Dr. Marcon Censoni


Dr. Marcon Censoni*

O Brasil caminha para uma nova realidade oncológica. As estimativas mais recentes apontam cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano até 2028. Mesmo excluindo tumores de pele não melanoma, ainda são mais de 500 mil casos anuais. Entre os tumores mais incidentes estão mama, próstata, pulmão, colorretal e colo do útero.

Diante desses números, a discussão sobre diagnóstico precoce deixa de ser técnica e passa a ser estrutural.

Continua depois da publicidade

Existe uma confusão recorrente que precisa ser corrigida. Prevenção e diagnóstico precoce não são a mesma coisa.

Prevenção atua antes da doença surgir.
Diagnóstico precoce atua quando a doença já começou, mas ainda está em fase inicial.

Na prática:


• Parar de fumar reduz drasticamente o risco de câncer de pulmão
• Vacinar contra HPV previne câncer de colo do útero
• Controlar obesidade reduz risco de mama, endométrio e colorretal

Já o diagnóstico precoce acontece quando:


• Um nódulo mamário é investigado rapidamente
• Um sangramento intestinal leva à colonoscopia
• Uma lesão de pele é avaliada antes de evoluir

O câncer colorretal ilustra bem essa fronteira. A colonoscopia previne ao retirar pólipos e também diagnostica tumores iniciais. Em países como Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul, programas estruturados de rastreamento reduziram mortalidade de forma consistente ao longo das últimas décadas.

Nesse contexto, surge a discussão sobre o uso do AAS. Estudos mostram redução de adenomas em grupos específicos e benefício em síndromes hereditárias como Lynch. Mas não é uma estratégia universal. O risco de sangramento exige critério médico.

A tecnologia também trouxe avanços relevantes. O estudo MASAI mostrou aumento de detecção de câncer de mama com uso de inteligência artificial. Programas organizados na Europa, como na Suécia e no Reino Unido, já demonstram ganho de eficiência com integração entre imagem, triagem e fluxo assistencial.

No Brasil, centros como o A.C. Camargo Cancer Center, o Hospital Israelita Albert Einstein e o Sírio-Libanês já operam com protocolos estruturados que permitem diagnóstico mais rápido e integrado.

Mas há um ponto central.

Diagnóstico precoce não depende apenas de tecnologia.

Depende de execução.

O Brasil ainda enfrenta desafios importantes:
• Demora na realização de biópsias
• Atrasos em laudos anatomopatológicos
• Variabilidade de qualidade entre serviços
• Distâncias geográficas que dificultam acesso

Em muitos casos, o tumor já foi identificado, mas o paciente aguarda semanas pelo laudo definitivo.

E sem laudo, não há tratamento.

Como costumo dizer:

“Diagnóstico precoce não é apenas encontrar a doença cedo. É conseguir confirmar e agir rápido. Entre suspeita e tratamento, o que mais impacta o paciente é o tempo do sistema.”

Nos países onde o diagnóstico precoce realmente mudou desfechos, o diferencial não foi apenas tecnologia. Foi organização.

E esse é o ponto que ainda precisamos avançar.

*Dr. Marcon Censoni A. Lima é médico e cirurgião aparelho digestivo/robótica, membro corpo clínico do Hospital Albert Einstein e Hospital Sírio Libanês, especialista em Transformação Digital na Saúde pela Harvard Medical School e Head Depto. Medicina Hospitalar AC Camargo Cancer Center.