas nos dados futuros, e certamente esse tema será mencionado novamente.
Adriana Blak – Agora, Sidney, com a taxa Selic a 15%, muitas empresas estão quebrando porque o dinheiro está muito caro nos bancos. Afinal, com essa taxa temos juros reais de cerca de 11%, considerando uma inflação em torno de 4%. Esses juros reais desestimulam qualquer investidor a aplicar seus recursos no setor produtivo. Qual é o momento favorável para voltar a investir na produção?
Sidney Lima – Nós temos hoje uma dinâmica que exige cautela, principalmente quando olhamos para o agronegócio. O setor agro acabou sofrendo bastante com inadimplência recentemente, o que também impactou boa parte das instituições financeiras. Esse cenário aparece claramente nas últimas divulgações de resultados do próprio Banco do Brasil, que possui uma exposição muito grande da sua carteira ao agronegócio.
Essa é justamente a dinâmica que mencionei anteriormente. Seria muito nocivo para a economia brasileira se o Banco Central do Brasil não fizer nenhuma redução da taxa de juros e optar por mantê-la nesse patamar elevado.
Isso acontece porque boa parte das empresas já está bastante estrangulada pela alta carga de juros que precisa pagar. Esse custo financeiro elevado reduz a margem de lucro das companhias e compromete a saúde financeira e a continuidade de muitos negócios dentro do mercado brasileiro.
Quando olhamos especificamente para investimentos, esse é, sem dúvida, um ponto de atenção. Neste momento, ainda não existe uma clareza muito grande sobre o cenário.
Eu acredito que a diretriz mais clara para os grandes investidores não virá necessariamente apenas da divulgação da taxa de juros, mas principalmente do comunicado que será feito pelo Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central.
Isso porque essa será a primeira percepção concreta que o mercado terá sobre qual está sendo a sensibilidade do Copom diante de todos esses fatores que estão acontecendo agora. Na última reunião, esse cenário internacional de tensão e alta do petróleo ainda não existia.
Então, todo mundo quer entender exatamente isso: diante desse novo cenário, qual é a visão do Banco Central? O que os diretores do Copom estão esperando para os próximos meses?
A partir dessa leitura é que os investidores vão tomar decisões mais estruturadas em relação aos investimentos. No momento, porém, o cenário ainda não é dos melhores.
O Copom precisa lidar com uma linha muito tênue. De um lado, precisa reduzir os juros para flexibilizar as condições financeiras e amenizar o contexto de inadimplência no mercado brasileiro. Por outro lado, também não pode afrouxar demais, porque isso pode provocar uma aceleração da inflação.
Portanto, é um momento bastante delicado para a autoridade monetária, e todo o mercado vai acompanhar com atenção esse posicionamento para então tomar decisões de investimento.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:


